Jerônimo Mendes
Administrador, Escritor, Palestrante e Professor Universitário
Autor do livro Oh, Mundo Cãoporativo! Lições
e Reflexões
Conheço poucas empresas onde a demissão
é conduzida seriamente e os profissionais são
tratados com o mínimo de respeito, não
apenas como simples número a figurar no quadro
de empregados ou nas estatísticas do mercado
de trabalho.
Ao longo de vinte e cinco anos de carreira a gente vê
de tudo. Empresas onde a demissão é a
hora da vingança, onde o superior imediato é
capaz de lavar as mãos e transferir o problema
para a turma do RH ou onde a demissão em massa
é efeito da globalização e modernidade,
pois um ou dois não provocam impacto positivo
nas ações cotadas em bolsa.
Por ironia, trabalhei numa empresa onde os futuros demitidos
foram relacionados e entregues ao diretor da unidade.
Indeciso, sem conhecer a fundo o papel de cada um, simplesmente
optou pelo mais desconhecido da lista e esbravejou de
maneira insensível: ”risca esse último”,
quando foi alertado pelo profissional de RH. –
Chefe, esse é o nosso assador de churrasco! Êpa,
esse não, risca então o penúltimo!
Conclusão: um foi salvo por saber preparar um
churrasco e outro riscado do mapa por não fazer
parte da panela. Exageros à parte, mas assim
é tratada a demissão em muitas empresas
do Brasil e do mundo, sem contar os chefes tiranos que
demitem sorrindo e outros que não suportam subordinados
questionadores e vivazes fazendo sombra.
Muitas empresas ainda vivem na Idade Média e
não atentam para o fato de que atitudes desse
tipo são extremamente prejudiciais à própria
imagem, além de outras decisões que afetam
o desempenho da organização, tais como
fuga de talentos e desmotivação generalizada
do grupo.
Empresas que atropelam os princípios éticos
e tratam subordinados como simples números não
são capazes de motivar ninguém tampouco
estimular a equipe a suar a camisa e abusar da criatividade.
Comprometimento e ética são princípios
básicos, porém difíceis de serem
seguidos por patrões e empregados.
Em geral, a ética restringe-se ao manual da organização,
pressionada pelas exigências do mercado globalizado,
onde o certificado de qualidade impõe determinadas
regras e procedimentos não observados na prática.
Uma das maiores vantagens da tecnologia e da modernidade
talvez seja a possibilidade de se demitir os empregados
por e-mail sem ter que passar pelo constrangimento de
conviver alguns segundos olhando diretamente para eles,
tendo que esconder a verdadeira razão pela qual
estão sendo demitidos ou preteridos em relação
a outros profissionais.
Por essas e outras é demasiado importante que
o profissional tenha plena consciência dos seus
direitos. Manter a cabeça fria e a dignidade
é algo que depende do estado de espírito,
mas, dentro do possível, é prática
recomendável, a fim de minimizar o desgaste emocional,
tanto do demitido como dos companheiros de trabalho.
O velho discurso do comprometimento, onde o superior
imediato levanta a bola do profissional que sua a camisa
pela empresa, induz as pessoas a acreditarem que qualquer
tipo de sacrifício, ainda que absurdo vale a
pena. Contudo, ninguém deve arrepender-se por
levar a vida profissional tão a sério,
afinal, existe a paixão natural do ser humano
pelo trabalho e o sentido de realização.
A permanência no emprego onde o profissional não
encontra espaço para criação e
desenvolvimento, deve ser repensada. Chegar aos oitenta
ou noventa anos de vida sem saber quem você realmente
é ou do que é capaz, além de frustrante,
é irreversível.
Apesar das dificuldades e da competição
no mercado de trabalho, devemos recusar empregos onde
os líderes são espiritualmente fracos,
movidos apenas pelo dinheiro, onde o desperdício
do talento humano é a primeira alternativa para
redução de custos e alcance de objetivos
exclusivamente pessoais.
Empresas responsáveis demitem somente em último
caso, amparadas por um plano de demissão voluntária
e um trabalho interno de esclarecimento para evitar
o pânico e a desmotivação.
Contrário às orientações
dos especialistas, as organizações demitem
empregados em momentos errados, geralmente quando retornam
de férias com as baterias recarregadas, cheios
de idéias, mas de bolsos vazios.
Todas as experiências, negativas ou positivas,
são bem-vindas, pois redirecionam o ser humano
e obrigam-no a refletir uma nova maneira de encarar
a vida. Não se deve olhar o passado, a não
ser para aprender com os erros.
No próximo emprego seja mais seletivo, pense
um pouco mais em você e na família, nem
tanto na empresa. O passado passou, siga em frente,
monitore seus passos, crie valores, seja menos severo
consigo mesmo.
Como disse o Max Geringher em artigo publicado na revista
Você S.A: no século 21, ”pensar grande”
não é mais pensar num grande emprego.
É pensar em como não ter de depender de
um.
Para muitos profissionais, o desligamento é um
caminho difícil, recheado de fortes sentimentos
de perda e separação. Para outros é
a glória, a liberdade, a hora da reflexão
e da virada. É nas dificuldades que o ser humano
encontra sua verdadeira força e vocação.
Há desafios pela frente, o da sobrevivência
e do crescimento interior.