Reflexão é o único antídoto capaz de inocular a vontade incontrolável do homem de nutrir o desprezo pelos problemas do mundo. Vive-se boa parte da vida pensando pelos outros, contrariando desejos mínimos e absorvendo interferências em nossa formação moral e psicológica, da própria opinião. Falta-nos coragem para assumir erros e adotar uma postura digna, sugerida pela alma após uma reflexão honesta.

A evolução vem pela reflexão e atingi-la num grau máximo significa compreender e aplicar as leis naturais do universo.

Nessa ordem de pensamento encaixa-se a poesia, em todas as suas formas. O poeta tem papel importante no universo e cumpre sua difícil tarefa, a duras penas, numa sociedade que não dá importância para o lado poético da vida.

A poesia é oscilante, mas eterna. Quando ouço palavras lançadas ao vento de que a poesia está ultrapassada, conforto-me na poesia de todos os tempos, onde Augusto dos Anjos esculpiu a humana mágoa, Baudelaire cultivou as flores do mal, Drummond resistiu a todas as pedras no caminho e João Cabral de Melo Neto cumpriu a sua sina.


Tudo vale a pena se a alma não é pequena.
Fernando Pessoa

Jerônimo Mendes

 
   

À DERIVA
A FLORESTA MÁGICA
A SEMENTE
A SENTENÇA
ABORTO
AH, SE EU PUDESSE . . .
AMIGOS
ANDARILHO
ASAS NOS PÉS
AUSENTE
BEM E MAL
BRASIL 500 ANOS
BRILHANTES
CEM ANOS DEPOIS
CIDADE GRANDE
CONDOMÍNIO
CONTRADIÇÃO
CORAÇÃO
CRESCER
DEPRESSÃO
DEUS
DINHEIRO
DISCURSO DE UM FAMINTO
DOR
E AS ESTRELAS?
ENTRE QUATRO PAREDES
ESTOU VIVO!
ETERNA BUSCA
EU
EU PENSADOR
FAMÍLIA
FILHOS
FRIA MULTIDÃO
FUTURO INCERTO
IGUAIS EM TUDO E NA SINA
IMPLOSÃO
JUÍZO FINAL
LAMENTO
MIOPIA
MISSÃO DE UM ANJO
NOSSO É O REINO
O AMANHÃ
O GUIA
O LÍDER
O PODER DA MÍDIA
O PRIMEIRO ENCONTRO
O SILÊNCIO DE UM QUARTO
O TEMPO
O UNIVERSO
PALAVRAS DE POETA
POESIA
QUANTO MAIS NOS RESTA?
QUE MUNDO É ESSE?
QUERER É PODER
SE
SELVA DE PEDRA
SOLIDÃO
SOMBRAS DA VIDA
TERRA IMAGINÁRIA
TERRA
TODAS AS FORMAS DE AMAR
TRABALHO DE AMOR
UM PAÍS
UMA LUZ
UMA NOVA MULHER
VIVER E LUTAR
VOAR ALTO

 

 

À DERIVA


Autor: Jerônimo Mendes


Por esse mar onde navego
a tempestade nunca se acalma,
o vento atravessa a alma,
por vezes me deixa cego,
quando não cego, olhos marejados,
pernas trêmulas, braços cansados,
o sol é mera possibilidade,
ele próprio teme a tempestade,
é preciso suar no comando do navio,
a superfície é extensa,
a vida é um pequeno rio
apenas com a diferença :
o rio segue a corrente
e sabe onde quer chegar,
o homem se opõe à corrente
e perde a noção do mar . . .

 


A FLORESTA MÁGICA


Autor: Jerônimo Mendes


Abro os olhos,
surge à minha frente
um carvalho falante e diferente,
caminhos de pedras brilhantes,
arbustos falantes,
todos os tipos de gigantes,
vagalumes iluminam os cantos,
rendo-me aos encantos,
os animais me servem de guia,
seguem meus passos em
harmonia;
água límpida e cristalina,
a mesma pureza dos olhos de
uma menina
reflete raios de sol e magia
em pleno amanhecer do dia,
não ando, deslizo,
sou inteiramente sorriso
entre fadas, anões e cavalos
alados,
feliz no paraíso
das estórias da minha infância,
fecho os olhos,
saudade dos bons tempos de
criança.

