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DEMITIDO NUNCA
MAIS
Jerônimo
Mendes
Administrador, Escritor e Palestrante
Autor de Oh, Mundo Cãoporativo! (Qualitymark)
e Benditas Muletas (Vozes)
Mestre em Organizações e Desenvolvimento
Local
Depois de trinta anos bem vividos no mundo profissional
e com mais uns trinta pela frente, posso dizer que conheço
um pouco dos meandros que permeiam o ambiente corporativo.
Dominá-lo por inteiro é um desafio considerável
e duvido que isso seja possível em menos de trinta
ou quarenta anos, pois o ser humano é surpreendente
em todos os sentidos e quando você imagina que
sabe tudo a seu respeito, coisas incríveis e
inesperadas acontecem.
Durante
a minha inesquecível jornada como empregado,
principalmente nas décadas de 1980 e 1990, eu
ficava chocado com a enxurrada de demissões que
ocorriam em todas as empresas por onde passava e, independentemente
das razões apresentadas, isso sempre me deixava
consternado, pois eu sabia que, nessa hora, o senso
de justiça raramente prevalecia.
Algumas
eram cômicas, outras dolorosas, porém a
maioria tinha pouco a ver com a origem do problema.
O fato é que as demissões eram inevitáveis
e aos poucos eu fui aprendendo a conviver com elas e
extraindo lições que ainda hoje se mostram
muito úteis na profissão de consultor
e palestrante. No mínimo a gente diverte o público
contando histórias. Infelizmente isso não
me livrou da convivência com profissionais completamente
despreparados para a arte de demitir.
Nesse
período, conheci alguns seres inescrupulosos,
de sangue frio, cujo maior deleite era demitir sorrindo,
e outros que se diziam incapazes de demitir sem antes
passar por um período de tensão involuntária.
Outros nunca tiveram coragem de demitir alguém
e muitos ainda preferiam transferir o problema para
a turma do RH a fim de evitar o confronto com o profissional
para o qual ele nunca foi capaz de prestar feedback,
por medo, insegurança ou falta de liderança.
Demitir
alguém e absorver a demissão é
um processo delicado que exige equilíbrio e maturidade,
tanto para quem demite quanto para quem é demitido.
E, geralmente, essas virtudes nunca estão presentes
quando mais precisamos delas, razão pela qual
as demissões são verdadeiros desastres
que destroem a auto-estima das pessoas em vez de projetá-las
para um futuro melhor.
No
início de 2000 eu vivi o período mais
difícil da minha vida profissional quando, por
determinação da matriz, recebi a triste
notícia de que a área que eu coordenava
seria transferida para outro estado. Em menos de três
meses eu me vi obrigado a demitir quase toda a equipe
que eu havia dado um duro danado para consolidar. Éramos
praticamente uma família de vinte e uma pessoas
- conceito equivocado e mais tarde reformulado - que
se desmantelou da noite para o dia, onde eu, o paizão,
pouco pude fazer pelos meus filhos, porém, graças
ao talento natural e à incrível capacidade
de adaptação do ser humano, todos sobreviveram.
Como
dizia a inesquecível mestra Maria Schirato, autora
de O Feitiço das Organizações,
“família não é mãe”.
Você conhece alguma mãe que reúne
os filhos no fim do expediente de sexta-feira para o
seguinte comunicado: - meus filhos, a situação
está muito complicada, os custos subiram assustadoramente
e, por decisão da diretoria, vamos fazer uma
reestruturação na família com redução
de 20% do efetivo? Zezinho e Luizinho, vocês não
fazem mais parte do quadro familiar.
De
uma vez por todas, não existe esse negócio
de empresa-mãe. Cada vez que alguém arrisca
proferir uma barbaridade dessas na minha presença
eu espremo a pessoa. Caso ela ainda não saiba,
vai saber a diferença entre empresa e sua verdadeira
mãe no dia do desligamento quando perder o crachá,
o plano de saúde, o auxílio-combustível,
o vale-refeição e aquela bendita cadeira
onde ela acomodou confortavelmente o seu delicado traseiro
durante mais de dez anos.
Parafraseando
a mestra, mãe é aquela que divide o bife,
põe mais água no feijão, tira da
boca para dar aos filhos, salta no lago para salvar
o filho mesmo sem saber nadar, se atira no rio para
livrar o filho da voracidade do jacaré, protege
o filho das atitudes violentas do pai e enfrenta três
dias de fila para conseguir uma vaga na escola pública.
Isso é mãe. O restante sofre de uma vontade
danada de ser mãe de verdade, portanto, nenhuma
empresa pode ser comparada a uma mãe ou a uma
família.
Complicado
mesmo é a vida do alienado, aquele que desconhece
o limite entre o lado pessoal e o profissional feito
o indivíduo que depois de vinte e poucos anos
de bons serviços prestados na empresa, foi demitido.
No dia seguinte lá estava ele na portaria, no
horário de sempre, implorando para retornar ao
local. Depois de muita conversa, ele foi autorizado
a entrar por alguns minutos para atender suas necessidades,
literalmente. Acreditem que o sujeito simplesmente não
conseguia evacuar em casa, é mole?
