A INFLUÊNCIA DO CONSULTOR

Poucos consultores se dão conta do poder de influência que exercem no ambiente de uma organização, desde o momento em que são anunciados pela recepcionista com aquele ar de “lá vem o consultor” ou ainda “mais um consultor eu não agüento”. Uma organização nunca mais será a mesma depois de submetida à influência de uma consultoria.
 

O ambiente em geral se transforma, principalmente quando se trata de projetos de mudança organizacional. Ao entrar na empresa os olhares mudam, as pessoas se posicionam melhor na cadeira, muda-se a tela do micro, os diálogos ficam mais sérios, a conversa ao telefone diminui, os cumprimentos são mais cordiais e há sempre alguém disposto a oferecer um cafezinho para o consultor ainda que a copeira não tenha preparado essa indispensável distração matinal.

Todo profissional procura tratar bem o consultor, alguns por questão de solidariedade, outros por questão de segurança, pois é sempre bom estar junto daquele que na maioria das vezes é contratado para virar o ambiente de “pernas para o ar”, portanto, um pouco de cautela não faz mal, ainda mais para quem está na corda bamba e tem consciência de que pode ser a “bola da vez”, só depende do consultor.

Mudança organizacional é algo extremamente delicado. Como afirmou Tom Peters, “ninguém muda ninguém, nem mesmo um líder”. O esforço do consultor neste sentido depende de uma série de fatores alheios à sua vontade de realizar um bom trabalho embora o seu poder de influência seja visível nos primeiros meses de trabalho. Falo meses pelo fato de que qualquer mudança realizada em menos de um ano é algo digno de reflexão.

Com o tempo o consultor vai adquirindo certas “intimidades” no ambiente organizacional e, salvo melhor juízo, deve fazer um esforço brutal para não se deixar envolver pelas mazelas do mundo corporativo. E são muitas as armadilhas. Nunca falta alguém para questionar ou desmerecer o seu trabalho, razão pela qual as lideranças devem ser envolvidas do início ao fim do projeto, caso contrário, o boicote das lideranças é inevitável.

Um consultor inexperiente ou despreparado pode se deixar envolver facilmente por conta de um comentário aparentemente despretensioso repassado de maneira distorcida com extrema facilidade, ou até mesmo ingenuidade, para quem nunca deveria ter tomado conhecimento do assunto, o que pode comprometer seriamente o trabalho do consultor, portanto, todo cuidado é pouco.

O fato de o consultor exercer influência no ambiente não significa que vai conseguir o domínio a situação. O mundo corporativo difere de ambiente para ambiente e cada projeto é uma caixinha de surpresas digna de reflexão. Entender a organização requer um estudo profundo da situação e um envolvimento sério no âmago da questão, afinal, não se muda uma história de vinte ou trinta anos da noite para o dia simplesmente pela influência do consultor, ainda que se trate de um consultor experiente.

Ter consciência dessa influência e saber usá-la a seu favor é o que diferencia o bom consultor do consultor medíocre. Conheço inúmeros consultores que, apesar de ostentarem orgulhosos crachás de grandes empresas de consultoria, não fazem a mínima idéia de como conduzir um projeto de gestão e acabam se tornando reféns da sua própria ignorância.

Não há nada pior do que ser medíocre, principalmente no papel de consultor, do qual se espera muito e não se admite erros.

Jeronimo Mendes
20.03.2006