 


A SEMENTE


Autor: Jerônimo Mendes


Era uma simples semente,
minúscula, despretensiosa,
esquecida num buraco,
jogada lá por acaso
no chão seco, meio raso,
solo pobre, solo fraco,
sem condições de crescer,
de multiplicar, muito menos,
mas persistia semente,
no fundo meio carente,
clamando uma gota de chuva,
louca para despertar
e o solo fecundar,
esperava paciente,
firme sob o sol quente,
resistindo a toda prova,
crente que a natureza renova
e respeita as próprias leis.
E por ser inteligente,
simplória e humilde semente,
tornou-se uma árvore estrondosa,
de todas a mais vistosa,
de dar orgulho na gente,
sem jamais ter esquecido:
era uma simples semente.

 


A SENTENÇA


Autor: Jerônimo Mendes


Procurei, à luz do dia,
um amigo diferente
para servir?me de guia
numa luta penitente.

Caminhei horas a fio
sob um triste soluçar,
era grande o meu vazio
que não saí do lugar.

E quanto mais eu andava
longe era o fim do caminho,
minha sombra acompanhava,
eu não sofria sozinho.

E depois de muito andado
sem absoluto sucesso
fui por mim mesmo julgado,
declarei?me réu confesso.

Severíssima sentença,
em vez da pena de morte,
foi aumentar minha crença
num espírito mais forte.

Cumpro feliz esta pena
levando a sério o conceito,
jamais alguém me condena,
que ninguém nasceu perfeito.

 


ABORTO

Autor: Jerônimo Mendes


Num instante de vacilo,
loucos de amor e desejo,
dentes cerram o mamilo,
aproveitam o ensejo.

Quando a cabeça de baixo
dominar a principal,
tudo vai por água abaixo
fugindo ao tradicional.

Corpos ardentes e nus,
sem juízo e sem maldade,
concebem, sem fazer jus,
em nome da liberdade.

Mas a lei do desespero
faz o pobre natimorto,
mais abuso do que esmero,
prospera a indústria do aborto.

Adultos, cabeça feita,
sempre donos da razão,
longe de qualquer suspeita,
exterminam o embrião.

Crueldade que resiste
aos olhos da sociedade,
condição mísera e triste
da falsa moralidade.


Filhos assim rejeitados,
frutos perpétuos da dor,
inocentes e culpados
órfãos de paz e amor.

 


AH, SE EU PUDESSE . . .


Autor: Jerônimo Mendes


Caminhar pelas estrelas,
pular de planeta em planeta,
unir-me ao branco das nuvens,
ao azul do infinito,
entrar nos raios do sol
ou saltitar sobre a lua,
percorrer a via-láctea
e outras galáxias mais,
eu não seria o mesmo,
viveria em paz
feito um grãozinho de areia
acariciado pela água do mar
numa praia deserta,
seria tão feliz
quanto a mata virgem
ao leve sussurro da brisa.

Ah, se eu pudesse voar
e fosse me dado o poder de mudar,
eu não viveria a esmo
e o mundo não seria mais o mesmo !

 


AMIGOS


Autor: Jerônimo Mendes


Escassos no dia-a-dia,
difíceis de se fazer,
pela escassez, talvez,
sonhamos em ter.

À nossa disposição
quando menos precisamos,
um ombro com que contamos
a deixar-nos sempre na mão.

Estão em fuga permanente,
sorriem na tua presença,
apenas um amigo aparente
disposto a qualquer ofensa.

Teu amigo é você mesmo
durante o tempo necessário,
o único capaz de ajudá-lo
sem críticas ou honorários.