Durante
uma semana ele voltou ao local de trabalho, mais precisamente
ao banheiro, para realizar a proeza de evacuar e ainda
matar as saudades da tampa macia do vaso sanitário,
acompanhado pelo segurança, é óbvio,
o qual aguardava pacientemente o sujeito na porta do
banheiro até que num determinado momento alguém
decidiu que era hora de encerrar definitivamente o processo
de simbiose do infeliz com a organização.
Quanta
humilhação! Não é necessário
chegar a tanto. Cá entre nós, o ser humano
vale muito mais do que isso. Você conhece alguém
que foi demitido e hoje se encontra na rua da amargura,
passando fome ou mendigando? Fico feliz em saber que
todos os meus ex-colaboradores, hoje grandes amigos,
estão muito bem, obrigado, alguns até
melhores do que eu, graças ao seu talento, esforço,
um pouco de sorte e, é claro, uma pitada dos
meus ensinamentos. Digo isso com orgulho e quando me
lembro dá até um nó na garganta.
Com
o tempo eu aprendi que toda demissão tem o seu
lado estimulante e doce. Se você tiver consciência
do que é capaz e acreditar piamente na volta
por cima, infinitas possibilidades se abrem. Muitos
profissionais confundem a relação e se
entregam fervorosamente a uma convivência que
eles insistem em chamar de família. Quando os
laços familiares se rompem, o sujeito fica perdido
e não sabe se vai para casa ou para o bar da
esquina mais próximo. Eu chorei um tacho de lágrimas
e voltei para casa o mais rápido possível
quando ocorreu comigo. Graças a Deus fui muito
bem recebido e ainda ganhei o melhor dos presentes,
carinho e abraços, uma das razões pela
qual sou fã da minha família.
Se
algum dia você vivenciar algo parecido, quer na
posição de demitido, quer na posição
de cumpridor dessa difícil tarefa, lembre-se
das minhas palavras. Por experiência própria,
digo que você vai sobreviver tranqüilamente
e ainda sair fortalecido para o próximo desafio.
Pense nos amigos que passaram por situação
semelhante e avalie o quanto eles evoluíram em
todos os sentidos. A vida voltará ao normal muito
antes do que você imagina.
Eis
aqui algumas lições que me foram extremamente
úteis nesse sentido e espero que sejam úteis
se algum dia precisar delas ou quando tiver que socorrer
um amigo. Torço para que você cresça
profissionalmente, onde quer que esteja, porém
tenha em mente que a concorrência no mercado de
trabalho é acirrada e, muitas vezes, desleal,
portanto, lembre-se:
1. Jamais lamente um fato como esse. Lamentar ou falar
mal da empresa serve apenas para provocar insegurança
nas pessoas que você ama e distanciamento dos
admiradores do seu trabalho; o que você menos
precisa nesse momento é de pensamentos e atitudes
negativas;
2. Em momentos de crise, o importante é manter
a lucidez e o equilíbrio; pare de se demitir
mentalmente e sofrer por antecipação;
se a demissão for inevitável, considere-a
como uma nova oportunidade de apresentar seu talento
e energia para quem realmente precisa deles, seja como
patrão, seja como empregado;
3. Pense que sempre haverá espaço para
pessoas que demonstram otimismo diante das adversidades,
para quem cultiva o sorriso nos lábios e, principalmente,
para quem sabe dizer “bom-dia”, “por
favor” e “obrigado”;
4.
Todas as empresas são carentes de bons profissionais,
portanto, seja humilde e ousado ao mesmo tempo, mantenha
contato com os amigos e conhecidos e não tenha
vergonha de pedir, afinal, pedir não ofende;
não mande o currículo para o RH, mande
o currículo para um amigo que conhece alguém
do RH; utilize a sua rede de contatos e pare de gastar
com Xerox e papel;
5.
Segundo Jack Welch, o executivo que revitalizou a GE,
“até um pé no traseiro te empurra
para frente”, portanto, mãos à obra,
currículo na mão esquerda, celular na
mão direita, carro ou o vale-transporte que ainda
sobrou, sua melhor roupa e muitos contatos, quantos
forem possíveis e necessários;
6.
Mantenha a fé, a esperança e o foco. Sem
isso, não há currículo nem padrinho
que dê jeito. Muito otimismo, pois como dizia
a avó de um amigo meu, “é no andar
da carruagem que as abóboras se ajeitam”.
Se você não acredita em si mesmo, por que
alguém haveria de acreditar?
Penso
que todos nascem para cumprir uma missão, seja
ela qual for, portanto, é melhor que seja num
lugar onde tenhamos o mínimo de dignidade e respeito.
Pare de ser demitido, demita-se antes, não apenas
da empresa, mas das coisas que você não
tem a mínima vocação para desempenhar.
Para Albert Camus, não existe dignidade no trabalho
quando nosso trabalho não é aceito livremente.
Pense nisso e seja feliz!
Jerônimo
Mendes
Curitiba – PR
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