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SER HUMANO OU SER
PROFISSIONAL
Jerônimo
Mendes
Administrador, Escritor e Palestrante
Autor de Oh, Mundo Cãoporativo! (Qualitymark)
e Benditas Muletas (Vozes)
Por
várias empresas onde passei havia sempre um adepto
do seguinte discurso: eu não levo problemas do
trabalho para casa e vice-versa; aqui na empresa eu
sou profissional. Ao dizer aquilo o sujeito enchia a
boca e estufava o peito enquanto eu tentava imaginar
o tipo de mágica necessário para se conseguir
desassociar o pensamento de ambientes tão intimamente
ligados.
Como
dizia a mestra Maria Schirato: você conhece alguma
mãe que sai de casa contente para o trabalho
ao deixar o filho na cama com 38 graus de febre? Você
conhece algum profissional que volta para casa sorrindo,
depois de levar uma babada inesquecível do chefe
na frente dos colegas?
Assim
como é no trabalho é na vida pessoal.
Ambos demandam por responsabilidades, metas e objetivos,
avaliações, solução de problemas
e conflitos de toda ordem, negociações
o tempo todo. Em casa é melhor, pois temos o
direito de levantar um pouco mais tarde e trabalhar
de cueca, se as esposas deixarem. E geralmente, com
jeitinho, elas não contrariam.
Em
todas as minhas palestras tenho defendido a indissociabilidade
do ser humano no mundo pessoal e no profissional embora
existam limites para ambos. É difícil
acreditar que alguém possa ser diferente utilizando-se
da mesma mente, repleta de histórias e de vícios,
e do mesmo corpo.
Em
outro artigo mencionei o caso de milhares de pessoas
que saem de casa na segunda-feira, descontentes, já
pensando na sexta-feira, com a terrível sensação
de que a semana será um verdadeiro inferno. Apenas
para relembrar, se isso acontece com você, possivelmente
você está no lugar errado. Por essas e
outras razões é que o imperdível
happy hour faz muito sucesso. Ali, você está
livre da hostilidade corporativa e pode até praticá-la
utilizando-se do suave veneno comumente destilado nas
mesas de bares e restaurantes na ausência do patrão,
do chefe e dos desafetos.
Todos
os dias, a despeito da infinidade de problemas que surgem
com freqüência em sua vida, o ser humano
tende a vestir a máscara da hipocrisia. Como
sua mente não está preparada para ver
somente o lado bom das coisas nem para se render diante
dos fatos que parecem óbvios, e para os quais
se exige boa dose de humildade, ele sai de casa imaginando
o que fazer para evitar o encontro com o chefe ou para
terminar aquele projeto que há mais de um mês
foi solicitado ou ainda quando encontrar o colega com
o qual ele não possui a menor afinidade –
de fato, eles se odeiam, porém é melhor
sorrir para manter o espírito de equipe.
Particularmente,
acredito pouco nas pessoas e nos profissionais –
e os profissionais são pessoas - que se dizem
diferentes em casa e no trabalho. Tenho em mente a imagem
daquele sujeito que foi eleito o empresário do
ano, o líder do ano, o político do ano,
a personalidade do ano, entretanto, sua vida pessoal
é o caos. De dia sorri para a equipe, de noite
enche os filhos de palavrões.
“Na
ocorrência de coisas desagradáveis entre
vizinhos, o medo chega rápido ao coração
e exagera o efeito na outra parte; mas ele é
um mau conselheiro e todo homem é na verdade
fraco e na aparência forte. A si mesmo, ele parece
fraco; aos outros, formidável.”, afirmava
Emerson.
Se
“somos aquilo que fazemos repetidamente”
e repetidamente nossa maior preocupação
é concentrar energia no sucesso alheio e nos
defeitos alheios, não importa o ambiente em que
nos encontramos, seremos sempre personagens movidos
ao equívoco permanente, com pouca capacidade
de discernimento e com tendência ao pré-julgamento,
na ponta da língua e no fundo da mente.
O
mundo espera muito de nós, portanto, é
necessário manter-se fiel ao nosso elemento de
vida, a verdade. Quando você se mantém
fiel a si mesmo e a consciência está em
sintonia com o seu coração, as decisões
fluem com mais naturalidade e senso de justiça.