Amigos, amigos,
negócios à parte.
Verdadeiros amigos ?
Uma obra de arte.

 


ANDARILHO


Autor: Jerônimo Mendes


Sem rumo nem teto,
sobre a laje de concreto,
sou cego, surdo e mudo.

Caminho horas a fio,
um dependente de estômago vazio,
levo a vida, mas não me iludo.

Sou hóspede da próxima esquina
e o banco da praça, uma sina,
acolhe-me com carinho.

Ali eu me sinto seguro
despreocupado com o futuro,
livre como um passarinho.

Talvez com um pouco de sorte
consiga, através da morte,
conquistar o paraíso.

Será a única chance,
ter de volta, ao meu alcance,
o velho e fiel sorriso.

 


ASAS NOS PÉS

Para Carmem de Oliveira, primeira brasileira
a conquistar a São Silvestre em 31.12.95


Autor: Jerônimo Mendes


Passadas firmes e largas passadas
ganhando ruas, asfalto, calçadas,
a grande multidão, fiel torcida,
impulso necessário na avenida.

Foi um dia em que a força de vontade
dominou cada esquina da cidade,
minutos de emoção em nossas casas
assistindo teus pés ganharem asas.

Nem o vento conseguiu acompanhá-la
ao mesmo tempo em que eu perdi a fala
tomado por um instante de paz
ao ver as concorrentes para trás.

E tantas lágrimas, formando um rio,
correram juntas neste desafio,
a persistência transformada em glória,
sabor incomparável da vitória.

Feliz a carregar nossa bandeira
cruzou a linha uma nação inteira,
apenas um adversário na frente,
a emoção incontida da tua gente.

 


AUSENTE


Autor: Jerônimo Mendes


Eu sou aquele . . .

. . . que recusou auxílio
para o irmão da esquina e o filho.

. . . que sempre recebeu tudo
e usou o dinheiro como escudo.

. . . que te deixou dormindo no frio
consciente do teu estômago vazio.

. . . que afirmou ser teu amigo
e ao mesmo tempo roubou teu abrigo.

. . . que desconhece na fome e na dor
um simples ato de amor.

. . . que endureceu o coração e a mente
tendo mais que o suficiente.

. . . que conhece o próprio destino
no dia do juízo final

. . . sem tempo de arrepender-se
tendo feito tanto mal.

 


BEM E MAL


Autor: Jerônimo Mendes


A perseguir nossas sombras,
paralelo dual,
opostos e juntos,
bem e mal.

Equilíbrio desigual
em campos iguais,
à espera da opção,
nada mais.

Uma constante fusão
entre o ser e o não ser,
visão dupla, distorcida,
mistérios da vida.

Forças opostas que se atraem,
a princípio, fatais,
diferença brutal,
à esquerda: o bem, à direita: o mal.

Em nome do mal, a maioria,
em nome do bem, a minoria,
o bem acima do mal,
utopia.

 


BRASIL 500 ANOS


Autor: Jerônimo Mendes

Era uma vez um país
onde o índio era feliz,
muito verde, céu de anil;
orgulho da natureza,
incomparável beleza,
Santa Cruz do meu Brasil.

Numa terra tão estranha
a riqueza era tamanha
que o homem não hesitou ;
movido a sonho e cobiça,
rezou a primeiro missa
e o reino assim começou.

Em meio a tanta floresta
o índio vivia em festa
até que o homem chegou ;
quantas almas arrancadas
entre árvores tombadas
e o vermelho que jorrou.

BRASIL, tu és a criança
que não perde a esperança
de ter o brilho no olhar ;
tu és o melhor presente
que faz a alma da gente
lutar, sorrir e sonhar ! ! !

O branco foi dominando
sob rígido comando
toda terra que avistou ;
de norte a sul do Brasil
desceu a costa e subiu,
porém, não se contentou.

A ganância tomou conta
e o mar, de ponta a ponta,
foi incapaz de gerar
a riqueza suficiente
para o bem de tanta gente
cujo dom era gastar.


