PRESSÃO ALTA

Jerônimo Mendes
Administrador, Escritor e Palestrante.
Autor do livro Oh, Mundo Cãoporativo!

- Prezados colaboradores, o que está acontecendo com vocês?
- O mercado está em baixa, os estoques subiram, sugiro parar a produção.
- É chefe, vai ser difícil cumprir as metas.
- Precisamos aumentar as vendas, pressionar a equipe, fazer milagres.
- Tenho uma idéia, chefe! Podemos oferecer os estoques aos clientes.
- Excelente! Quem toma a frente?
- Na minha opinião, Vendas.
- Maravilha! Será que conseguem?
- É claro, faltam três dias para terminar o mês.
- Mas, chefe, três dias é pouco, como vamos vender em três dias o que não vendemos em vinte e oito?
- Pouco interessa, problema de vocês, comprem, coloquem na garagem de casa. Liguem para os clientes, façam qualquer coisa, mas vendam. Em último caso, peçam ”pelo amor de Deus”.
- Mas chefe...
- Nem mais, nem menos, virem-se. O que vocês fazem da meia-noite às seis? Amanhã é sexta, dá para fazer muitos contatos. Vocês ainda têm sábado e domingo para produzir, embalar, carregar e faturar.
- O pessoal está cansado, o mês foi atípico.
- Não é possível! Estou falando grego? Já disse que não é problema meu. Quer moleza? Procure outro emprego, chega de desculpas esfarrapadas.
- Ninguém faz milagre, chefe!
- Se vocês não fazem, vamos encontrar alguém que faça. Tem gente no mercado só esperando uma oportunidade para ocupar o lugar de vocês.
- Lindalva, a carteira subiu? Tem muito pedido em aberto?
- Tem... Muito pouco, não dá nem para cobrir a folha.
- Engraçadinha! Comece a ligar para os clientes, sem exceção. Ofereça descontos, vinte cinco porcento, diga que é promoção, oportunidade única.
- Mas chefe, dissemos isso no mês passado.
- Não precisa lembrar. Eu mandei você ligar, faça o que eu digo.
- Viláqua bote o pessoal na rua, ou melhor, no telefone, pra evitar despesas.
- Chefe, hoje é o último dia útil, temos reunião de vendas para avaliar os resultados.
- Imbecil! Avaliar resultados que nem aconteceram? Não se faz reunião no fim do mês e sim no início. Cancele a reunião, bote o pessoal no telefone.
- Sim, chefinho querido, deixa comigo.
- Eu tô numa ilha, cercado de idiotas por todos os lados.
- Horst Anderson? Quero força total nas máquinas, temos que cumprir as metas a qualquer custo.
- Sem problemas, chefe, mas o estoque está nas alturas, não temos espaço.
- Eu não perguntei sobre o estoque. Isso é problema da Logística, bota esse pessoal pra correr, estão aqui pra isso.
- Mas chefe, não vamos exagerar, a coisa tá feia.
- Pronto, o profeta do Apocalipse entrou em ação. Deixa de nhém nhém nhém...Não ouviu o que eu disse?
- Sim, senhor, mas não diga que eu não avisei.
- Nunca vi tanto incompetente reunido num só lugar.
- E então, Viláqua, vai ou não vai? Como estão os resultados?
- Estamos progredindo, chefe! O problema é transporte, a turma da Logística não vai dar conta, temos pouco tempo.
- Não me traga problemas, traga soluções. O emprego de vocês está em jogo, pensem nos filhos, nas contas.
- É a única coisa que me segura aqui, juro.
- Não quero ouvir isso novamente, senão eu antecipo o FGTS com multa e tudo e resolvo teu problema de dinheiro por um bom tempo.
- Vou ver o que é possível, senhor, mas não garanto.
- Viláqua, e as vendas? É quase meio-dia, não vejo progresso no relatório.
- Calma, chefe! Estamos correndo atrás...
- Corra na frente, quero resultados, energia, estresse, números.
- O pessoal está trabalhando, todo mundo pregado no telefone. O problema é caminhão, estamos na véspera de feriado. Esqueceu que segunda-feira é dia de finados?
- Se vocês não atingirem as metas, vai ter gente rezando por vocês no próximo ano, acredite.
- Pelo amor de Deus, chefe!
- Isso mesmo! Vai rezando e faturando. Depois damos um jeito na entrega, nem que fique uma semana no estoque. Em último caso, estornamos.
- Estamos antecipando muitos pedidos do mês que vem, chefe.
- Não importa. Mês que vem é outra história...
- Estamos fazendo o possível, juro.
- Quero o impossível. O possível eu mesmo faço. Como será o esquema de amanhã, todo mundo escalado?
- Como assim? Amanhã é sábado, depois é domingo, segunda é feriado. O pessoal vai esticar o fim-de-semana. Há seis meses não aparece um feriado assim, chefe.
- Não quero saber, vou repetir pela última vez: não é problema meu! Escale a equipe toda e se houver problema, me ligue na praia.
- Eu joguei pedra na cruz, não é possível. Minha mulher está no meu pelo, não quis nem papo comigo hoje.
- E a minha então, só faltou botar o colchão no porta-malas quando eu disse que ia trabalhar no fim-de-semana.
- Vocês são uns frouxos. Comigo não tem disso não, lá em casa eu dito as regras.
- Quem não tem família é isso aí, fica mais fácil virar as costas, casar com o trabalho.
- Lindalva, como estão os números?
- Estão melhorando, tem muito pedido pra faturar. O pessoal está dando o sangue.
- O que a gente não faz por uns míseros trocados no fim do mês? Tem horas que dá vontade de mandar tudo pro inferno.
- Viláqua, como foi o fim-de-semana?
- Não tão ruim quanto poderia nem tão bom quanto eu gostaria, chefe. Atingimos noventa e cinco porcento do objetivo.
- Maravilha! Eu sabia que o mercado ia reagir. Nossos produtos são bons, faltava mais empenho, como sempre.
- Mercado, chefe? O pessoal atravessou o fim-de-semana.
- Eu não disse? Trabalho duro nunca fez mal a ninguém. Está todo mundo mantido no emprego, por enquanto. E não esqueçam o que eu sempre digo: existe alguém querendo fazer o dobro do que você faz pela metade do preço. Isso é o que me encanta nessa tal de globalização.