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VOCÊ
TEM PERFIL?
Jerônimo
Mendes
Administrador, Escritor e Palestrante
Autor de Oh, Mundo Cãoporativo! (Qualitymark)
e Benditas Muletas (Vozes)
Mestre em Organizações e Desenvolvimento
Local
Eu
sempre brinco que o estagiário é a pessoa
mais injustiçada nas empresas por várias
razões: geralmente é contratado para economizar
custos e não para aprender, não tem mesa,
não tem micro, não tem cargo, demora para
receber o crachá e está sempre sobrecarregado
com todo tipo de trabalho por medo de dizer não
com aquela vaga esperança de um dia ser contratado.
Quando chega o dia de tirar as férias ou ele
é contratado ou ele sai para dar o lugar para
outro.
Com
o tempo ele ganha um canto na sala e, com muito esforço,
um micro, usado, é claro. Internet nem pensar!
Quem sabe depois de ele adquirir a confiança
do chefe ou depois de suportar aquela sabatina incansável
do pessoal da TI. Em determinado momento alguém
fica com pena do estagiário e o convida para
almoçar e aos poucos ele vai se integrando ao
ambiente. Contudo, depois de um ano, quando está
tudo dominado e ele aprendeu a sorrir para as piadas
sem-graça do chefe, acaba dispensado diante daquele
chavão irreversível: “infelizmente
você não tem perfil para trabalhar aqui”
ou, de forma mais educada, “você não
tem o perfil que estamos procurando”.
Naturalmente,
isso não é privilégio dos estagiários.
Milhares de pessoas não têm o perfil que
as empresas procuram, pois quando o profissional atinge
o perfil desejado, as características do perfil
mudam, portanto, salvo raríssimas exceções,
o perfil necessário é praticamente inatingível.
A
natureza humana tem limites e o perfil requerido atualmente
pelas empresas é incompatível com as possibilidades
humanas. Obviamente, o que as empresas desejam vai além
desses limites: doze horas de trabalho por dia, mais
o que você leva para casa para adiantar o dia
seguinte, disposição, sorriso, paciência,
muita força de vontade, iniciativa, o hábito
de fazer muito mais do que o seu salário comporta,
cabeça erguida, cumprimento de 120% da meta e
nada de reclamação, caso contrário,
você não cabe no perfil solicitado.
A
lista é extensa. Ah! Não se esqueça
de esquecer a sua vida pessoal, o fim-de-semana, a família,
afinal, o trabalho é o seu ganha-pão,
portanto, fica chato você se preocupar com a família
no trabalho. Você é pago para trabalhar
e quando o chefe perguntar se você pode vir no
sábado, na véspera de casamento do seu
melhor amigo, faça aquele esforço extra
e seja gentil para o seu próprio bem. Amigo é
para sempre, emprego não.
Brincadeiras
à parte, o fato é que todas as parafernálias
tecnológicas criadas no século XX não
são suficientes para reduzir a sua jornada de
trabalho. Ao contrário, por conta delas, você
ficou mais escravo, precisa de mais dinheiro, as mulheres
estão crescendo profissionalmente numa velocidade
estonteante e agora concorrem de igual para igual com
os homens, portanto, um perfil mais arrojado, menos
sensível, mais robotizado e menos humano acabou
ganhando espaço nas organizações.
Lamentavelmente, você não pode nem se queixar,
a não ser quando chega do trabalho e encontra
alguém que também possui um monte de queixas
para fazer. Queixa por queixa, é melhor deixar
como está. Como diz o chefe naquele momento de
lucidez inesperada, calma, o mercado é assim,
portanto, mudar de emprego é besteira, os problemas
continuam, muda só o endereço. Você
fica então dividido entre seguir adiante, com
problemas e tudo, ou tentar a mudança e ajustar
o perfil para trabalhar por conta própria, quem
sabe, afinal, disseram que o mercado está “bombando”
e qualquer negócio dá dinheiro, precisa
só de capital de giro.
Segundo
o Aurélio, algumas definições para
perfil são “o contorno do rosto de uma
pessoa vista de lado” e “o aspecto ou a
representação gráfica de um objeto
que é visto só de um lado”, portanto,
perfil, como o próprio nome sugere, é
algo que nunca define a verdade absoluta sobre alguém
ou sobre qualquer objeto. Trata-se de uma leitura parcial
do fato, do problema ou da pessoa.
Você
não tem perfil para trabalhar aqui! Se algum
dia você ouvir essa frase significa que a avaliação
do seu perfil, do seu jeito de trabalhar, de conduzir
as coisas, de pensar e agir, foi apenas parcial. Poucos
líderes estão preparados para absorver
o perfil completo e aproveitar melhor o potencial que
existe dentro de cada profissional à sua disposição.
Isso é quase uma arte.
Quando
eu fui demitido pela primeira vez, é provável
que o meu perfil tenha servido por um determinado momento
ou para determinado líder. A análise do
perfil muda completamente no instante em que a empresa
muda de dono ou quando você muda de chefe. O perfil
adequado para uma empresa pode não ser adequado
para outra, portanto, não se desespere por isso.
Se
o perfil é apenas uma leitura parcial, por vezes
equivocada, da percepção que alguém
teve sobre você, lembre-se que esse alguém
é humano e imagine que ele pode ter errado. Na
maioria das vezes é preferível alegar
a falta de perfil em vez da incompatibilidade de gênios
e outras interpretações mais injustas
como, por exemplo, o fato de você estar sendo
desligado para acomodar o afilhado do chefe ou alguém
com mais prestígio na empresa.
Isso
não significa que você deve ignorar a avaliação
e achar que estava certo. É necessário
refletir sobre isso. Independentemente da percepção
alheia, você deve fazer a sua leitura mais próxima
possível da realidade para mudar o que for necessário,
seguir em frente e reencontrar o caminho. O caminho
do aprendizado é longo e você não
deve esmorecer.
Durante
muito tempo eu convivi com essa questão do perfil
atravessada na garganta, mas acabei me acostumando com
ela. Na profissão de consultor me sinto obrigado
a entender um pouco de perfil com intuito de ser o mais
justo possível quando se trata da avaliação
sobre o futuro de alguém. É mais sensato
e prudente demitir alguém com dois ou três
meses de casa do que esperar dez anos para isso sob
alegação de que “ele ou ela não
tem perfil para trabalhar aqui”.
Segundo
o canadense Gareth Morgan, autor de Imagens da Organização,
“as organizações são em essência
realidades socialmente construídas que estão
muito mais nas cabeças e mentes dos seus membros
do que em conjuntos concretos de regras e relacionamentos”.
Com base nisso tomei a liberdade de compartilhar a minha
experiência profissional com vocês mediante
a reflexão de três pontos que poderão
auxiliá-lo a absorver melhor essa questão
do perfil. Espero que seja útil e realmente agregue
valor na sua vida profissional. Pense nisso e seja feliz!
1. Se você estiver em cargo de subordinação
e alguém sinalizar que o seu perfil não
está atendendo ao perfil desejado para o cargo,
a única saída é abrir o jogo; não
deixe para fazer isso no dia da demissão, não
vai dar tempo;
2.
Se você estiver em cargo de comando, não
espere dez anos para saber se alguém tem ou não
o perfil desejado, portanto, seja sincero e, se for
o caso, substitua logo e pare de ficar travando a carreira
e a vida da pessoa;
3.
Leve a sério essa questão do perfil. Se
não gosta do que faz e o ambiente lhe faz mal,
você pode estar desperdiçando energia e
talento numa empresa que não tem vocação
alguma para aproveitar a sua inteligência.
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