Veja, Vossa majestade,
quanta dor, quanta maldade,
fizeste o Brasil passar ;
poucas vozes resistentes,
bravos heróis, Tiradentes,
só a morte fez calar.

BRASIL, tu és a criança
que não perde a esperança
de ter o brilho no olhar;
tu és o melhor presente
que faz a alma da gente
lutar, sorrir e sonhar ! ! !

Entre reinos e reinados,
escravos escravizados,
é difícil governar ;
tem de ter um pulso forte
e lutar até a morte
na certeza de mudar.

Meu Deus, é preciso vontade
pra mudar a realidade
que castiga este país ;
é preciso ser radiante,
ter a força de um gigante,
fazer um povo feliz.

Não se faz por linha dura,
decreto nem ditadura,
uma nação superior ;
basta unir mãos calejadas
com mãos privilegiadas
num simples gesto de amor.

Cinco séculos de história,
quinhentos anos de glória,
o tempo corre ligeiro,
mas não rouba a confiança
de um país ainda criança
capaz de ser o primeiro.

BRASIL, tu és a criança
que não perde a esperança
de ter o brilho no olhar;
tu és o melhor presente
que faz a alma da gente
lutar, sorrir e sonhar !!!

 


BRILHANTES


Autor: Jerônimo Mendes


Teus olhos
cintilantes
ante meus olhos
brilhantes,
jóias raras,
diamantes,
vales de lágrimas
transbordantes,
águas claras
fascinantes,
faróis dos meus olhos
navegantes,
razão de sermos
eternos amantes.


Teus olhos marcantes
não me deixam ser o mesmo
de antes . . .

 


CEM ANOS DEPOIS


Autor: Jerônimo Mendes


Há nenhuma diferença
do tempo da escravidão,
hoje o negro vive preso,
pura discriminação,
é punido com rigor
e associado ao ladrão,
leva chumbo da polícia
seja culpado ou não.

Vive sempre vigiado
na loja ou no calçadão,
em boca de branco é lembrado
por piada ou gozação
e se ficar irritado
só arruma confusão
ou acaba espancado
a caminho da prisão.

Vida certa no xadrez
sem futuro e sem visão,
fez nada, mas dizem que fez,
declaram-no mau cidadão,
visto com indiferença
na hora da seleção,
se o negro diz a verdade
nunca está com a razão.

O branco tolo deseja
ao negro a difamação,
sua alma é bem mais negra
desfazendo-se do irmão,
jamais dormirá em paz,
sem aprender a lição,
terá de volta somente
sua própria escravidão.

 


CIDADE GRANDE


Autor Jerônimo Mendes


Viver em paz na cidade
não é nada fácil, não,
a violência mora ao lado
e persegue o cidadão,
faz dele um enclausurado
sem nenhuma educação,
mal cumprimenta o vizinho,
desconfia até do irmão.

Ter amigos é difícil,
cada qual vive por si,
todo mundo isolado,
rispidez que nunca vi,
o pedestre atropelado,
apenas observado,
objeto desprezado
por todos que passam ali.

Caminhar pelas calçadas
com o ar de bonachão,
dá direito a joelhadas
seguidas de confusão;
hoje o passo acelerado,
no meio da multidão,
evita o bolso roubado
do pobre do cidadão.

Poucos assim se arriscam
a disputar um espaço,
mas perdem do camelô
que não quer saber de nada
e ganha os fiscais no cansaço;
apesar de haver a lei
o camelô é o rei
e a polícia um fracasso.

Da praia, então, nem se fala,
o destaque é o arrastão,
a bala perdida cala
o infeliz do teu irmão
que quis levar a família
num domingo de verão
e acabou no IML
para identificação.

Na cidade tudo é lindo,
violência, poluição,
motoristas indo e vindo
na calçada e contramão,
ônibus sempre lotados
por falta de mais opção,
passageiros enlatados
saindo pelo ladrão.

