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MANDA QUEM PODE
Jerônimo
Mendes
Administrador, Escritor e Palestrante
Autor do livro Oh, Mundo Cãoporativo!
Nas
empresas onde trabalhei havia sempre um infeliz repetindo
a mesma frase: manda quem pode, obedece quem precisa.
A máxima evoluiu tempos depois com o advento
da famigerada ética no trabalho: manda quem pode,
obedece quem tem juízo, porém o sentido
não mudou.
Nunca
me preocupei em buscar o autor desse provérbio,
mas não creio que tenha sido Salomão.
Apesar de pronunciado em tom de brincadeira, as empresas
estão recheadas de líderes que o utilizam
vez por outra com sentido pejorativo, pois no fundo
essa máxima invoca uma falsa superioridade através
da intimidação, muito diferente do líder
que exerce poder muito maior pelos exemplos.
Naturalmente,
subordinados em geral sorriem e fingem aceitar a brincadeira
em respeito à hierarquia e ao salário
recebido no fim do mês, caso contrário,
a vontade é mandar o sujeito para a ‘ponte
que partiu’, mas o que faz a necessidade? Torna
o empregado manso feito cordeiro, escravo da situação.
Confesso
que muitas vezes ouvi essa frase e consegui manter a
postura em razão da insegurança e falta
de confiança em mim mesmo. Hoje tenho a resposta
na ponta da língua embora acredite que a melhor
opção é ignorar o emissor e perdoá-lo,
pois ele não sabe o que diz, afinal, a proporção
entre líderes efetivos e chefes ainda é
descomunal, apesar da mudança de século.
Os
próprios companheiros de trabalho, competidores
entre si, são responsáveis pela consolidação
dessa heresia proferida desde o tempo da Idade das Trevas,
mais conhecida como Idade Média. Ao ouvir essa
frase pela primeira vez nunca esqueci o ar de felicidade
de um colega de trabalho que ainda complementou: e aí,
tatu, gostou?
Alguns
chefes, no sentido literal da palavra, fazem questão
de conduzir a tribo com base nesse jargão, sem
o mínimo de respeito pelo ser humano. São
aqueles infelizes que livro algum dá jeito e,
até certo ponto, respondem pela produtividade
da empresa. É o que interessa realmente ao capital,
pouco preocupado com essas baboseiras enquanto houver
lucro e rentabilidade.
Depois
de algum tempo, quando o navio está prestes a
afundar, o capital lembra que existem empregados, seres
humanos capazes de coisas incríveis. Nessa hora,
é natural, não há chefe que acuda
o naufrágio, pois o destino está esperando
por ele na primeira esquina com sua clava, que não
é feita de algodão.
Talvez
a analogia seja um exagero de minha parte. O discurso
mudou nos últimos anos e, reconhecidamente, os
antigos líderes sentiram profundamente e estão
engolindo a empáfia a contragosto. Era uma boa
maneira de espezinhar o subordinado, impor a ordem e
o respeito através de um simples comentário.
Tudo
evoluiu com muita facilidade no mundo globalizado e
não há como fugir das mudanças,
pois elas são eternas. Contudo, o ser humano
ainda sofre para lidar com pessoas e estreitar o relacionamento
no ambiente organizacional.
A
pressão do mundo corporativo provoca desequilíbrio
constante entre a oferta e a demanda de respeito mútuo
tornando as pessoas insensíveis, afoitas, adversárias
entre si, à espera da derrocada alheia.
Infelizmente,
poucos líderes têm habilidade para lidar
com questões delicadas envolvendo diferentes
comportamentos. A tendência é livrar-se
do incômodo e salvar a própria pele. O
ambiente corporativo de hoje não permite falhas,
reclamações, questionamentos, falta de
iniciativa nem corpo mole. Ou você nada ou você
afunda.
Líderes
incompetentes demoram um pouco mais para cair. Como
dizia um amigo meu, vão tateando aqui e ali,
tem base constituída, bons relacionamentos no
mesmo nível hierárquico e acima, engolem
muito sapo, sorriem com facilidade mesmo quando apunhalados
pelas costas e resistem bravamente até o último
suspiro, em nome da honra e da vergonha.
Quanto
maior o pedestal, maior a queda. Onde arranjar salário
compatível e uma carteira de benefícios
construída durante anos e anos de ordens severas
e intimidação sob os olhares impressionados
do patrão? Contudo, a máxima ”manda
quem pode, obedece quem precisa ou quem tem juízo”
vale tanto para o subordinado quanto para o chefe.
Ser
líder no cargo é muito diferente de ser
líder na prática. As gerações
passadas não foram preparadas para isso. Na maioria
das empresas, os chefes estão aprendendo a liderar
com a chegada do Jorginho, graduação seguida
de MBA, inglês e espanhol, energia para quinze
horas de trabalho forçado aos sábados,
domingos e feriados, sem choro. Dorme no emprego, se
necessário.
Como
diz o Max Gehringer, não há quem segure
o Jorginho. Pena que saiu da Universidade com a mesma
arrogância do Serjão, funcionário
de carreira há mais de vinte anos. Ambos são
valiosos para a empresa, porém tornam-se concorrentes
desde o primeiro dia. Se eles soubessem mesclar energia
e experiência seriam imbatíveis, mas preferem
medir forças e cometem os mesmos erros do passado.
Existem
inúmeras empresas onde o ditado prevalece, por
pouco tempo, creio eu. Hoje, manda quem pode, obedece
quem precisa e cai fora quem tem juízo, pois
não dá mais para conviver com empresas
onde o regime feudal deixou resquícios.
(17/07/2006)
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