PEQUENAS LIÇÕES

Jerônimo Mendes
Administrador, Escritor e Palestrante
Autor do livro Oh, Mundo Cãoporativo! e Benditas Muletas

Algumas coisas a gente faz na vida por extrema necessidade, outras em razão da curiosidade que fica martelando nossos ouvidos enquanto não tomamos uma decisão concreta para removê-las do córtex cerebral.

A demissão é uma excelente oportunidade de reflexão sobre a vida e tudo o que fomos capazes ou incapazes de agregar e contribuir em todos os sentidos. Nem sempre o mundo desaba, mas se abre como oportunidade à nossa frente.

Naturalmente, uma dose de humildade nos remete ao mundo nunca antes imaginado. Um das inúmeras possibilidades que a vida oferece após um deslocamento momentâneo e involuntário do mercado de trabalho é o recebimento do tão cobiçado seguro-desemprego.

Seria orgulho de minha parte recusar um valor tão significativo nos dias de hoje considerando a escassez e a importância do dinheiro. Analisando bem, cinco parcelas de R$ 449,00 pagam tranqüilamente a mensalidade escolar do meu filho mais novo embora eu espere não recebê-las até o fim por conta de uma possível recolocação profissional, mas nunca sabemos o que vida nos reserva.

Depois de coletar informações por telefone lá estava eu no dia seguinte correndo atrás da valiosa senha de atendimento, pois o órgão responsável pelo seguro-desemprego, o famigerado SINE, tem a difícil missão de cadastrar trinta e oito felizardos por dia, pelo menos na cidade onde moro, desde que os afortunados estejam munidos de todos os documentos possíveis de se conseguir por uma pessoa normal.

Levantei cedo, tomei um bom café, levei meu filho para a escola, rezei um pouco, é sempre bom, e, finalmente, corri para obter a senha distribuída religiosamente todos os dias a partir das sete e vinte da manhã. Com um pouco de sorte conseguiria, pois a atendente disse por telefone que eu deveria chegar às seis da manhã, mas não devemos perder o espírito esportivo e, principalmente, a fé.

Apesar do horário, tive sorte, consegui a senha dezenove, sinal de que o dia começava bem. O impresso continha o provável horário de atendimento: 14:10h. Menos mal, não havia de esperar a manhã toda ao lado de uma fila de desempregados a lamentar os problemas de sempre: o governo tá ruim, a coisa tá feia!

Quando desempregado, o melhor a fazer é evitar o desempregado. Parece praga, é desempregado por todo lado, com dentes, sem dentes. Nessa hora não tem jeito, o nível se iguala, todo mundo no mesmo barco. Você já viu um desempregado tentando estimular o outro? Juro por Deus, não há diálogo que resista.

Com a senha na mão retornei após o almoço, crente que seria atendido no horário estimado ou, no máximo, com alguns minutos de tolerância. Levei os dois filhos para que eles tenham consciência do que é ser empregado, ou melhor, desempregado, embora, se depender de mim, eles serão criadores de empregos e não eternos empregados de carteira assinada.

Depois de uma hora e dezoito minutos contados no relógio fui agraciado com um belo sorriso da atendente. Eu havia me preparado para fazer um pequeno sermão educado diante da platéia, porém ao olhar para a mesa percebi a mão esquerda da moça coberta por uma faixa.

Um cumprimento, um sorriso e um certo constrangimento de minha parte fizeram parte dos minutos que se sucederam. De posse dos documentos, ela passou a digitar meus dados no micro com a mão direita completa e a esquerda tão ágil quanto a outra, apesar de restarem apenas o indicador e o polegar que se deixavam escapar por entre a faixa meio desajeitada, um pouco suja.

Nesse momento a dor da espera foi amenizada pelo impacto do meu desconforto diante da cena. Curioso ao extremo, perguntei o que havia acontecido e ela gentilmente foi narrando a perda dos três dedos da mão esquerda, prensados numa máquina de embalagem na empresa onde trabalhava.

Apesar da dor ela continuou viva, não perdeu o bom humor e ainda deu uma lição de vida elogiando minha iniciativa de recorrer ao seguro-desemprego, ao lembrar que muitos infelizes não recebiam um décimo do meu salário, mas descartavam a idéia quando lhes contam o valor do benefício. Como diria meu velho pai: pobre e orgulhoso jamais terá lugar na face da Terra.

Ao terminar o cadastro ela disparou com ar de loteria: o senhor é abençoado, seu registro é 997733. Se achar um bilhete com esse número, compro na hora, sem pestanejar. Juro por tudo que é mais sagrado, saí de lá constrangido e renovado ao mesmo tempo.

Num ambiente como esse dificilmente se ouve notícia boa, Se tivermos cabeça, é algo que anima e revigora quando se têm em conta que os problemas não são exclusivamente nossos. Por outro lado, há de se fazer um esforço brutal para não se deixar levar pelo orgulho de não querer estar ali naquele momento.

Meus filhos saíram animados quando lhes contei o valor do benefício, ganhar sem trabalhar na cabeça ingênua cabeça de cada um. Trataram de fazer o rateio como se fosse um prêmio.

Criança é bom por isso, não vê tristeza em lugar algum. Por outro lado esperava não receber nem a primeira parcela e que o valor pudesse servir aos milhares de brasileiros cuja única esperança é seguro-desemprego.

De minha parte, ficou uma bela lição. Apesar de tudo, devemos manter o ânimo e renovar as energias no minuto seguinte, pois não há obstáculo nessa vida que não possa ser ultrapassado nem tristeza que não possa ser convertida em pura alegria, ainda que passageira. Nunca perca esperança, ela é a única companheira nos momentos mais difíceis.