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A ANGÚSTIA
DA VIDA PROFISSIONAL
Jerônimo
Mendes
Administrador, Escritor e Palestrante
Autor de Oh, Mundo Cãoporativo! (Qualitymark)
e Benditas Muletas (Vozes)
Mestre em Organizações e Desenvolvimento
Local
Com
relação ao mundo corporativo, costumo
dizer o seguinte: manda quem pode, obedece quem precisa,
muda quem tem juízo. Essa última parte
é por minha conta, mas eu já pensei diferente
no passado. Reconheço que é bem mais fácil
pensar assim depois de certa idade, quando você
sabe exatamente o que quer e, principalmente, quando
você trabalha de cabeça erguida, graças
ao seu esforço, dedicação e, sem
dúvida, um pouco de sorte. Dessa forma, pensar
diferente é um exercício gratificante
para não se deixar escravizar apesar da necessidade
que, na maioria dos casos, sempre fala mais alto.
Entender
o ditado requer interpretação em três
etapas. “Manda quem pode” é algo
típico da Idade Média, quando os senhores
feudais dominavam vastas propriedades de terras e os
servos e vassalos viviam à mercê do seu
temperamento nada amistoso, portanto, qualquer descontentamento
era sinônimo de ameaça e, para evitar conflitos,
cuja pena máxima era a perda de proteção
ou a expulsão do feudo, a alternativa mais sensata
era obedecer. Assim foi no tempo da escravidão,
quando os reis, imperadores e senhores de engenho detinham
a propriedade do indivíduo, de papel passado,
em regime absoluto de escravidão. Durante essa
fase repugnante da nossa história, isso era comum.
“Obedece
quem precisa” surgiu mais adiante quando Frederick
Taylor, o precursor da administração científica
do trabalho, instituiu o conceito de chefia e organização
e instituiu, de forma veemente e unilateral, que alguns
nascem para mandar, outros para fazer. Naturalmente,
quem nascia para a execução morreria sob
esse estigma e poderia se tornar um obediente operário
até o fim da vida. Por essa razão, Taylor
era meio paranóico, obcecado por controle e produtividade.
“Muda
quem tem juízo” é a minha praia,
por assim dizer. Considero a melhor atitude para se
livrar do ditado original. Embora eu tenha sido forçado
à mudança há algum tempo e isso
tenha me proporcionado um bem danado, eu posso dizer
que se trata de um dilema difícil de ser solucionado
e isso não é privilégio de poucos,
ao contrário, é o caso da maioria dos
profissionais do mundo moderno.
A
mudança é o caminho mais adequado para
livrá-lo dessas tolices que mancham o mundo corporativo
e para colocar todo o seu potencial em prática
num lugar onde você possa ser tratado, literalmente,
como ser humano. Você é a única
pessoa capaz de reverter o quadro depreciativo que pintam
a seu respeito e a respeito do seu trabalho, por mais
esforçado que você tente parecer.
De
acordo com pesquisa divulgada na Revista Negócios
(Edição n. 3, maio de 2007), o ambiente
de trabalho se tornou fonte de infelicidade para presidentes
e diretores de grandes empresas e, por experiência
própria, estendo essa infelicidade geral para
outros níveis hierárquicos que sofrem
diferentes tipos de pressão por resultados cada
dia mais insaciáveis.
Ainda
segundo a pesquisa, realizada com mais de mil executivos
de 350 empresas, a angústia da vida executiva
é algo digno de reflexão. Dentre os principais
resultados obtidos, a pesquisa aponta que 84% dos executivos
se dizem infelizes no trabalho, 54% que se dizem insatisfeitos
com o tempo dedicado à vida pessoal e 35% deles
apontam os problemas com o chefe como a crise mais marcante
da sua vida, o que não é tanta novidade
assim.
Por
um lado, o excesso de trabalho, por outro, a falta dele.
Ambos têm a ver com a dignidade humana, relegada
com freqüência ao segundo plano. Albert Camus,
filósofo francês, lembra que não
existe dignidade no trabalho quando este não
é aceito livremente. Pior ainda quando não
é aceito de forma alguma.
Concordo
plenamente com o escritor James Hunter, autor de O Monge
e o Executivo, quando diz que “os seres humanos
têm um profundo anseio por significado e propósito
em sua vida e retribuirão a quem os ajudar a
atender a esta necessidade. Eles querem acreditar que
o que estão fazendo é importante, que
serve a um desígnio e que agrega valor ao mundo”.
Isso vale para o mais simples dos mortais.
Meu
pai ficou praticamente 30 anos na mesma empresa repetindo
esse ditado e por vários lugares onde passei
havia sempre um insatisfeito que parecia ter assumido
o lugar dele, mas não o condeno. Ele foi feliz
do seu jeito e, apesar dos revezes, sobreviveu e conseguiu
criar os filhos com dignidade.
