O HOMO CORPORATIVUS

Jerônimo Mendes
Administrador, Escritor, Palestrante e Professor Universitário
Autor do livro Oh, Mundo Cãoporativo! Lições e Reflexões

Sou deveras intrigado com o motivo que torna o ambiente corporativo tão nutrido de elementos nocivos à saúde da empresa e dos colegas de trabalho em geral, por razões que a própria razão seria incapaz de explicar, talvez envergonhada com a existência desses comensais que proliferam geometricamente enquanto lutamos pelo seu extermínio.
As empresas demoram a perceber a existência desses fenômenos capazes de contrariar a própria natureza em razão do seu comportamento tresloucado no trabalho ao invés de canalizar energia para mudar o ambiente onde o espírito de equipe e a simplicidade são os melhores remédios para os males da organização.
Há sempre um concorrente querendo furar o nosso olho, outro torcendo pelo jacaré e profetizando o caos, todos tumultuando o local em que a produtividade pode ser conquistada de maneiras distintas embora pressão e ameaça sejam as mais comuns na escala hierárquica.
Do lado mais fraco da corda há o que se esforça por extrema necessidade, outro que torce por um ambiente sadio e também o que nasceu otimista, a despeito de todas as dificuldades encontradas ao longo do caminho.
Os homens em geral não conseguem lutar contra seu próprio instinto selvagem, consolidado geneticamente há milhares de anos, desde o tempo das cavernas, quando o uso da força era o único meio de sobrevivência num habitat cercado por feras de todos os tipos e tamanho.
Pouco mudou nos dias de hoje. As feras são as mesmas, porém convivem em ambientes fechados, reclusos e empilhados. Diferente do homem das cavernas, os bichos de hoje medem um pouco as palavras, respeitam o espaço alheio até certo ponto e caçam suas presas ardilosamente atrás de uma mesa com auxílio de um crachá e microcomputador.
É o que se pode chamar de homo corporativus. Sua dedicação no trabalho é inversamente proporcional ao nível de ambição, pois esse último lhe rouba todo tempo e energia que poderia ser canalizada para o primeiro.
O homo corporativus não mede esforços para agradar o líder da tribo, causar intrigas, sacanear os colegas e rir da desgraça alheia, pois sua única saída é alimentar a ilusão de que o mundo é dos mais espertos, dos mais ávidos por poder e dos mais dedicados à política corporativa, leia-se “puxa-saco”, embora eu tenha fé de que esse tipo seja extinto em breve.
Ele é capaz de coisas que até Deus duvida: sorri quando demite, chora quando leva bronca, morde e assopra ao mesmo tempo, chicoteia e trata o ferimento com vinagre e pimenta, um terrorista nato capaz de matar a própria mãe somente para não perder uma festa de órfãos.
Não raro ele se intitula o bom, o pai de todos, aquele que conhece os problemas da empresa, mas não resolve nenhum. Sempre que há uma chance ele sobe na cadeira e coloca os subordinados no chão para demonstrar o que é hierarquia, quem é que manda e porque razão alguns são pagos para marcar reunião e outros para comparecer a ela.
Ao testemunhar uma babada coletiva, o homo corporativus sabe tripudiar como ninguém, pois na sua concepção a bronca nunca é dirigida para ele, mas para os babacas que sabem menos do que a sua vã inteligência.
Quando abordado por um desconhecido, palavras de vigor autoritário são proferidas da sua boca, sem pestanejar, não importa o cargo que ele ocupe: ”sabe com quem você está falando? – Com o Gerente Geral da XYZ”, como se isso fosse a primeira coisa que alguém sensato procuraria num homem de bem.
Esse é o mesmo que se apresenta numa loja e brada em alto e bom som: ”Quem trabalha na empresa XYZ tem desconto maior?”, como se os demais fossem reles consumidores, portadores de moeda incrédula.
De certa forma, é aquele profissional que vê o colega na beira do abismo e não hesita um segundo para socar-lhe os dedos da mão até que o infeliz despenque sem direito a uma nova chance.
Acredite, o mundo está cheio desses pulhas travestidos de mestres, gerentes, diretores, porém não é privilégio do alto escalão. Estão presentes também na camada hierárquica inferior da organização e resistem bravamente até que um dia alguém lhes tira o pino e o sujeito sai pelo ar, perdido, feito balão de borracha sem direção.
Numa bela tarde de sol, a natureza, sábia como ninguém, derruba o infeliz através de uma despedida triste e melancólica onde o sujeito, orgulhoso até a raiz dos cabelos, procura remendar perante os subordinados: ”Eu já estava de saco cheio, fiz um acordo, vou montar o meu próprio negócio, estou cansado de ser explorado”.
No dia seguinte ele descobre que tudo não passa de uma ilusão. Foi-se o carro, o plano de saúde, o cargo, as viagens de avião e a moral perante a família, a única que acreditava nele. Talvez lhe reste a empáfia, mas com o tempo ele aprende que ela não serve para nada.
Duvido que você não conheça alguém assim, porém lembre-se de Napoleon Hill, célebre autor da Lei do Triunfo: ”O destino está esperando esse infeliz na primeira esquina com sua clava que não é feita de algodão”.