Jerônimo Mendes
Administrador, Escritor, Palestrante e Professor Universitário
Autor do livro Oh, Mundo Cãoporativo! Lições
e Reflexões
Segundo o Aurélio, ética
é o conjunto de regras e valores ao qual se submetem
os fatos e as ações humanas, para apreciá-los
e distingui-los. Em relação ao trabalho,
vamos associá-la, apreciá-la quando for
o caso e, principalmente, distingui-la.
Outros dicionários afirmam que a ética
é parte da filosofia que estuda os deveres do
homem para com Deus e a sociedade. Permita-me simplificar
esse conceito, à luz da experiência pessoal
e profissional ao longo de quarenta anos. Ética
é a ciência aplicada pelos seres humanos
que procuram ser justos e razoáveis com todo
mundo, da melhor forma possível, além
de não pensarem exclusivamente em si mesmos.
Por essa razão, ética não é
um conceito facilmente aplicável nas grandes
corporações até mesmo porque o
capital não consegue se multiplicar na velocidade
que precisa se adotá-la como bandeira. Se assim
o fizesse, a distribuição de renda seria
diferente, as relações desumanas no trabalho
teriam outra conotação e os profissionais
de valor seriam mais do que um simples número
no quadro de empregados da organização.
Você conhece algum profissional que consiga ”cumprir
os deveres com Deus e a sociedade” em alguma empresa?
Se o fizer ao pé-da-letra ele simplesmente é
excluído do meio, a empresa vai à falência,
e o líder entra em descrédito perante
o acionista ou superior imediato, num mundo repleto
de valores equivocados.
Apesar de todas as recomendações dos especialistas
com as mais variadas teorias sobre o assunto, as empresas
continuam falhando abruptamente na condução
dos negócios. O capital humano nunca foi páreo
para a ambição desmedida do lucro e quando
a ambição ultrapassa os limites do razoável,
a ética e o respeito aos indivíduos são
literalmente atropelados pelo poder que não conhece
limites.
Muito se fala na necessidade de modificar as relações
entre capital e trabalho com intuito de proporcionar
ambientes mais justos e fraternos, porém o abismo
entre o discurso e a prática é imenso.
A sobrecarga de trabalho é um exemplo típico
da imposição do poder. A opção
pela redução da força de trabalho
e a avidez do capital pelo lucro em progressão
geométrica elevam o custo social, sem pudor.
Antes de prosseguir lembro que as empresas são
feitas de pessoas e pessoas erram, porém, numa
sociedade extremamente competitiva, o mínimo
erro torna-se imperdoável. Erros fazem parte
do crescimento, mas no mundo corporativo atual, o erro
será parte do crescimento numa outra empresa,
nunca onde se comete.
Não existe espaço para a redenção.
O erro é a chance que as organizações
esperam para descartar os indivíduos a fim de
elevar a produtividade e o lucro por empregado, importantes
na divulgação dos resultados.
As relações entre capital e trabalho são
absolutamente frias e, por conseqüência,
as relações entre chefes e subordinados
também. É mais cômodo exercer a
pressão do que a liderança efetiva para
se obter resultados.
As incertezas do mundo atual não permitem questionamentos
nem espaço para diversidade, aliás, são
poucos os líderes que conseguem conviver com
diferenças, em princípio, salutares para
o crescimento das organizações. O mundo
foi construído com base nas diferenças
étnicas, religiosas e culturais. Nelson Rodrigues
afirmava que toda unanimidade é burra, mas poucos
entendem essa máxima.
Por questão de sobrevivência, muitos profissionais
se sujeitam a trabalhar em empresas de valores duvidosos,
contrários às necessidades pessoais de
cada um, onde o discurso vale apenas para a sociedade
e a ética restringe-se aos manuais da organização.
Infelizmente não existe emprego ideal, mas existe
trabalho ideal, caso contrário, o mundo seria
cruel. O que nos move para frente é a certeza
de que existem pessoas de bem, apesar da nossa tendência
inequívoca de pensar diferente.
Parafraseando um dos executivos mais sensatos que conheci
no mundo profissional, ”a ética é
o freio da ambição”. Os seres humanos
são capazes de coisas incríveis por dinheiro
e poder e, na maioria das vezes, a ambição
será mais forte que a ética, para desespero
dos menos favorecidos politicamente.
Todavia, não se deve perder a esperança,
nunca. As relações na vida pessoal e profissional
são difíceis, mas o mundo evolui rapidamente.
Existem líderes sensatos e organizações
que conseguem conciliar os interesses, pois transcendem
a ambição e o lucro em nome daquilo que
se convém chamar de ética, aliada ao respeito
aos indivíduos.
Em razão de tudo que penso, escrevo e desejo
para os que convivem comigo, confio sempre na justiça
divina, a despeito de toda falta de bom senso e tolerância
na face da Terra. Deitar a cabeça no travesseiro
com a sensação do dever cumprido, desprovido
de culpas e mágoas, não é para
homens comuns.
Como diria Otto Lara Resende, devemos almejar firmemente
a utopia, afinal, o mundo não precisa seguir
permanentemente infeliz.