O ÓBVIO

Num dia desses, eu estava negociando um contrato de consultoria para reestruturação de uma empresa de médio porte com estilo de administração familiar quando, no meio de uma conversa relativamente descontraída, tocou o telefone do Diretor-Presidente. Empresas pequenas são boas por isso, você fica diretor ou presidente de cara, mesmo sem pró-labore.

Naturalmente, um bom contrato em jogo pressupõe concessões ilimitadas por parte do consultor a fim de agradar o cliente e a interrupção seria ótima para reflexão. Geralmente a negociação é dura. O cliente sempre quer pagar menos e o consultor sempre acaba fazendo mais por menos, às vezes menos por menos ainda. A frustração de ambos os lados é quase inevitável ao final do contrato. Um porque esperava muito, outro porque não pode fazer tudo.

- Aparício, bom dia!
- Oi, Aparício! É o Zeca, de Tocantins, tudo bem!
- Faaaaala, Zeca, tá sumido, rapaz? O que você conta de bom?

Depois de alguns minutos de blá-blá-blá o Presidente se tocou que eu estava ali e arriscou um adiamento da conversa.

- Depois eu te ligo, Zeca. Estou com um consultor aqui na minha frente.
- Ué, pra quê um consultor? (Imagino que tenha sido essa a pergunta do Zeca)

Sorridente e sem a menor cerimônia, Aparício disparou:

- Estou contratando um consultor para me cobrar caro e dizer exatamente aquilo que já sei, mas não tenho coragem de fazer!

Fiquei na minha, mas não pude conter o riso. Verdade seja dita: é mais fácil transferir a responsabilidade para um consultor que não possui vínculo algum com ninguém. Por outro lado, manter a lucidez necessária para suportar os meandros que permeiam o ambiente da empresa familiar é um exercício de cidadania e, portanto, é necessário paciência!

Jerônimo Mendes