A NATUREZA DO PODER

Jerônimo Mendes
Administrador, Escritor e Palestrante
Autor do livro Oh, Mundo Cãoporativo! Lições e Reflexões


Depois de muito sofrer as conseqüências de uma política tribal injusta e opressora, sem o mínimo apoio dos órgãos internacionais e da nobreza constituída há mais de mil quilômetros, cujas preocupações não eram os acontecimentos banais do meio da selva, mas a manutenção do poder sustentado pela extração dos bens oriundos dela, uma pequena tribo resolveu rebelar-se e declarar total independência.

Puritiba é uma pequena aldeia que decidiu emancipar-se e criar o próprio sistema de governo. No início foi aquela euforia. Os índios que mais se destacaram durante a briga pelo ato heróico trataram logo de definir os cargos de maior poder na minúscula nação indígena. Ninguém queria ficar de fora.

O líder da revolução, índio forte, perspicaz e bom de conversa, assumiu o comando aos gritos de “viva o Cacique, viva o nosso rei”, e o fato contagiou a tribo inteira, dos mais novos aos mais velhos, os quais observavam de longe tamanha euforia e movimentação.

O cacique foi logo nomeando os ministros: da Guerra, da Cultura Indígena, das Relações Governamentais, do Trabalho, da Agricultura, do Comércio, da Justiça, do Meio-Ambiente, da Educação e, finalmente, do Combate à Miséria (?).

Era muito ministro para uma tribo que não representava um duodécimo da nação inteira, mas o cacique justificou que era necessário constituir o poder, a exemplo dos brancos, já experientes no assunto, craques na criação de cargos de confiança e geração de tributos para sustentar a máquina administrativa.

Depois de todas as indicações os ministros também se empolgaram e convenceram o cacique de que era necessário nomear assessores de todos os tipos, pois a nova comunidade não poderia crescer sem as intensas atividades e os esforços que seguiriam após a emancipação. Cada um nomeou um bocado de gente para não fazer feio frente ao homem branco.

Por toda tribo havia ministros e assessores caminhando de um lugar para outro sem muita coisa na idéia, mas felizes por fazerem parte do grupo que ditava as regras e provavelmente conduziria a pequena nação ao primeiro mundo indígena.
Com tantos ministros e assessores era necessário arranjar local de trabalho para todos, afinal, não se pode operar sem as facilidades e benesses do poder. Como dizia o cacique: ”nós vai ter o que o homem branco tem”. Para satisfazer o ego do poder indígena e para que se concretizassem as bases do poder, os habitantes da tribo foram convidados a ceder suas ocas.

Em agradecimento veio a promessa de um novo terreno para construção de muitas ocas, preço subsidiado a ser pago com quinze anos de trabalho duro, tudo por uma boa causa, afinal, alguém tinha de pagar a conta e era necessário crescer para superar o branco e as demais tribos.

A fim de apresentar uma nova proposta de crescimento sustentável, o cacique convocou uma reunião de emergência com todos os ministros da nova comunidade indígena e seus respectivos assessores.

Os antigos conselheiros da tribo foram deixados em segundo plano, afinal, estavam ultrapassados, velhos demais para opinar sobre um assunto novo e polêmico. Reunião a portas fechadas.

Caros ministros: vamos cobrar mais tributo do nosso povo para crescer rápido. Alguém é contra?

- Boa idéia, cacique! Nós temos que cuidar da tribo, não podemos trabalhar – gritou o ministro da Guerra.
- Nem trabalhar nem pagar tributo, pois não decidimos ainda o nosso salário – bradou o ministro da Justiça.
- É isso mesmo cacique, se não houver tributo não podemos educar nossos filhos – gritou o ministro da Educação.
- Concordo, grande chefe, sem tributo não há como acabar com a miséria da tribo – replicou o ministro do Combate à Miséria.
- Miséria, que miséria? Sussurrou uma voz rouca na porta da oca principal, residência oficial do cacique Sovina, líder da tribo.
Silêncio geral. De onde surgiu esse atrevido? Os ministros entreolharam-se com cara de espanto. Realmente não havia miséria considerando a tradição e a cultura indígena de subsistir somente com o que a terra lhes provia.
Do lado de fora um dos conselheiros aguardava a resposta, em silêncio. Ninguém ousou abrir a boca. O cacique meio sem jeito disparou:
- Índio velho tá certo, nada de miséria, nada de ministro, nada de assessor, nada de tributo, nada de governo. Vamos ser felizes com o que Tupã nos deu!
Pensou um pouco sob os olhares atentos e confiantes do grupo e concluiu em tom suave:
- Que os brancos sigam como quiserem. Eles não merecem a sabedoria indígena e nós não merecemos sua falta de sabedoria. Cada um para sua oca. A natureza nos basta.