Trombadinhas à vontade,
abandonados, mendigos,
traficantes e bandidos,
na maior impunidade,
desafiam a polícia
com propina e com malícia,
fazem o caos da cidade
e garantem a notícia.

Aqui na cidade grande
é fácil morrer, meu irmão,
se não for bala perdida
pode ser que algum ladrão,
por um simples par de tênis,
atire num estudante
na frente dos seus amigos,
isento de punição.

E viva a cidade grande,
todos querem conhecer,
pensam que nela, a vida,
é simples de se fazer,
mal sabem que na cidade,
os sonhos vivos na mente
são sonhos de tanta gente
que perdeu a liberdade.


CONDOMÍNIO


Autor: Jerônimo Mendes


Condômino e condomínio,
em estado de declínio,
travam guerras permanentes,
pontos de vistas diferentes,
normas, regras, imposições,
nervos à flor da pele,
excesso de regulamento,
despesas a todo momento,
síndico cara feia,
focinho na vida alheia,
vizinho carrancudo,
um barulhento, outro mudo,
elevador indisponível,
gritos, limpeza sofrível,
crianças enclausuradas,
em janelas debruçadas,
tristeza, arrependimento,
aperto no apartamento,
acima, alguém na banheira,
abaixo, sexo à noite inteira,
ruído no encanamento,
solidão, esquecimento,
aglomerado de individualistas,
inquilinos anarquistas,
proprietários narcisistas,
um verdadeiro declínio,
condômino e condomínio.

 


CONTRADIÇÃO


Autor: Jerônimo Mendes


Viver a contradição
entre razão e emoção
parece ser minha sina
sob influência divina.

De dia o computador
ameniza minha dor,
à noite uma outra missão,
papel e lápis na mão.

Ser feliz executivo,
profissional emotivo,
tudo isso em nada afeta
minha veia de poeta.

Ah, se eu pudesse escolher
e dela sobreviver,
de corpo e alma diria :
eu prefiro a poesia.

 


CORAÇÃO

Autor: Jerônimo Mendes


Pudera ser feito de aço
e não parasse jamais
irrigando cada pedaço
dos meus instintos carnais.

Deixaria nenhum traço
das dores à beira do cais,
daquele visível cansaço
que carrega minha paz.

Porém, é tudo na vida
com presença garantida
na hora do choro e do riso.

Fosse frio feito o aço
morreria ao menor passo
antes do primeiro aviso.

 


CRESCER


Autor: Jerônimo Mendes


De um mundo muito distante
recebo, a todo instante,
pensamentos aos milhares;

pensador e visionário,
do meu cérebro ordinário,
nada escapa aos seus olhares.

Personagem analítico,
de mim mesmo sou um crítico
e o carrasco mais fiel ;

penso às vezes ser um louco,
o que fiz foi muito pouco,
mais para o inferno que o céu.

Bendita e sã consciência
que rói minha prepotência
com requintes de perversidade;

difícil e longa jornada
ainda mal começada
em busca da eternidade.

 


DEPRESSÃO


Autor: Jerônimo Mendes


Sentado aqui feito um escriba
percorro num segundo Curitiba,
à mercê do tempo e dos ruídos
que martelam os meus ouvidos.

Corre o meu pensar deliberado
dando asas ao olhar compenetrado,
concebe-me apenas o impossível
semelhante à concepção do dirigível.

É o fruto do dia mais agitado
em busca do salário contado
embora a consciência me diga :
tu não és cigarra, és formiga.

E eu vejo, não muito longe de casa,
um e outro transeunte perdido,
mísero que a si mesmo arrasa,
adepto da psicologia do vencido.

Algo bate e rebate na consciência
martirizando minha inteligência
como se eu fosse o responsável
por toda essa situação lastimável.

A depressão toma lugar na sala,
inibe meu sorriso e minha fala,
bloqueia meu intelecto
em todas as desgraças que detecto.

Por fim, a vida parece acabada
na minha concepção abalada,
vejo o futuro indignado,
um otimista que mudou de lado.

