ERRAR É DESUMANO

Jerônimo Mendes
Administrador, Escritor, Palestrante e Professor Universitário
Autor do livro Oh, Mundo Cãoporativo! Lições e Reflexões

Há muito tempo o erro deixou de ser a fórmula do aprendizado nas grandes corporações. Em geral é punido com demissão ou fica em estoque para aproveitamento numa futura redução do quadro de empregados.
Embora não seja minha, sempre defendi a idéia de que o erro faz parte do crescimento em qualquer atividade, pessoal ou profissional. As maiores organizações do planeta prosperaram em cima de inúmeros erros, mais do que acertos, na busca pela excelência dos resultados.
O discurso continua em voga no mundo corporativo. Defender o erro como alavanca para os negócios bem-sucedidos é uma arma muito utilizada pelos líderes, porém nunca será bem vista pelos olhos do acionista. Ele jamais verá o erro como alternativa digna de respeito e aplauso.
Infelizmente não somos premiados pelo erro. Ao contrário, representa o fim de uma estratégia equivocada e consolida a incompetência do ser humano, sempre pressionado para obter resultados exclusivamente positivos todos os dias.
Esse negócio de que errar é humano tem um pouco de poesia. Os erros são recompensados somente quando superados, depois de uma segunda chance, raramente concedida, principalmente na mesma organização.
Você conhece algum profissional esforçado que tenha tido oportunidade de se redimir no mesmo lugar depois de perder um cliente representativo e levar a empresa à bancarrota? Pense em algum atleta satisfeito com o segundo lugar. Difícil? Até mesmo o terceiro lugar tem mais valor, pois em geral é conquistado com a vitória e o segundo com a derrota.
Conheci muitos profissionais que tiveram jogo de cintura ou a cara-de-pau necessária para atribuir a culpa a alguém que estava sempre apto a recebê-la: o chamado bode expiatório, o qual não teve tempo nem de perguntar o que houve.
Esses são aqueles que se dizem líderes, mas na verdade são chefes, cuja máxima exprime seu completo despreparo para cargos dessa natureza: ”chefe não erra, comete enganos, equívocos por assim dizer”.
Quando Napoleão invadiu a Rússia sob longo e rigoroso inverno, tinha consciência de que jamais seria perdoado caso algo desse errado. O mesmo ocorreu na Batalha de Waterloo quando as forças inglesas dizimaram dois terços do exército inimigo e capturaram o grande imperador francês submetendo-o ao exílio.
Não existe perdão para o erro, ainda que involuntário. O ser humano não está evoluído para absorver o impacto do erro e aprender com ele. O conceito do erro é bíblico e ao mesmo tempo uma herança genética. Em suma: não fomos preparados para errar.
Aprendemos desde cedo que o erro não nos leva a nada, que o mundo é dos mais fortes, dos vencedores. O erro é sinônimo de derrota, algo que só faz bem aos fortes de espírito e, por sua vez, o espírito nunca fortalece se não for solidificado com base nos erros e acertos ao longo da vida. Pura contradição.
As empresas conduzem a política de recursos humanos com base nessa premissa, em sinal de respeito ao código de ética e ao que ainda resta de sensibilidade, mas sabem que no fundo é algo impraticável, pois vivem de resultados que, por sua vez, são frutos de uma sucessão de acertos, mais do que erros.
Devemos ter esperança nos seres humanos que comandam as empresas. Elas por si só não existem. Acionistas, presidentes, gerentes ou operários são feitos de carne e osso e dotados de sentimentos. Assim como todos os mortais, eles choram, sofrem, riem e se desesperam ao primeiro sinal de pressão, diante do erro mais banal.
A diferença entre líder e chefe é que o primeiro sabe administrar o risco inerente a qualquer atividade que lhe obrigue expor o caráter, essencial para quem deseja prosperar no mundo-cão. Contudo, o preço é alto e pode não significar sucesso, mas um comportamento para o qual as empresas não estão preparadas.
Há um jeito simples de eliminar o erro, basta tratar o homem como máquina e substituí-lo toda vez que apresentar um defeito. A paciência e o tempo das empresas andam escassos para manutenção de pessoas. Por outro lado, as máquinas rodam o maior tempo possível a plena capacidade e não reclamam.
Esse não é o melhor dos mundos, mas a realidade de muitas organizações que se dizem preocupadas com o fator humano e a questão motivacional, razão pela qual teoria e prática são inversamente proporcionais.
Ao ouvirmos que errar é humano e perdoar é divino devemos fazer uma releitura: errar é desumano, recomeçar é divino. Isso é o que distingue o racional dos demais, pois aquele que erra tem menos chances de cometer o mesmo erro e mais chances de cometer um novo erro, o que significa aprendizado e crescimento.
As empresas tentam condicionar o ser humano a não cometer erros, algo que foge completamente à sua natureza. A existência humana é uma sucessão de erros e acertos. Deus não acertou em cheio quando criou o homem, mas continua lhe dando novas chances de errar e se levantar desde que o faça com dignidade.