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MEU
NOME É TRABALHO Jerônimo
Mendes
Administrador, Escritor e Professor Motivacional
Autor de Oh, Mundo Cãoporativo! (Qualitymark)
e Benditas Muletas (Vozes)
Mestre em Organizações e Desenvolvimento
Local
Durante
as minhas palestras eu costumo perguntar aos participantes
se eles lêem a bíblia com freqüência.
A maioria afirma quem sim. Então, para testar
a eficácia da leitura alheia eu lanço
a segunda questão: o que está escrito
no Livro do Genesis, capítulo 3, versículos
de 16 a 20? Obviamente, ninguém se lembra e embora
eu o faça de maneira proposital e descontraída,
o conteúdo dessa pequena passagem bíblica
requer uma análise profunda seguida de uma reflexão
ainda maior.
Caso
não se lembre ou não tenha esse costume,
tomei a liberdade de transcrevê-la para refletirmos
um pouco sobre o significado: “E Deus disse à
mulher: multiplicarei os teus trabalhos e teus partos.
Darás à luz com dor aos filhos, e estarás
sob o poder do marido, e ele te dominará. E disse
a Adão: Porque destes ouvidos à voz de
tua mulher e comeste da árvore de que te tinha
ordenado que não comesses, a terra será
maldita por tua causa; tirarás dela o sustento
com trabalhos penosos todos os dias da tua vida. Ela
te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás
a erva da terra. Comerás o pão com o suor
do teu rosto, até que voltes à terra de
que foste tomado; por que tu és pó, e
em pó te hás de tornar. E Adão
pôs à sua mulher o nome de Eva, porque
ela era a mãe de todos os viventes.”
Embora
se trate de uma linguagem simbólica, acredito
que um universo muito limitado de pessoas faz idéia
de como essa afirmativa bíblica influenciou a
evolução humana nos últimos dois
mil anos, no âmbito pessoal e profissional. Como
foi escrito anteriormente, a reação de
Lutero à associação do trabalho
ao castigo, na metade do primeiro milênio, quebrou
parcialmente a conotação distorcida dos
fatos e a interpretação histórica
dos acontecimentos, elevando o conceito do trabalho
para um nível mais aceitável no Ocidente,
porém a influência do pensamento original
ainda mostra sinais de força em pleno século
21.
Durante
milênios as guerras também contribuíram
para o pensamento negativo a respeito do trabalho. Quando
os exércitos inimigos eram quase dizimados na
sua totalidade, os soldados remanescentes eram escravizados
e obrigados a trabalhar como castigo por seu sinal de
fraqueza. Quando o escravo não queria fazer o
que o novo patrão exigia, o senhor o mandava
tripaliare. Por isso a origem da palavra trabalho vem
do latim tripaliare, o mesmo que torturar, que por sua
vez origina-se de tripalium, antigo instrumento de tortura.
E aqui entre nós, de vez em quando você
não considera o trabalho uma tortura?
Quando
eu era pequeno ouvia minha mãe repetir o tempo
todo pelos cantos da casa: - Meu Deus, mas que castigo!
O que foi que eu fiz para merecer tudo isso? Naturalmente,
ela não se referia apenas ao trabalho, mas a
uma condição de vida desfavorável
e uma coisa era conseqüência da outra. Eu
devo ter contribuído bastante nesse sentido,
pois, diga-se de passagem, na época eu era uma
peste de marca maior e muitos dos seus cabelos brancos
se devem ao meu comportamento, típico de menino
peralta. Essa é velha, hein!
As
adversidades foram de grande valia durante os anos seguintes.
Leva tempo para a gente se tornar gente e o que conta
mesmo é o tempo presente, mas ainda hoje nos
lembramos daquele tempo com um tempo de grande aprendizado.
O fato é que o trabalho, quando não exercido
dentro da sua vocação original, tende
a se tornar um fardo pesado para muitas pessoas. Por
mais que elas tentem inverter o raciocínio para
se adaptar a uma determinada profissão, função
ou atividade, por questão de sobrevivência
pura e simples, a natureza humana custa a aceitar um
papel diferente e, dessa forma, o conflito interior
se instala.
Em
outras palavras, a pessoa está ali porque não
dispõe de alternativa menos dolorosa e acaba
utilizando a experiência atual de trabalho como
trampolim enquanto uma nova oportunidade não
chega. Particularmente, não vejo nenhum problema
nisso, comum à maioria das pessoas. O problema
está no comportamento adotado nesse chamado período
de transição.
Caso
não acredite no que digo, olhe ao seu redor –
em cada ambiente de trabalho que você conhece,
em cada loja que você entra, em cada restaurante
que você come, em cada supermercado que você
compra ou em cada repartição pública
que você recorre - a quantidade de profissionais
que está ali simplesmente para marcar presença,
sem a mínima vontade de ser agradável
e educada por um instante apenas, ainda que para isso
seja necessário fingir um pouco, pelo menos na
presença dos clientes.
A
máxima do trabalho continua o máximo em
qualquer lugar do mundo: “enquanto você
não faz o que gosta esforce-se para gostar do
que faz”, caso contrário, sua vida será
um verdadeiro suplício. Imagine-se no lugar do
patrão, do empreendedor ou do empresário
que você tanto quer ser tendo que administrar
a insatisfação alheia e a má vontade
dos colaboradores. Um profissional é contratado
para defender os interesses da empresa e ainda que ele
odeie o trabalho, os clientes nada têm a ver com
isso.
Quantas
vezes você já escutou a famigerada expressão
“meu nome é trabalho”? No meu caso
ouvi centenas de vezes, em diferentes empresas, algumas
por hipocrisia, outras por conveniência ou gozação
e muitas outras porque realmente encontrei pessoas movidas
a trabalho. Essa última classe, respeitadas as
devidas proporções, é admirável.
Imagino fazer parte dela, com muito discernimento, pois
há uma distinção enorme entre profissionais
admiráveis e alienados capazes de levar o colchão
para dormir na empresa e não perder o horário
do dia seguinte.
O
trabalho realmente dignifica o homem. Isso é
fato consumado, porém divertir-se trabalhando
é um desafio a ser superado. Dedicar-se com afinco
e gostar do trabalho, independentemente de qual seja,
é um desafio maior ainda. Coisas boas vêm
para aqueles que continuam trabalhando fervorosamente
enquanto esperam por uma situação mais
confortável e alinhada com o seu propósito
de vida.
Quando
você conhecer a sua verdadeira natureza e compreender
o seu verdadeiro eu, o trabalho se tornará um
instrumento de paz e crescimento interior, nunca de
castigo ou de tortura. Antes de perguntar “o que
eu vou ganhar com isso?” pergunte “como
eu posso ajudar?” e as transformações
positivas serão inevitáveis.
Por
fim, as palavras do grande escritor libanês Khalil
Gibran, autor de O Profeta, encerram a nossa lição
de hoje: “Sempre vos disseram que o trabalho é
uma maldição e a labuta uma infelicidade.
Mas eu vos digo que, quando trabalhais, cumpris uma
parte do sonho mais profundo da terra que vos foi designada
quando o sonho nasceu; e mantendo vosso trabalho, em
verdade estais mantendo a vida; e amar a vida através
do trabalho é manter-se íntimo do maior
segredo da vida; e todo o trabalho é vazio, a
não ser que haja amor; e quando trabalhais com
amor, vos ligais a vós mesmos, e aos outros,
e a Deus”. Pense nisso e seja feliz!
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