Os
poemas reproduzidos a seguir são declamados
durante as minhas palestras e foram selecionados
ao longo do tempo de acordo com o tema e minha simpatia
pelo autor. Faz parte de uma ampla biblioteca de
livros de poesia desde os meus tempos de moleque.
Optei pela poesia como forma de transmitir melhor
as mensagens e ao mesmo tempo privilegiar esse gênero
sempre ameaçado de extinção.
Deus
dá a todos uma estrela,
Uns fazem dela um sol,
Outros nem conseguem vê-la.
CANÇÃO DO TAMOIO
Autor:
Gonçalves Dias
Não
chores, meu filho,
Não chores, que a vida
É luta renhida,
Viver é lutar;
A vida é combate
Que os fracos abate,
Os pobres, os fortes,
Só pode exaltar!
MOTIVO
Autor:
Cecília Meireles
Eu
canto porque o instante existe
E a minha vida está completa
Não sou alegre nem triste:
Sou poeta.
Irmão
das coisas fugidias
Não sinto gozo nem tormento
Atravesso noites e dias
No vento.
Se
desmorono ou se edifico,
Se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei
se fico
- ou passo.
Sei
que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.
“SE”
Rudyard Kipling (Tradução de Guilherme
de Almeida)
Se
és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e
te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;
Se és capaz de pensar -sem que a isso só
te atires,
De sonhar -sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;
Se és capaz de arriscar numa única
parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos,
músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";
Se és capaz de, entre a plebe, não
te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao mínimo fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no
mundo
E o que mais - tu serás um homem, ó
meu filho!
SONETO DE FIDELIDADE
Autor:
Vinícius e Moraes
De tudo, ao meu amor serei atento,
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero
vivê-lo em cada vão momento
E em seu lovou hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar e seu contentamento.
Assim,
quando mais tarde me procure,
Quem sabe a morte, angústia de quem vive,
Quem sabe a solidão, fim de quem ama,
Eu
possa me dizer do amor (que tive)
Que não seja imortal, posto que é
chama,
Mas que seja infinito enquanto dure.
SONETO DE SEPARAÇÃO
Autor:
Vinícius de Moraes
De repente do riso fez-se o pranto,
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto
De
repente da brisa fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressntimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De
repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se
do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante,
De repente, não mais que de repente.
ESPELHO MÁGICO DA DISCRIÇÃO
Autor:
Mário Quintana
Não
te abras com teu amigo
Que ele um outro amigo tem.
E o amigo do teu amigo
Possui amigos também.
NATUREZA ÍNTIMA
Autor:
Augusto dos Anjos
Cansada
de observar-se na corrente
Que os acontecimentos refletia,
E reconcentrando-se em si mesma, um dia,
A natureza olhou-se interiormente.
Baldada
introspecção! Noumenalmente
O que ela, em realidade, ainda sentia
Era a mesma imortal monotonia
De sua face externa indiferente!
E
a natureza disse com desgosto:
Terei somente, porventura, rosto?!
Serei apenas mera crusta espessa?!
Pois
é possível que Eu, causa do mundo,
Quanto mais em mim mesmo me aprofundo
Menos interiormente me conheça?!
MORTE E VIDA SEVERINA
Autor:
João Cabral de Melo Neto
O
meu nome é Severino,
Não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
Que é santo de romaria,
Deram então de me chamar
Severino de Maria;
Como há muitos Severinos
Com mães chamadas Maria,
Fiquei sendo o da Maria
Do finado Zacarias
Mas isso ainda diz pouco:
Há muitos na freguesia,
Por causa de um coronel
Que se chamou Zacarias
E que foi o mais antigo
Senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
Ora a vossas senhorias?
Vejamos: é o Severino,
Da Maria do Zacarias,
Lá da Serra da Costela,
Limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
Se ao menos mais cinco havia
Como nome de Severino
Filhos de tantas Marias
Mulheres de outros tantos,
Já finados, Zacarias,
Vivendo na mesma serra
Magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
Iguais em tudo na vida:
Na mesma cabeça grande
Que a custo é que se equilibra,
No mesmo ventre crescido
Sobre as mesmas pernas finas,
E iguais também porque o sangue
Que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
Iguais em tudo na vida
Morremos de morte igual,
Mesma morte Severina:
Que é a morte de que se morre
Na velhice antes dos trinta,
De emboscada antes dos vinte,
De fome um pouco por dia.
De fraqueza e de doença
é que a morte Severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida.
Somos muitos Severinos
Iguais em tudo e na sina:
A de abrandar estas pedras
Suando-se muito por cima,
A de tentar despertar
Terra sempre mais extinta,
A de querer arrancar
Algum roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
Melhor Vossas Senhorias
E melhor possam seguir
A história de minha vida,
Passo a ser o Severino
Que em vossa presença emigra.