SER CHEFE OU NÃO SER

Jerônimo Mendes
Administrador, Escritor, Palestrante e Professor Universitário
Autor do livro Oh, Mundo Cãoporativo! Lições e Reflexões


Acredite, nem todos os chefes são brutais quanto parecem, apenas noventa porcento. Com a entrada do terceiro milênio, quanto maior o nível hierárquico, mais refinadas as técnicas de motivação utilizadas por esse adestrador da moderna psicologia corporativa que substitui com maestria o chicote e a voz grossa pela cobrança on line.

Apesar de a tecnologia ter saltado do byte para o terabyte numa velocidade estonteante, boa parte deles depende do filho pequeno para resolver problemas no notebook do tipo: como abrir uma pasta ou como encontrar um arquivo.
Ao chegar em casa é muito provável que ele esteja tão alienado, depois de um dia intenso de repasse de tarefas para os ”prezados colaboradores”, por e-mail, é óbvio, que só lhe resta enviar mensagem para o filho enfurnado no quarto:


- Desce que o papai chegou, venha jantar e brincar com o micro. Estou com saudades... papai@chefe.com.br. Enquanto isso a mulher prepara-lhe o sanduíche e o suco, pois chefe que se preze trabalha em casa também, de noite e, principalmente, nos fins-de-semana.


O bom de ser chefe é que há sempre um subordinado disposto a levar tarefa para casa, cujo sangue de barata ferve nas veias ao ser cobrado efusivamente diante da platéia comovida com o seu sofrimento.

O subordinado ideal suporta a tentação de rezar aquela oração sublime que circula pela web em homenagem aos homens de boa vontade: ”Senhor, Meu Deus, dai-me sabedoria para compreender o meu chefe, pois se me der força juro que eu bato nele até não querer mais”.

A concorrência está brava, mas chefe que se preze engole um panelão de sapos, mesmo sem tempero, afinal, a cada babada o instinto lhe manda repassar outras dez, em cadeia, a quem quer que se atreva a perguntar o acontecido ou então quem é que manda.

No fundo o chefe é legal. Na verdade ele adoraria tratar os subordinados como seres humanos, mas, em geral, isso vai contra a política da empresa, o que o faz imaginar que o mundo é quadrado e as pessoas devem ser tratadas como mamíferos à beira de um ataque de nervos quando se dão conta da presença do predador apenas com uma diferença: a selva é de pedra.

Existem chefes que adotam excelentes técnicas de motivação, embora não muito atuais, para triplicar a produtividade do pessoal através de uma simples mensagem:

- Prezado colaborador, tem sempre alguém querendo fazer o dobro do seu trabalho pela metade do seu salário, portanto, relaxe e mãos à obra. Se todo subordinado tivesse uma bola de cristal, certamente poderia checar a todo instante as intenções do chefe, nem sempre as melhores possíveis, pois a sola do sapato seria uma constante na superfície da esfera. Para um bom entendedor, meia palavra basta, para o chefe tirano, meia paulada basta.
-
Em pleno século XXI o mundo corporativo ainda é capaz de promover a chefes membros totalmente desprovidos de árvores neuroniais em bom estado de funcionamento, cujo processador mental envia mensagens do tipo fatal error ou full disk em menos de dez minutos de pressão. Muitas empresas consideram muito arriscado conceder tamanho poder a pessoas inteligentes. Pura maldade.

Imagine-se recebendo um recado através de um colega de trabalho: o chefe quer você digite esta lista de demitidos, retire suas coisas, limpe a mesa e deixe o prédio assim que terminar! É apenas uma brincadeira, uma charge extraída da Revista Você S/A, mas não vamos longe, vi muito chefe demitir sorrindo e destilando seu veneno pelo corredor da empresa, como quem diz: quem é que vou abater hoje?

Muitas empresas valorizam a diversidade para os cargos de chefia. Estão sempre procurando alguém muito especial, alto, ruivo, de cabelo encaracolado e, preferencialmente, com MBA diferente. Tem chance na certa, principalmente se souber implantar downsizing e reenginnering, mas que não se arrisque a ser um coaching.

Muitos chefes gostariam que o patrão mandasse informatizar a casa dos funcionários para poder demiti-los por e-mail. Espero estar vivo e dar muita gargalhada quando chegar o dia em que o exame de urina não revelar nenhum sintoma de doenças no organismo, mas revelar fortes traços de ganância, ambição, impiedade, empáfia e obstinação.

O melhor de tudo isso é que todo chefe tem o chefe que merece e não há como escapar das garras superiores, sempre à espera de uma oportunidade para descontar tudo aquilo que foi possível engolir para sustentar uma posição que não aparece todo dia no jornal ou através de networking, pois está em extinção.

Antes que isso aconteça, as empresas poderiam adotar o programa de Defesa dos Direitos do Subordinado obrigando chefes inescrupulosos a utilizar uniformes com a célebre inscrição nas costas: Como estou gerenciando? Ligue 666 5555, direto com o acionista. Nesse caso, nem o RH resolve.

Há chefes e chefes. Se lhe servir de consolo, num belo dia aquele chefe que ninguém suporta sairá cabisbaixo, acompanhado de outro chefe que lhe dirá, sem dó nem piedade: estamos demitindo também o infeliz que contratou você!