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PRESSÃO
E DEPRESSÃO EM NOME DO LUCRO
Jerônimo
Mendes
Administrador, Escritor e Palestrante
Autor de Oh, Mundo Cãoporativo! (Qualitymark)
e Benditas Muletas (Vozes)
Mestre em Organizações e Desenvolvimento
Local
De
acordo com o sociólogo Max Weber, autor de A
Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo,
“O impulso para o ganho, a persecução
do lucro, do dinheiro, da maior quantidade possível
de dinheiro, não tem, em si mesmo, nada a ver
com o capitalismo. Tal impulso existe e sempre existiu
entre garçons, médicos, cocheiros, artistas,
prostitutas, funcionários desonestos, soldados,
nobres, cruzados, apostadores, mendigos etc. Pode-se
dizer que tem sido comum a toda sorte e condições
humanas em todos os tempos e em todos os países
da Terra, sempre que se tenha apresentado a possibilidade
objetiva para tanto.”
De
fato, obter lucro, ganhar a maior quantidade possível
de dinheiro, acumular patrimônio, levar vantagem
sobre os concorrentes, inimigos, vizinhos ou colegas
de trabalho são necessidades e aspirações
do ser humano em qualquer lugar do planeta por questões
antropológicas muito simples: sobrevivência
e segurança. Entretanto, ainda que você
consiga acumular uma soma considerável de dinheiro
durante os primeiros trinta ou quarenta anos de vida,
o apego excessivo ao dinheiro há de lhe tirar
o sono durante os próximos cinqüenta se
a sua fortuna não tiver sido construída
com base em princípios, valores e virtudes universais.
A
simples sobrevivência nos custa muito caro. Somos
constantemente submetidos ao estresse, à pressão,
ao enfrentamento de situações para as
quais não estamos preparados. A cobrança
é efetiva e surge de todos os lados, dos filhos,
do cônjuge, da sociedade. Em último caso,
vem da nossa própria consciência, por tudo
aquilo que pensamos fazemos errado e tudo que deixamos
de fazer correto, se é que existe alguma coisa
correta na face da Terra.
Somos
criaturas de hábitos, segundo Aristóteles,
e à custa de muita pressão acabamos sendo
habituados a não resistir, a calar-se diante
dos fatos, a imaginar que o mundo é como é
porque não existe jeito de mudá-lo e que
a vida é uma sucessão de erros e acertos
que só termina quando a nossa própria
existência terrena termina.
Karl
Marx, o grande sociólogo alemão, considerava
o trabalho a mola propulsora do desenvolvimento humano,
ou seja, não existe homem sem o trabalho nem
trabalho sem o homem. A eterna preocupação
do ser humano com o ato de participar, ora por questão
de sobrevivência, ora por questão de realização,
faz com que “a maioria dos homens prefira a escravidão
na segurança ao risco na independência”,
nas palavras de Emmanuel Mouniere, o pai do personalismo.
A
pressão no trabalho é praticamente irreversível
e atinge todos os escalões da organização.
Do porteiro ao presidente, a preocupação
é a mesma. O que muda é o saldo na conta
bancária e o nível de responsabilidade
de cada um, porém, quanto maior o cargo, maior
o orgulho, maior a queda. Ser presidente é fácil.
Difícil é sustentar a posição
no alto da colina sem ser bajulado, alvejado de críticas,
invejado e pressionado de todos os lados.
No
início das minhas palestras eu sempre faço
uma breve pesquisa para saber quantos participantes
estão felizes com o que fazem. Nunca comprovei
um resultado superior a 50% de satisfação,
sinal de que a maioria das pessoas está infeliz
e, de alguma forma, pelo menos naquele instante, encontram-se
no lugar errado, na empresa errada ou no cargo errado.
A tecnologia e o conforto do mundo moderno não
foram capazes de eliminar a eterna carência do
ser humano nem a pressão cada vez mais assustadora
por lucros e mais lucros.