Tantos reclames de uma vida errante
soa ridículo e deselegante
quando acordo e penso novamente :
sou homem, sou útil, sou gente.

 


DEUS

Autor: Jerônimo Mendes


Todo ar em movimento
visível aos olhos meus,
presente na fúria do vento,
dá?me a certeza que Deus

anda solto pelas ruas
de sandália ou de sapato,
tomando as dores de fato
de peles cobertas e nuas

à mercê do sofrimento,
sem o uso da palavra
diante da guerra que trava
contra seu próprio invento,

vendo o excesso de matéria
escapar às mãos do homem,
testemunhando a miséria
dos que vivem e não comem,

sofrendo a dor e o desgosto
de ver o mundo no abismo
envolto num mar de cinismo,
caminhando a lado oposto

sem rosto nem religião,
sem mínima consciência,
crente apenas na ciência
sem a paz no coração,

dividido em várias crenças
carentes de luz e respeito,
divergentes em conceito,
carregadas de ofensas,

Resultado inconseqüente
gerado pela tolice
e uma pseudo-crendice
de que Deus é diferente,

Mas no íntimo, a verdade,
mostra Deus Onipotente,
eterno jovem de idade,
vivo em qualquer ambiente,

Disposto a regar a semente
quando a maioria esquece:
Deus está sempre presente
na humildade de uma prece.

 


DINHEIRO

Autor: Jerônimo Mendes


De grande poder de fogo,
desliza por entre as mãos,
define as regras do jogo,
cura doentes e abate os sãos.

Modifica pensamentos,
de forma cruel e brutal,
degenera sentimentos
em nome do bem e do mal.

Faz o rei mais poderoso
descer ao chão num segundo
e ao mesmo tempo levanta
o astral de meio mundo.

Soa sujo e ordinário
aos olhos de quem não tem,
julgado mal necessário
a quem dizemos amém.

Tem presença garantida
na vida do cidadão,
uma colheita sofrida
feita de grão em grão.

E durante uma existência
vive sendo acumulado
e acaba na consciência
dentro de um caixão lacrado.

 


DISCURSO DE UM FAMINTO


Autor: Jerônimo Mendes


Escuta, Deus, minha fome
não tem para onde correr,
corre então para o teu nome,
consegue sobreviver.

Sabe, Deus, o que mais me consome,
além de não ter o que comer ?
Ter apenas codinome
sem comida e sem prazer.

Meu passatempo é revirar
o lixo mais distante que conheço
onde eu encontro o almoço e o jantar
sem ter de pagar o preço.

Quem pode explicar a fome
presente na minha vida
quando, ao chegar em casa,
os filhos imploram comida?

Afasta de mim esta fome
sem súplicas nem caridade,
o desperdício não come,
prefere jogar a metade.

Dai-me, Senhor, coragem
diante da fome dos meus filhos,
afasta de mim esta fome
enquanto estou fora dos trilhos.

 


DOR

Autor: Jerônimo Mendes


Sofro
pelos que sofrem bem mais
presos às suas personalidades
vítimas de si mesmo,
da crueldade,
pelos irmãos de sangue,
por minha mãe,
de mãos atadas,
impossibilitado de agir,
estou perdendo a batalha,
vejo em mim mesmo muitas baixas,
tenho o orgulho dos pobres
derrotados,
paralisado dentro de uma caixa
sou objeto,
dispara o tempo,
- esse inimigo feroz -
cala meu sorriso e minha voz,
sufoca meus movimentos
em golpes duros e lentos,
não vejo luz no fim do túnel . . .

 


E AS ESTRELAS ?


Autor: Jerônimo Mendes


Céu negro da minha cidade,
esconde de mim as estrelas,
há noites não consigo vê-las
por falta de oportunidade.

Tenho a vaga esperança
de contá-las do meu jeito
com o dedinho direito
como se fosse criança.

A noite parece nublada
do princípio ao fim do ano,
azar do Curitibano,
sem estrelas não é nada.

