Os poemas reproduzidos a seguir são declamados durante as minhas palestras e foram selecionados ao longo do tempo de acordo com o tema e minha simpatia pelo autor. Faz parte de uma ampla biblioteca de livros de poesia desde os meus tempos de moleque. Optei pela poesia como forma de transmitir melhor as mensagens e ao mesmo tempo privilegiar esse gênero sempre ameaçado de extinção.

Jerônimo

 
AUTOPSICOGRAFIA
ILUSÕES DA VIDA
ESTRELA
CANÇÃO DO TAMOIO
MOTIVO
SE
SONETO DE FIDELIDADE
SONETO DE SEPARAÇÃO
ESPELHO MÁGICO DA DISCRIÇÃO
NATUREZA ÍNTIMA
MORTE E VIDA SEVERINA

 

 


AUTOPSICOGRAFIA

Autor: Fernando Pessoa

O poeta é um fingidor,
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escrevem
Na dor lida sentem bem
Não as dores que ele teve,
Mas só as que ele não tem.

E assim nas calhas de roda
Gira a entreter a razão
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

 


ILUSÕES DA VIDA

Autor: Fancisco Otaviano

Quem passou pela vida em branca nuvem
E em plácido repouso adormeceu,
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu,
Foi espectro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida e não viveu!

 


ESTRELA

Autor: Helena Kolody

Deus dá a todos uma estrela,
Uns fazem dela um sol,
Outros nem conseguem vê-la.

 


CANÇÃO DO TAMOIO

Autor: Gonçalves Dias

Não chores, meu filho,
Não chores, que a vida
É luta renhida,
Viver é lutar;
A vida é combate
Que os fracos abate,
Os pobres, os fortes,
Só pode exaltar!

 


MOTIVO

Autor: Cecília Meireles

Eu canto porque o instante existe
E a minha vida está completa
Não sou alegre nem triste:
Sou poeta.

Irmão das coisas fugidias
Não sinto gozo nem tormento
Atravesso noites e dias
No vento.

Se desmorono ou se edifico,
Se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
- ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.



“SE”


Rudyard Kipling (Tradução de Guilherme de Almeida)

Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;
Se és capaz de pensar -sem que a isso só te atires,
De sonhar -sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;
Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";
Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao mínimo fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais - tu serás um homem, ó meu filho!


SONETO DE FIDELIDADE

Autor: Vinícius e Moraes


De tudo, ao meu amor serei atento,
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu lovou hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar e seu contentamento.

Assim, quando mais tarde me procure,
Quem sabe a morte, angústia de quem vive,
Quem sabe a solidão, fim de quem ama,

Eu possa me dizer do amor (que tive)
Que não seja imortal, posto que é chama,
Mas que seja infinito enquanto dure.

 


SONETO DE SEPARAÇÃO

Autor: Vinícius de Moraes


De repente do riso fez-se o pranto,
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da brisa fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressntimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante,
De repente, não mais que de repente.

 


ESPELHO MÁGICO DA DISCRIÇÃO

Autor: Mário Quintana

Não te abras com teu amigo
Que ele um outro amigo tem.
E o amigo do teu amigo
Possui amigos também.


NATUREZA ÍNTIMA

Autor: Augusto dos Anjos

Cansada de observar-se na corrente
Que os acontecimentos refletia,
E reconcentrando-se em si mesma, um dia,
A natureza olhou-se interiormente.

Baldada introspecção! Noumenalmente
O que ela, em realidade, ainda sentia
Era a mesma imortal monotonia
De sua face externa indiferente!

E a natureza disse com desgosto:
Terei somente, porventura, rosto?!
Serei apenas mera crusta espessa?!

Pois é possível que Eu, causa do mundo,
Quanto mais em mim mesmo me aprofundo
Menos interiormente me conheça?!

 


MORTE E VIDA SEVERINA

Autor: João Cabral de Melo Neto

O meu nome é Severino,
Não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
Que é santo de romaria,
Deram então de me chamar
Severino de Maria;
Como há muitos Severinos
Com mães chamadas Maria,
Fiquei sendo o da Maria
Do finado Zacarias
Mas isso ainda diz pouco:
Há muitos na freguesia,
Por causa de um coronel
Que se chamou Zacarias
E que foi o mais antigo
Senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
Ora a vossas senhorias?
Vejamos: é o Severino,
Da Maria do Zacarias,
Lá da Serra da Costela,
Limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
Se ao menos mais cinco havia
Como nome de Severino
Filhos de tantas Marias
Mulheres de outros tantos,
Já finados, Zacarias,
Vivendo na mesma serra
Magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
Iguais em tudo na vida:
Na mesma cabeça grande
Que a custo é que se equilibra,
No mesmo ventre crescido
Sobre as mesmas pernas finas,
E iguais também porque o sangue
Que usamos tem pouca tinta.
E se somos Severinos
Iguais em tudo na vida
Morremos de morte igual,
Mesma morte Severina:
Que é a morte de que se morre
Na velhice antes dos trinta,
De emboscada antes dos vinte,
De fome um pouco por dia.
De fraqueza e de doença
é que a morte Severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida.
Somos muitos Severinos
Iguais em tudo e na sina:
A de abrandar estas pedras
Suando-se muito por cima,
A de tentar despertar
Terra sempre mais extinta,
A de querer arrancar
Algum roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
Melhor Vossas Senhorias
E melhor possam seguir
A história de minha vida,
Passo a ser o Severino
Que em vossa presença emigra.