CAPITAL X TRABALHO

Por Jerônimo Mendes
Escritor e Professor Universitário
Sócio-Gerente da Consult Consultoria em Gestão e Treinamento
Autor do livro Oh, Mundo Cãoporativo! Lições e Reflexões

Tenho lido muitos livros para entender um pouco a relação existente entre capital e trabalho desde os tempos mais remotos, porém é inútil fazê-lo. Marx, Engels e outros estudiosos definiram essa relação à sua maneira sugerindo o capital como a mola propulsora da geração do trabalho embora esse último de maneira submissa.
O entendimento é muito simples quando nos propomos a refletir com maior frieza e menor emoção, pois capital e trabalho são palavras que não combinam na essência e na concepção. Poucas pessoas buscam o domínio do assunto por terem se acostumado a aceitar a relação que se tornou comum a partir do instante em que o mundo rendeu-se à queda do Muro de Berlim, ao desmoronamento do comunismo e, por conseqüência, ao fim da Guerra Fria.
Em suma, qualquer um que sustentasse posição favorável à existência do socialismo seria facilmente taxado de imbecil. Negar que isso tenha sido ponto positivo para o fortalecimento da globalização e, de certa forma, para a democracia, seria insensato de minha parte.
Por outro lado houve o enfraquecimento visível da consciência coletiva mundial em relação à busca do equilíbrio entre os dois, o que considero impossível, uma utopia por assim dizer, salvo por algumas vozes isoladas que ainda se dedicam a entender e explicar o assunto para leigos.
Podemos tentar simplificar o entendimento. Quando falamos da utilização da inteligência alheia em forma de geração de empregos e conseqüente formação da riqueza, estamos nos referindo ao capital. Quando falamos de colocar a própria inteligência a serviço dos outros estamos falando de trabalho.
Parece duro de minha parte, mas a grande maioria dos ricos não trabalha duro, o que não é condenável nem deselegante. A concepção de trabalho é que é diferente, ou seja, o capital é quem trabalha para eles e os diverte.
Isso justifica parcialmente o fato de muitos estudiosos e graduados não terem o mesmo sucesso financeiro de outros que nem sequer passam do primário, ou seja, estudo em geral não garante a felicidade de ninguém. Dinheiro também não.
Passamos boa parte da vida empolgados por termos conseguido pagar o financiamento de um imóvel que, supostamente, nunca será nosso. Isso é trabalho, o que sugere esforço e dedicação descomunal a fim de garantir o pagamento da hipoteca durante o tempo em que for necessário.
O irônico de tudo isso é pensar que após a metade do tempo acordado ainda nos sobra coragem para repassar esse precioso bem para outros e ousadia para assumir um novo financiamento por quinze, vinte ou trinta anos. Há sempre alguém querendo assumir uma nova dívida. Isso é trabalho árduo.
Mais irônico ainda é quando o indivíduo, pressionado por dívidas e mais dívidas contraídas através das facilidades do cartão de crédito ou do crédito pessoal, é obrigado a se desfazer do mesmo bem a preço de bananas, geralmente um imóvel ou um veículo cujo pagamento foi suado. Quem aparece então para ajudá-lo? O capital, sempre de prontidão para resolver o problema. Entra em cena o velho ditado: galinha morta aparece quando se tem dinheiro.
Cresci ouvindo meu pai dizer: ”estude, estude o máximo que puder para arranjar um bom emprego e ter segurança na vida”. Outra ironia, nunca estamos seguros. E lá se foram vinte e dois anos intensos de muita leitura e dedicação aos livros, mas como eu disse antes, conheço centenas de empresários bem sucedidos que não fizeram qualquer uso do ensinamento obtido na escola. Ao contrário conheço dezenas de professores que vão passar a vida inteira pagando dívidas.
Há sempre alguém disposto a fazer o dobro pela metade do nosso salário. Isso é trabalho. Há sempre alguém oferecendo a metade do seu salário para alguém que se disponha a fazer o dobro. Isso é capital. Um não vive sem o outro, porém o capital é frio e aproveita melhor as oportunidades e as brechas da lei em todo o planeta.
O capital está sempre aberto ao crescimento, afinal, mais de 1,4 trilhão de dólares circulam diariamente nos mercados financeiros do mundo globalizado. Há gente ganhando e gente perdendo. O que muda é a consciência do dinheiro. O capital arrisca mais para ganhar mais e o trabalho não arrisca para não perder o pouco que tem.
A relação é simples assim. O capital é educado desde pequeno para se multiplicar e o trabalho é educado para servir ao capital, acredite. Difícil aceitar, fácil entender. Falta repensar o que nos leva a permanecer a insistir no lado mais difícil.