| TUDO
MUDA QUANDO VOCÊ MUDA
Jerônimo
Mendes
Administrador, Escritor e Palestrante
Autor de Oh, Mundo Cãoporativo! (Qualitymark)
e Benditas Muletas (Vozes)
Mestre em Organizações e Desenvolvimento
Local
No
auge da minha impetuosidade juvenil eu era conhecido
no mundo corporativo como “general” em virtude
do meu jeito autoritário, arbitrário e
muitas vezes rude de exigir o cumprimento das normas
e procedimentos da empresa. Por mais que eu estivesse
tentando cumprir a política, e sob o meu ponto
de vista eu estava sempre certo, a imposição
das idéias a qualquer preço não
contribuíram em nada para o meu crescimento profissional.
Por
conta disso eu arranjei desafetos ao longo do caminho
e nunca compreendi muito bem o motivo, afinal, eu estava
simplesmente cumprindo o papel que me foi atribuído
na condição de responsável pela
coordenação do setor. Quando você
é líder e tem a “chave do cofre”
na mão, é fácil migrar de querido
a odiado numa fração de segundos, principalmente
se você ocupava um cargo de mesmo nível
hierárquico e na seqüencia se viu obrigado
a mudar de postura pelo fato de ter se tornado líder
dos seus próprios colegas.
No
início as pessoas cumprimentam, elogiam e são
capazes de jurar que torcem por você além
de despejar uma série de chavões do tipo
“eu já sabia”, “você
merece” ou “que bom que foi você”.
A gente custa a acreditar em palavras nobres e solidárias,
afinal, a concorrência, a necessidade premente
de reconhecimento e a valorização são
inerentes ao ser humano. Qualquer promoção
que não seja a de si mesmo causa as mais variadas
reações.
Esse
comportamento está presente nas diferentes camadas
e segmentos da sociedade moderna. O mais vil dos políticos,
reis ou imperadores consegue amealhar bajuladores. Imagine
um profissional autoritário, mas popular entre
os seus seguidores e carregado de boas intenções.
Era assim que eu me sentia na época e por conta
disso havia sempre alguém querendo puxar o meu
tapete.
Poder
é algo que fascina as pessoas e independe do
nível de instrução ou hierárquico.
Quando você está revestido de poder e autoridade,
ambos caminham lado a lado, o comportamento tende a
fugir ao seu controle. Invariavelmente, você é
dominado pela empáfia e pelas imposições
do ego que o transformam numa criatura amarga, inacessível
e, por vezes, intransigente, principalmente se você
não está preparado para o cargo. O falso
poder é capaz de produzir aberrações
corporativas irremediáveis em sã consciência.
O
fato é que a gente demora a reconhecer a necessidade
de mudança, pois, num primeiro momento, tem tudo
a ver com o orgulho e a necessidade de auto-afirmação
perante o grupo. Geralmente, a mudança vem precedida
de demissão, advertência ou mesmo de uma
rejeição em equipe em virtudes dos excessos,
o que não é simples de aceitar tampouco
fácil de reverter.
A
despeito de todos os acontecimentos, eu demorei a captar
a essência do ambiente corporativo. As pessoas
não estão muito preocupadas com as normas,
procedimentos e políticas de maneira geral. Embora
isso seja importante, o que lhes interessa inicialmente
é a própria condição dentro
da organização. Se as prioridades da empresa
estão em consonância com as suas necessidades,
ótimo, caso contrário, meras formalidades
são apenas condições transitórias
que podem ser atropeladas até o próximo
“puxão de orelha” ou o próximo
emprego.
Ao
longo do tempo eu fui percebendo também que o
universo alheio estava a quilômetros de distância
do meu mundinho real. Embora eu imaginasse que minhas
atitudes traduziam o desejo da empresa, as pessoas ao
meu redor queriam de fato um cumpridor de normas mais
flexível e atento às necessidades do grupo.
Penso
que, para o nosso próprio bem, nada acontece
exatamente como desejamos, pensamos e planejamos na
vida. No meu caso, foram necessários muitos embates
acalorados, ameaças, críticas, vários
empregos e livros e mais livros para provocar uma transformação
de ordem pessoal na minha maneira de ver o mundo e administrar
os meus próprios conflitos.
Tudo
muda quando você muda. Ser flexível e mais
aberto aos pontos de vista alheios não significa
abrir mão dos valores e princípios consolidados
ainda na infância. Não importa quanto tempo
leva para descobrirmos o quanto somos ricos e ponderados,
mas quanto tempo ainda nos resta para mudar de atitude,
de postura e de ponto de vista a fim de nos tornamos
mais humanos e dispostos a reconstruir uma carreira
profissional, um relacionamento pessoal, uma vida.
Apesar
de tudo, tenho muito chão pela frente. Somos
produtos do meio e demoramos a entender as duras mensagens
da vida embora isso não justifique as atitudes
tomadas no calor da emoção. No fundo queremos
todos sobreviver, crescer, provar a nós mesmos
que somos capazes de dar a volta por cima e tirar de
letra essa sucessão de privações
e provações ao longo do caminho. E a vida
não faz distinção de ambientes,
mas cobra muito e exige que você cresça
o tempo todo.
Durante
o caminho aprendi que existem coisas essenciais e pessoas
especiais que devem ser preservadas até o fim
da vida. O relacionamento saudável é uma
delas e você não precisa abrir mão
de convicções para mantê-los. Entretanto,
existem acontecimentos banais que podem ser solucionados
de maneira bem mais simples quando mente e coração
se mantém abertos ao diálogo e ao respeito
mútuo entre as partes. O que eu aprendi com tudo
isso?
1.
A melhor maneira de ganhar uma discussão é
evitá-la; pontos de vista pessoais interessam
única e exclusivamente a você;
2.
Pontos de vista profissionais são objetos de
negociação e análise conjunta,
pois estão atrelados ao cumprimento de um objetivo
maior que não depende exclusivamente de você;
3. As pessoas em geral possuem muito mais coisas boas
do que ruins, portanto, exercite o hábito de
procurar o que elas realmente têm de bom em vez
de procurar apenas defeitos;
4.
Encare cada situação de maneira positiva
e as coisas tendem a fluir da forma como deve ser, não
como você imagina que deve ser;
5. Ainda que você não consiga mudar uma
situação, mantenha uma boa atitude, seja
íntegro, dê tempo ao tempo;
6.
Cargos, empregos, status e sucesso são transitórios
em qualquer parte do mundo; cultive a consciência
do momento presente e ela definirá a sua importância
no momento futuro.
Reconheço
que as coisas ficaram muito mais fáceis e simples
a partir do momento em que eu decidi mudar radicalmente
a maneira de pensar e agir. É óbvio que
as mudanças não acontecem da noite para
o dia, mas a decisão é que conta. O restante
vem naturalmente. Segundo Hal Urban, autor de As Grandes
Lições da Vida, “quanto mais completos
e integrados nos tornamos, melhor nos sentimos em relação
a nós mesmos e à vida em geral”.
Pense nisso e seja feliz.
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