ENTRE O ZIGUE E O ZAGUE

Jerônimo Mendes
Administrador, Escritor e Palestrante
Autor do livro Oh, Mundo Cãoporativo!

É impossível distinguir a vida profissional da particular quando vivemos as duas intensamente, ambas marcadas pelo volume de preocupações maior do que o universo de alegrias e favores da providência divina.

Nem tudo são flores, mas é uma tremenda injustiça com o pai lá de cima reclamar de tudo o que acontece à nossa volta sem pesar os prós e os contras na balança da vida.

Aos quarenta anos fiquei imensamente feliz por realizar um dos meus quatro antigos desejos de consumo, porém fui surpreendido pelas agruras do destino, típico dos mortais.

Depois de quinze anos utilizando o meu surrado par de óculos resolvi encarar a famigerada cirurgia da miopia, encorajado por alguns colegas de trabalho animados com a idéia, os quais se mostraram ótimas cobaias antes de mim. Maravilhas do plano de saúde. Jamais eu tiraria dinheiro do bolso para colocar minhas preciosas lentes naturais em jogo.

Preparei-me como ninguém para o grande dia, véspera do meu aniversário, um grande presente. Saí animado da empresa, sexta-feira, fim de tarde, um dia propício para mudar minha visão sobre o mundo. Eis uma vaidade que sempre cultivei.

Durante toda a cirurgia não consegui dar uma piscada sequer e a cabeça parecia ter ficado no trabalho, algo indescritível e inseparável. Insensível e insensato quem ousa imaginar que uma simples batida na sola do sapato é capaz de separar os problemas da vida pessoal e profissional.

Alguém que diz uma coisa dessas deve ser completamente desprovido de hormônios. Disse isso antes e repito, a relação está intimamente ligada, a contragosto, mas existe e não pode ser ignorada.

Isso influiu diretamente no meu estado de espírito, pois em momento algum consegui mergulhar na lucidez interior sugerida pela médica que cansou de massagear o meu ego, dividido entre a sobrecarga do dia e a possível correção da visão.

Por mais de vinte minutos não consegui abaixar as pálpebras e ainda tive a infeliz notícia sobre a fragilidade do meu epitélio que acabou agravando a situação.

Tudo é fruto do meio, alguém já me disse isso inúmeras vezes. Enquanto lutava bravamente para me desfazer da semana profissional agitada fui imaginando como as empresas conseguem manipular os empregados com extrema facilidade da forma que melhor lhes convém, fortalecidas pela visível fragilidade do homem moderno diante da situação crítica do mundo globalizado que diminui o número de vagas em progressão geométrica numa constante infernal.

Dificilmente sabemos o que corre nos bastidores, a menos que sejamos parte integrante dele. E nos bastidores tudo é possível, desde uma simples atitude como a mera falta de competência até a mais comum que reside na falta de bom senso isolada ou mesmo generalizada.

Em pouco tempo eu estava de pé, pronto para ganhar o caminho de casa e disposto a esquecer tudo de ruim ocorrido na semana, afinal, como bom filho de Deus, o descanso é inevitável embora nem sempre merecido.

Tudo terminaria bem se a operação fosse um sucesso, porém a fragilidade do meu epitélio contribuiu para as estatísticas das semanas péssimas, o que não pode ser considerado uma exceção no meu caso, graças a Deus. Fui para casa crente que uma boa noite de sono seria suficiente na véspera do meu aniversário. Foi assim que me venderam o peixe, mas senti que já cheirava mal.
Passei uma semana de cão devido às complicações no epitélio. Não acredite na lei da probabilidade, você pode fazer parte das exceções e as exceções também são probabilidades, apesar do otimismo.

Nessa hora a gente deseja o fim do mundo, lembra que Nostradamus errou feio, portanto, nunca seremos atendidos. Uma tempestade cerebral invade a nossa mente a ponto de tirar o fôlego e a serenidade confundindo o raciocínio lógico. Então damos conta de que somos simples mortais, sujeitos a falhas e provações.

Há também momentos de lucidez uma vez que a genialidade humana não permite sermos bonecos manipulados ao sabor do vento. Então reagimos, lembramos que estamos vivos e alguém nos quer bem e nos deseja sucesso, a qualquer preço, pois não há dinheiro no mundo que pague nossa liberdade e bem-estar.

(10/07/2006)