Neste caso, não importa o campo de batalha.
Convenhamos,
é extremamente difícil ser justo e manter
a tranqüilidade sob pressão, quando o emprego
está em jogo, quando as contas estão vencidas
ou quando a família está desunida. Poucos
de nós foram treinados para enfrentar as adversidades
com a serenidade que tanto almejamos. E ainda exigimos
firmeza e equilíbrio por parte dos filhos, dos
amigos e dos colegas. Nem sempre aquele que nos aconselha
utiliza o mesmo conselho para resolver os próprios
dilemas.
Todo
ser humano é refém dos próprios
pensamentos, portanto, todo pensamento é também
uma prisão. Ele tem o dom de escravizar a si
mesmo e de antecipar problemas que nunca acontecem da
forma como imagina, o que o leva à demissão
antes da hora, ao pré-julgamento, ao desequilíbrio
físico e psicológico, ao sofrimento desnecessário.
Definitivamente,
não há como separar o lado humano e o
profissional. O que muda é a percepção
do ambiente, a forma como abordamos determinados assuntos
e os limites que conseguimos impor a nós mesmos
para conservar o caráter e a reputação
em ambientes distintos, mas complementares.
Depois
de quarenta e poucos anos de vida, e muita martelada
na cabeça, posso dizer que aprendi um bocado
nesse mundo corporativo, motivo pelo qual divido com
vocês algumas dicas que podem ajudá-lo
a equilibrar os dois lados, com menos sofrimento e mais
discernimento, se julgar conveniente aplicá-las
por livre e espontânea vontade em sua vida pessoal
e profissional.
Acredite
ou não, elas funcionam muito bem se você
tiver a humildade de olhar para dentro de si mesmo a
fim de manter a integridade em ambientes que exigem,
de maneira equânime, princípios e valores
inegociáveis, caso contrário, isto não
lhe servirá para nada. Pense no seguinte:
1)
Você conhece milhares de pessoas, mas conta nos
dedos aqueles que realmente pode chamar de amigos. Não
existe esse negócio de amigos na vida pessoal
e amigos no trabalho. Amigos são amigos e ponto
final, no trabalho ou fora dele;
2) O ser humano é indissociável, portanto,
as emoções da relação pessoal
e profissional estão intimamente ligadas. Procure
equilibrar os dois lados, pois ambos precisam de você
e vice-versa;
3)
Mais importante do que a pressão exercida no
trabalho, acredite, existe vida fora dele. A família
te espera em casa de braços abertos, desde que
você adote na íntegra o conceito de família;
para onde você corre quando perde o emprego? Eu
corri para os braços da minha querida esposa
e dos meus filhos quando aconteceu comigo e, graças
a Deus, fui muito bem recebido;
4)
Não seja pedante e não deixe que a fama
lhe suba à cabeça. Quanto maior o cargo,
maior o tombo, mais difícil a recuperação.
Poucos estão preparados para recomeçar
a caminhada depois de perder o crachá, o plano
de saúde, o vale-refeição e, principalmente,
o sobrenome da empresa; no fim das contas, o que conta
mesmo é o seu sobrenome de nascença;
5)
Trate bem as pessoas, independentemente do nível
hierárquico, o delas e o seu. Em cargos de liderança,
se tiver que demitir alguém, seja direto, gentil
e transparente, mas não tripudie, é um
momento difícil para ambos, a menos que você
seja desprovido de hormônios;
6)
Felizmente, o mundo corporativo sobrevive sem você,
portanto, não o carregue nas costas nem se deixe
escravizar por uma quantia de dinheiro que nunca será
suficiente para compensar o tempo e a saúde que
você perde enquanto tenta provar para a família
e para o chefe o quanto você é capaz; entretanto,
enquanto estiver a serviço de alguém,
dê o melhor de si, seja leal e íntegro;
Por
fim, lembre-se: não se trata de fazer a família
entender o quão importante o trabalho é
para você, mas o quão importante você
é para a família e para as empresas que
confiam no seu trabalho. Pense nisso, sofra menos, seja
mais humano, mais ativo, constituinte e criador do mundo.
Seja feliz!
Jerônimo
Mendes
Curitiba – PR
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