Tenho pena dos meus filhos,
imaginam o céu azul
e do Cruzeiro do Sul
não vêem sequer o brilho.

Um consolo ainda tenho
ao invés de removê-las,
consigo dezenas de estrelas
num simples papel de desenho.

 


ENTRE QUATRO PAREDES


Autor: Jerônimo Mendes


És no jardim a única flor,
digna do meu afago e amor;
deixa-me acariciar a tua
pele macia e silhueta nua.

Entre sussurros e abraços
quero apertá-la em meus braços.
Testemunhas ? Só a alma
pra ver eu despi-la com calma.

O resto deixa comigo,
doce lábio em teu umbigo,
enorme atração fatal;

Um mar entre quatro paredes,
tu és peixe, eu sou a rede
numa delícia carnal . . .

 


ESTOU VIVO !


Autor: Jerônimo Mendes


Quando penso que os problemas
existem só para mim,
sei que as dores são pequenas
e nada seria ruim
se pessoas mais serenas
resolvessem pôr um fim
no apego a coisas terrenas,
repartindo amor, enfim !

Quando lembro que a pobreza
faz a triste realidade,
sobra pão em muita mesa,
mas falta dignidade
para quebrar a dureza
de tamanha falsidade
no coração da nobreza
que acumula em quantidade.

Quando vejo tanta gente
em estado cansativo,
de maneira deprimente,
pergunto: qual o motivo ?
Agradeço seriamente
sem qualquer comparativo,
sou humilde e paciente,
sou feliz, Deus, estou vivo !

 


ETERNA BUSCA


Autor: Jerônimo Mendes


Guardião do meu silêncio,
sigo as dores do destino,
certos dias sou senhor,
certas horas sou menino.

Pastor de nenhuma ovelha,
sem sandália e sem cajado,
entre campos e montanhas
meu caminho está tomado.

Sou operário da terra,
lavrador de campos minados,
soldado que faz da guerra
martírio dos seus pecados.

Tenho as mãos mais calejadas
que o próprio cabo do machado,
meus golpes, embora lentos,
castigam-me o corpo cansado.

Procuro no fundo da alma
a fórmula da longa vida,
de simples parece difícil,
de fácil parece sofrida.

 


EU


Autor: Jerônimo Mendes


Sou como sou,
um pobre mortal,
um réu penitente
fugindo do mal,
eterno aprendiz
sem armas na mão,
nem escudo nem brasão,
um pássaro feliz,
um mero soldado
de corpo mutilado
no meio da guerra
constante na Terra,
sou invento e criador,
profissional, amador,
escravo da política,
da consciência crítica
formadora da moral
num país irracional,
vivo a imposição
das leis da nação
embora meu coração
por vezes, impaciente,
decida tomar a frente
atropelando a razão.

Sou como sou
e para onde vou
a consciência me persegue
por mais que eu a negue.

 


EU PENSADOR


Autor: Jerônimo Mendes


Enquanto o sol brilhar no Universo
e a menor estrela resplandecer,
não haverá pensamento disperso,
idéias fluirão por simples prazer,
o mundo será todo prosa e verso
instigando a vontade de viver.

Enquanto a natureza resistir
e a última espécie ainda respirar,
teremos muitas chances de sorrir
embora pouco do que se orgulhar,
haverá tempo para construir
uma nova janela para o mar.

Enquanto surgirem novas sementes
que aflorem no mais duro coração,
pensamentos podem ser diferentes
e é justo que haja mais uma canção,
discordem as opiniões e as mentes,
o amor é quem define a relação.

Enquanto o homem semear esperança
nada terá perdido o seu valor,
o bravo abrirá mão da própria lança,
tréguas serão dignas de louvor,
enquanto houver sorriso numa criança
haverá campo para o pensador.