Embora
as circunstâncias mudem e as oportunidades sejam
freqüentes, muitos profissionais ainda se submetem
a essa filosofia de vida, por medo ou insegurança,
enquanto o verdadeiro potencial vai lhe escapando pelo
vão dos dedos sem que o mesmo seja capaz de esboçar
a mínima reação. Isso soa um pouco
deprimente.
O
fato de não ter conseguido livrar-me definitivamente
desse ditado me fez reconstruí-lo a fim de torná-lo
mais digerível e para repensar a maneira de ver
o mundo. Leva tempo para conseguirmos destruir alguns
paradigmas plantados em nossa cabeça involuntariamente.
Hoje, cada vez que alguém dispara essa máxima
perto de mim, eu complemento: “e muda quem tem
juízo”.
Graças
a Deus, conheço um numero razoável de
profissionais que deram a volta por cima e, a despeito
de todas as dificuldades encontradas no caminho, tiveram
a coragem de reposicionar-se no mercado para conquistar
um lugar ao sol, optando, em muitos casos, por uma renda
menor ao reconsiderar o fato de que o dinheiro jamais
conseguirá compensar a ausência de paz
de espírito.
O
mundo é repleto de oportunidades e, por menos
conhecimento que alguém possa apresentar sobre
determinado assunto, existe uma força sobrenatural
dentro de cada ser humano capaz de transformá-lo
em exímio conhecedor daquilo que ele estiver
realmente determinado a realizar. É praticamente
impossível o universo não trabalhar a
seu favor se você estiver convicto de que as adversidades
são condições temporárias
e que a força de vontade e a determinação
são as únicas virtudes capazes de recolocá-lo
num ambiente mais merecedor da sua energia, da sua inteligência
e da sua valiosa companhia.
Olhe
ao redor e admire a legião de profissionais que
abriram mão de um cargo altamente promissor em
grandes corporações e seus respectivos
benefícios em troca de mais dignidade, mais qualidade
de vida e mais tempo para a família. E mais,
quantos amigos e colegas de trabalho pararam de brigar
consigo mesmo, com o chefe e com a conta bancária
partindo para uma missão diferente muito antes
de você esboçar a primeira reclamação.
Existem
inúmeras empresas onde o ditado prevalece, por
pouco tempo, creio eu. Hoje, manda quem pode, obedece
quem precisa e muda quem tem juízo, pois é
necessário evitar ambientes onde o regime feudal
deixou resquícios. Assim sendo, quero compartilhar
algumas dicas que poderão ajudá-lo no
seu ritual diário de crescimento e desenvolvimento
pessoal. Espero que sejam úteis.
1. Ninguém tem o direito de ferir a sua dignidade;
quando sentir que o ambiente está afetando a
sua auto-estima e a sua dignidade, ou você muda
de ambiente ou enfrenta o problema ou pára de
reclamar para sofrer menos do que o necessário;
a primeira é mais gratificante;
2.
Considere que poucos líderes estão preparados
para enfrentar o diálogo aberto e consistente
quando alguém questiona o clima organizacional;
quando isso ocorre, geralmente eles são pegos
de surpresa; você conhece algum chefe propenso
a admitir sua maneira equivocada de conduzir a equipe?
3.
Mudar é mais difícil do que se imagina;
é muito mais prático suportar a pressão
e chorar sozinho do que perder o emprego, o crachá
e o plano de saúde, portanto, releve certas coisas
e seja menos rígido na avaliação;
digo isso porque já fui mais rígido do
que o necessário e isso não me ajudou
em nada, ao contrário, paguei um preço
alto;
4.
Lembre-se que nem tudo é para sempre e, felizmente,
a vida é feita de mais momentos alegres do que
tristes.
A angústia da vida profissional é eterna.
Por mais recompensadora que possa parecer, a aposentadoria
será o início de novos dilemas que surgirão
com a idade e com a eterna necessidade de se sentir
útil perante a sociedade. Como diz o César
Souza, autor de Você é o tamanho dos seus
sonhos, se você não existisse, o universo
não seria o mesmo. Portanto, pare de sofrer com
coisas pequenas e comece a provar a si mesmo que você
é superior a tudo isso.
Nada
resiste ao trabalho e ao desejo irreversível
de subir na vida. Se você mantiver uma postura
irreparável no caminho e assumir o compromisso
de crescer e de aprender todos os dias até o
fim da vida, ainda que você tenha de cair e levantar
inúmeras vezes, seus pais, seus verdadeiros amigos
e, principalmente, sua família, agradecem, de
coração. Pense nisso e seja feliz!
Jerônimo
Mendes
Curitiba – PR
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