QUEM CASA CONSENTE


Jerônimo Mendes
Administrador, Escritor e Palestrante
Autor do livro Oh, Mundo Cãoporativo!

Há um velho conhecido meu que repete a mesma frase sobre a vida conjugal todas as vezes que nos encontramos para bebericar e dar boas risadas relembrando os velhos tempos do ambiente corporativo que compartilhamos durante mais de dez anos. Segundo ele, a fórmula matemática do casamento é o dobro da despesa pela metade do prazer.

Graças a Deus não é o meu caso, pois tenho vocação para a vida a dois, ou melhor, para a vida a cinco: esposa, filhos e trabalho. Exageros à parte, sempre que lembro dessa frase torna-se inevitável traçar um paralelo entre casamento e trabalho.
Pensando bem, o trabalho não deixa de ser um casamento, segundo a tradição islâmica radical, pois a gente só conhece a cara metade no primeiro e único dia de núpcias e sabe exatamente como será o relacionamento depois de uma semana de lua-de-mel. Com um pouco de sorte, dura menos de um terço do tempo estimado, sem aquela paixão desenfreada que alimenta o período de namoro ou noivado.

No ambiente corporativo o homem descobre rapidamente, a contragosto, o prazer de se sentir mulher nos tempos da Idade Média, a cada instante em que o superior imediato o convida, mediante cordial telefonema, para uma reunião à portas fechadas no minuto seguinte, independente da sua disposição.

Para os bons entendedores, dependendo do nível de maturidade, é melhor ir relaxando pelo caminho. O mal entendedor leva o caso a ferro e fogo e, geralmente, parte para o confronto.

Durante os primeiros anos do relacionamento conjugal corporativo, qualquer ser humano de juízo perfeito suporta sem maiores problemas, as normas e procedimentos que surgem inesperadamente de ambos os lados. Contudo, o homem ostenta leve inclinação para pressupor que ainda domina a relação, como nos tempos em que as prioridades da mulher eram, por ordem de importância, arranjar marido, cuidar dos filhos, segurar marido e comprar eletrodomésticos, excelentes e fiéis companheiros da dona de casa moderna a partir da década de 50 no século passado.

Nas empresas em geral já se sabe quem é que manda desde o primeiro dia. O empregado demora a aceitar o estilo de relacionamento e liderança adotados. É uma relação que choca a inteligência do homem, acostumado a pedir licença e dizer muito obrigado.

Apesar das mudanças na estrutura de pensamento, como se costuma ler nas revistas do gênero, existe ainda uma matilha remanescente da Idade do Bronze que conserva nos genes o instinto da superioridade, por questão básica de sobrevivência ou preservação do território.

Tal como nos casamentos fracassados, o elo mais fraco sorri, agüenta firme, tende a suportar a dor em nome dos filhos, da honra e da dignidade que não admite derrotas perante uma sociedade injusta e seletiva, ainda que o relacionamento custe a felicidade do casal.Ambos são resultados de uma sedução equivocada que a professora Maria Aparecida Schiratto, catedrática da USP, define como ”O Feitiço das Organizações”.
Embora o livro do mesmo título tenha base sustentável numa pesquisa bibliográfica e prática muito bem elaborada das relações desumanas no trabalho, impossível negar a sensação de amor e ódio que se apresenta em diferentes momentos da convivência.
O casamento tradicional pressupõe uma infinidade de concessões, cujo espírito dos candidatos geralmente não está preparado para aceitar após a formalização do contrato entre as partes. O teste de seleção atual da mulher já não tem o mesmo rigor do passado quando os pré-requisitos básicos eram virgindade e fecundidade.
A mulher alterou radicalmente a maneira de pensar e priorizar as coisas, a ponto de eqüalizar os papéis e ditar determinadas regras que obrigam a natureza masculina a repensar a própria existência e o papel na sociedade moderna.

Hoje o casamento não ocupa mais o primeiro lugar na extensa lista de opções femininas. O trabalho é a prioridade número um seguido de perto pela beleza pessoal e os filhos. No fim da lista vem o casamento, literalmente motivado pelo amor infinito enquanto dura, sem a obrigatoriedade do papel passado e da benção divina.
Durante muito tempo, a mulher manteve-se calada diante da superioridade forjada pelo sexo oposto. A partir da década de 70 uma revolução silenciosa infiltrou-se na sociedade e nas empresas. Trinta anos depois, já se ouve um sonoro e consentido ”sim, senhora” para uma decisão simples que saco roxo algum ousa questionar.

Como toda e qualquer relação, ambos sofrem o desgaste natural ao longo do tempo, cuja salvação reside indiscutivelmente na concessão ou na evolução de uma das partes, nada fácil quando se trata de mudar convicções esculpidas durante anos de desencantos e uma busca incessante pela felicidade, por vezes onde ela nunca se encontra.

Segundo Anthony Robbins, existem duas dores na vida : a dor da disciplina e a dor do arrependimento. A primeira pesa quilos e a segunda, toneladas. Disciplina faz parte da evolução em qualquer etapa da existência humana, porém é menos dolorida que o arrependimento, capaz de martirizar o mais orgulhoso dos mortais.

Antes de formalizar qualquer um dos contratos, lembre-se de considerar profundamente uma premissa básica determinante na duração do relacionamento : a disposição para engolir sapos, caso contrário, a relação não vai além da lua-de-mel e a dor da despedida será apenas uma questão de tempo.

Casamento e trabalho demandam vocação, além de tudo. Vontade pura e simples não basta, pois nenhuma parte admite enganos ou traições. Contudo, ambos continuam exigindo o dobro da disposição pela metade do preço. E sempre existe alguém disposto a aceitar essa condição.