Porto
Alegre, 24 de janeiro de 2005.
Coluna
Ponto de Vista – Empresas & Negócios
Responsabilidade
Social
Jornais
e revistas de todo o país estão recheados
de artigos que enaltecem a responsabilidade social como
a grande onda do futuro, compromisso irrecusável
das empresas que desejam perpetuar no mundo dos negócios
através da prática da solidariedade humana.
Refletir
a responsabilidade social nas empresas requer compreensão
e revisão de conceitos, sobretudo prática
do comportamento socialmente responsável, não
apenas em relação à comunidade
e ao ambiente externo, mas também ao ambiente
interno da organização.
A
questão a ser avaliada é a razão
pela a maioria das empresas ignora a responsabilidade
social no próprio ambiente de trabalho, onde
boa parte dos colaboradores sofre as conseqüências
de uma política mesquinha, nada solidária,
saindo e voltando para casa repletos de incertezas em
relação ao cargo ou ao posto de trabalho
ocupado na organização.
Ainda
que o ambiente corporativo seja o caos, premiar a comunidade
e apoiar projetos sociais é visto como mais vantajoso
do ponto de vista comercial, ético e solidário.
Por esses e outros motivos, inclusive interesses pessoais
dos próprios líderes, muitas empresas
esforçam-se para participar de campanhas que
acabam projetando o nome da organização.
Solidárias
nas dificuldades, ONGS e outras instituições
agarram-se ao patrocinador sem levar em conta o que
ocorre no ambiente interno da organização,
onde os empregados são vítimas de uma
guerra injusta e silenciosa, cujas baixas não
pormenorizadas figuram apenas nas estatísticas
globais do desemprego.
As
baixas no mercado de trabalho formal provocam a exclusão
social, temporária ou definitiva, de três
a quatro pessoas, considerando o número médio
de componentes da família brasileira.
As
empresas, por sua vez, buscam a participação
em projetos sociais, como forma de amenizar o impacto
do estrago social promovido dentro de si mesmas embora
a natureza do capitalismo não reflita essa preocupação.
Apesar
da mudança na composição da renda
familiar, por conta da necessidade de sobrevivência
e aumento do trabalho informal, significa que cada posto
de trabalho eliminado nas empresas abala a esperança
e a perspectiva de outros envolvidos no processo.
A
extinção dos empregos e a proliferação
do trabalho informal é o caos para o desenvolvimento
econômico de qualquer país. Tanto a informalidade
como as empresas legalmente constituídas sabem
que a carga tributária no Brasil é indigna,
portanto, valem-se de todos os recursos para fugir do
famigerado leão, devorador de sonhos e planos.
Por
conseqüência, o país arrecada menos,
a sonegação aumenta e os poucos sobreviventes
do trabalho formal se lamentam, sem ter como fugir do
desconto obrigatório do imposto de renda na folha
de pagamento, para suprir o apetite insaciável
da dívida pública.
No
capitalismo, eliminar postos de trabalho e participar
de projetos sociais não difere muito na essência
e na prática. Ambos tem finalidades semelhantes:
enxugar custos e amenizar o impacto da carga tributária
no resultado final do balanço. Lucro e balanço
social são indispensáveis na demonstração
dos resultados, por obrigação e necessidade
de perpetuação.
Para
muitas empresas, a responsabilidade social é
um exame de consciência, o pagamento dos próprios
pecados em relação ao desemprego. De certa
forma, a participação em projetos sociais
ameniza a responsabilidade e o impacto das estatísticas
que ela mesma ajudou a construir quando a alternativa
mais cômoda foi a redução do quadro.
É
difícil acreditar na iniciativa humanitária
das empresas, mas há como separar o joio do trigo.
Existem empresas socialmente responsáveis ao
redor do mundo, algumas por força da legislação,
outras pelo caráter obstinado e benevolente de
seus fundadores.
O
mundo é repleto de histórias de empreendedores
que não fazem do lucro o único sentido
de realização na vida, mas o instrumento
que lhes permite devolver parte do conforto e segurança
oferecidos a eles em abundância pela própria
sociedade.
Qualquer
profissional tem em mente pelo menos três empresas
que mais admira, onde teria enorme prazer e orgulho
de trabalhar, todas éticas e socialmente responsáveis.
Por
certo, nenhuma delas conquistou lugar no mercado apenas
pela qualidade dos seus produtos e sim pelas atitudes
de respeito no relacionamento com os acionistas, empregados,
clientes, fornecedores e, principalmente, o meio-ambiente.
A
empresa que oferece aos empregados um código
de ética expressando tudo o que deve ou não
ser praticado não considera que eles esperam
a mesma reciprocidade quando as dificuldades ameaçam
a relação profissional, motivo pelo qual
as frustrações afloram antes mesmo do
primeiro diálogo entre patrão e empregado.
Dessa
forma, a dúvida entre o que se prega e o que
se pratica é um dos maiores focos de desgaste
no relacionamento, pois é difícil aceitar
o fato da empresa gastar rios de dinheiro para promover
o bem fora dela e ao mesmo tempo não investir
para o bem dos próprios empregados.
Antes
de optar pelos projetos externos, as empresas deveriam
fazer uma pesquisa interna para apurar o nível
de satisfação dos empregados. Se o índice
for favorável, aí sim, ela deve partir
para algo mais ambicioso com ajuda dos próprios
colaboradores, caso contrário, o projeto social
mais importante a ser adotado encontra-se no seu próprio
ambiente.
Talvez
por essa razão poucas empresas se arrisquem a
consultar os empregados. E talvez por essa mesma razão
seja mais fácil investir em projetos sociais
externos do que internos.
Jerônimo
Mendes
Administrador, Consultor e Palestrante
Autor do livro Oh, Mundo Cãoporativo! Lições
e Reflexões