Ganhar
dinheiro é bom e necessário, mas o lucro
deve representar um mínimo de dignidade. Lamentavelmente,
em nome do lucro, a pressão torna-se o instrumento
preferido dos líderes, dos acionistas, dos donos
em geral como se isso fosse algo normal que qualquer
profissional tem a obrigação de aceitar,
afinal, quantos milhares dariam a vida para estar ali
no lugar dele?
Em
pleno Século 21, o forno de microondas faz sucesso
na cozinha e a panela de pressão continua fazendo
sucesso nas organizações, principalmente
nas sociedades anônimas onde os donos são
praticamente desconhecidos e o que conta mesmo é
o valor das ações. Como a possibilidade
de os acionistas se reunirem para discutir o significado
da palavra dignidade é mínima, a pressão
acaba incorporada naturalmente. Medo, insegurança,
necessidade e responsabilidade acima de tudo afetam
o moral dos profissionais que aceitam todo tipo de pressão
enquanto não conseguem livrar-se das amarras
do poder.
Quem
não estiver contente pode escolher entre ir embora
e mudar de emprego. Em nome do lucro tudo é permitido,
pressão, humilhação, desvarios,
rompantes, demissões aos montes, assédio
moral, altos e baixos do presidente, dos acionistas,
dos gerentes despreparados. Além disso, executivos
e mais executivos trocados em curtos intervalos de tempo,
cada qual com sua política mirabolante, cheios
de promessas e formas completamente diferentes de pensar
contanto que o resultado apareça e o valor das
ações seja sustentado na Bolsa.
Milhares
de reais investidos em treinamento não são
suficientes para aplacar a voracidade do capital. Ao
contrário, são investidos para a multiplicação
do capital, portanto, as perspectivas de redução
da pressão são pouco animadoras ainda
que você mude de chefe, de emprego, de empresa
ou de cidade, não importa o cargo nem o salário.
A
pressão no mundo dos negócios é
inevitável e alguns se arriscam a dizer que isso
é bom, só não dizem para quem.
Por trás de tanta pressão existe a depressão,
aliás, uma é reflexo da outra. A depressão
é o mal do século e apesar das recentes
tentativas de melhoria do ambiente de trabalho através
de treinamento, palestras, ginástica laboral
e outros artifícios criados para enfeitiçar
os trabalhadores, a realidade é cruel, porém
somos impelidos a pensar o contrário. Basta ler
uma revista de negócios e a impressão
que você tem é a de que todo mundo está
bem, menos você.
Segundo
Albert Camus, grande filósofo francês,
“não existe dignidade no trabalho quando
nosso trabalho não é aceito livremente”,
portanto, para evitar que você se torne a próxima
vítima da pressão seguida de uma profunda
depressão em nome do lucro, algumas atitudes
são fundamentais para quebrar a ansiedade e reduzir
a pressão imposta sobre seus ombros. Avalie e
reflita sobre elas.
1. O mundo corporativo sobrevive sem você, portanto,
trabalhe duro, mas não seja refém do trabalho;
contribuir e fazer mais do que o normal não significa
sujeitar-se à escravidão imposta pelo
mercado ou pela incompetência superior;
2. Tenha brio e amor próprio e nunca demonstre
fraqueza diante da pressão; seja mais forte do
que ela e imagine que é apenas uma condição
transitória;
3.
Mude de emprego quantas vezes for necessário;
apesar de não resolver o problema, uma nova perspectiva
se abre quando você se propõe a mudar e
acreditar num ambiente mais digno;
4.
Sorria, apesar de tudo. Sorrir descaradamente ameniza
a pressão, fortalece o moral e reduz as chances
de se tornar um deprimido comum.
Por
fim, lembre-se: não há dinheiro no mundo
que pague o ar de felicidade da família quando
você entra em casa contente, disposto e sorridente
depois de mais um dia extenuante de trabalho. Pense
nisso e seja feliz.
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