 


FAMÍLIA


Autor: Jerônimo Mendes


Quando o homem se perder
na sua concepção abalada
e deixar de compreender
seu papel na caminhada ;

Quando o homem desviar-se
do caminho natural
e, próprio do seu disfarce,
trocar o bem pelo mal ;

Quando o homem alcançar
o fundo do seu abismo,
perder a noção do mar,
mergulhado em egoísmo ;

Quando o homem desabar
a meio caminho andado,
cair e não mais levantar
sem ao menos ter tentado ;

É tempo de reflexão
através de uma oração,
quem carrega sua cruz
tem um pouco de Jesus.

E assim fluirá a vida
como se fosse uma trilha
cuja única saída
é DEUS e AMOR em FAMÍLIA !

 

FILHOS


Autor: Jerônimo Mendes


Tão simples de fabricá-los,
difícil cuidá-los,
noites de sono perdidas
no embalo.

Pedras brutas encontradas
no solo,
parte da vida lapidadas
no colo.

Filhos não são nossos filhos,
são abalos,
o ponto fraco dos pais :
amá-los.

Quase sempre com defeitos
vários,
loucos para abocanhar
o inventário.

Espera-se deles muito
brilho
e anos para ajustá-los
no trilho.

Filhos, uma dádiva
divina,
relutantes aprendizes
a vida ensina.

 


FRIA MULTIDÃO


Autor: Jerônimo Mendes


Entre uma e outra esquina
são centenas de milhares,
um perfeito descompasso,
passos largos, lentos passos,
movimentos inocentes,
nenhum papo e muita gente,
olhares atravessados,
carrancudos, desconfiados,
pedintes, profetas, policiais,
há transeuntes demais,
quase um salão de festas
onde todos franzem a testa
e ninguém se cumprimenta,
mas suporta e agüenta
o rush do dia-a-dia,
o fino da demagogia,
longe todos de um sorriso,
de um olhar ou de um aviso,
máquinas de sangue quente,
escravas do tempo presente,
do consumo e dos valores
desprovidas de pudores,
frutos da impercepção,
sem alma e sem coração,
coisas que a vida ensina
entre uma e outra esquina.

 


FUTURO INCERTO


Autor: Jerônimo Mendes


Num complexo com sede de mudança,
que importa ser normal ou de proveta,
pesa sobre teus ombros, pobre criança,
a esperança e o futuro do planeta.

Planeta que caminha maltratado
pelo homem que desfaz a natureza
com seus golpes violentos de machado
sem a mínima chance de defesa.

Enquanto árvores tombam nas florestas
corpos sucumbem nas grandes cidades,
vinganças são motivos para festas
em locais não muito longe das grades.

Um mundo de cabeças diferentes
promove disputada concorrência,
governos são impérios decadentes
envoltos num abismo de violência.

Valores são extintos tão?somente
por força da vontade dominante,
a mesma que se diz condescendente
condena o cidadão inoperante.

Num clima de total insegurança,
importa ser normal ou de proveta ?
Pesa sobre teus ombros, pobre criança,
a esperança e o futuro do planeta.

 


IGUAIS EM TUDO E NA SINA

Para João Cabral de Melo Neto

Autor: Jerônimo Mendes


Há nenhuma diferença
entre uma e outra crença,
os problemas sim são iguais
para todos os mortais,
quem carrega sua cruz
tem um pouco de Jesus.

Cruzamos iguais caminhos
tortuosos, cheios de espinhos,
buscamos sobrevivência
apesar da prepotência
de nossas cabeças pensantes
fazer-nos ignorantes.

Somos mera semelhança
qual sorriso de criança
repletos de ene defeitos,
mais deveres que direitos,
à espera da mão divina,
iguais em tudo e na sina.

 


IMPLOSÃO


Autor: Jerônimo Mendes


Parem os pedintes de esmolas,
apaguem as luzes das escolas,
que o carteiro não entregue mais
a carta de uma semana atrás,
rasguem as leis da constituição,
desintegrem a nação,
carros, barcos e aviões
são meras alucinações,
cancelem a edição de amanhã,
suspendam as manchetes de jornais,