|
COALIZÃO DOMINANTE
Jerônimo
Mendes
Administrador, Escritor e Palestrante
Autor do livro Oh, Mundo Cãoporativo! Lições
e Reflexões
Quando ouvi essa expressão pela primeira vez
nem dei bola. Confesso que não tinha a maturidade
necessária para perceber e refletir a influência
dessa ala nada discreta que reina no mundo corporativo.
Todos
os seres vivos fazem parte de uma coalizão, seja
ela dominante ou submissa. Isso está relacionado
diretamente com o poder e a ambição dos
seres que ocupam postos de comando pela força
ou mesmo pela oportunidade.
A
coalizão dominante é parte integrante
do meio político onde as forças se somam
com intuito de fazer valer uma idéia ainda que
não agrade a maioria. Todas as ferramentas são
válidas quando se faz parte de uma coalizão
de poder. Lembre-se do ditado vil: ”maldita corrupção
da qual eu não faço parte”.
Apesar
de mais conhecida no meio político, ela também
integra o ambiente das organizações, independente
do tamanho. Nas empresas familiares depende do dono
basicamente ou da mulher do dono, quando esta influi
de maneira informal nas decisões tomadas durante
o almoço de domingo.
Contudo,
não se deve ignorar a coalizão dominante
concentrada na mão de uma única pessoa,
seja o filho mais velho, dileto do pai ou da mãe,
ou o filho mais novo, mimado por natureza e foco de
atenção principal quando se trata de família
numerosa.
Nas
empresas públicas a coalizão dominante
será sempre a eleita para os próximos
quatro anos e depende basicamente do eleitor embora
ele não seja consciente dessa influência
quando exerce o direito de voto.
Nesse
caso a coalizão é instável e estará
condicionada à perpetuidade do poder, testada
de quatro em quatro anos, razão pela qual o partido
concentra alguma energia no trabalho nos dois primeiros
e muita energia no eleitor nos anos restantes.
O
eleitor e a mídia são os carrascos da
coalizão dominante na política, ou seja,
tudo vai bem até onde se enxerga. Um instante
de vacilo provoca uma seqüência de resultados
mal-sucedidos e transfere poder de fogo para o oponente
ainda que esse não esteja legalmente constituído.
Nas
organizações privadas não é
diferente embora a coalizão dominante atue de
maneira discreta, seja na área Comercial, Produção
ou Finanças. A área de Recursos Humanos
dificilmente assume esse posto e na maioria dos casos
arca com o ônus das decisões tomadas intempestivamente
pelas demais.
Em
geral a coalizão dominante está ligada
ao negócio da empresa. Se o foco da empresa é
vendas certamente a área Comercial tende a dominá-la,
exceto na empresa familiar onde a preocupação
se concentrada na área financeira, por questão
de sobrevivência, o que faz o dono fechar os olhos
para as inúmeras possibilidades de expansão.
Quando
a empresa não vai bem ou predomina a visão
do acionista, muito provavelmente a área de Finanças
tende a exercer maior influência nas decisões
e dominar a coalizão, a ponto de entrar em choque
com a área Comercial.
Na
visão prática do acionista, cuja missão
é multiplicar o capital a qualquer tempo, trata-se
de uma competição saudável e necessária,
por vezes ignorada, é óbvio, desde que
as forças de coalizão entrem em choque,
mas não percam a atenção no foco
principal : o lucro.
Caso
isso ocorra, e tende a ocorrer na maioria dos casos,
a intervenção se faz necessária
e as lideranças são substituídas,
naturalmente a de menor resistência ou de menor
influência nos resultados da organização.
Profissionais são substituíveis, o lucro
não, pessoas são efêmeras, mas o
capital não pode se dar a esse luxo.
Levamos
muito tempo para reconhecer a coalizão dominante
na sociedade e nas organizações. Preferimos
levar a vida imaginando que o mundo é feito somente
de pessoas dóceis, preocupadas com os problemas
alheios, cheias de amor para dar, despretensiosas.
O
ser humano é ambicioso por natureza, egoísta
ao extremo e não hesita em praticar uma simples
maldade para participar da coalizão dominante
enquanto ela ainda reina. Sua segurança não
está na alma e sim na matéria.
Passei
por várias empresas sem dar muita importância
para a existência dessa facção presente
em todas as formas de organização na face
da Terra. Ela faz parte das igrejas, escolas, entidades
públicas ou privadas. Está presente nos
clãs e nos reinados, nos campos e nas cidades,
variando apenas de intensidade e roupagem.
A
percepção do ambiente onde se vive e trabalha
é fundamental para a sobrevivência das
espécies. A luta pelo poder e a tendência
ao domínio é algo instintivo, próprio
do homem e dos animais na sua forma mais primitiva,
condição represada até o momento
em que o indivíduo assume posição
de destaque na sociedade.
Muitos
sobrevivem de acordo com a coalizão dominante
do momento e não entram em rota da colisão
ainda que a decisão lhe custe atropelar princípios
e virtudes em nome da sobrevivência no mundo-cão.
Todos
fazem parte de uma coalizão, não necessariamente
a dominante, portanto, deve-se ter cuidado com palavras
e omissões. O melhor é não fazer
parte de nenhuma, porém vivemos sempre em cima
do muro, sorrindo para todos os lados, caminhando ao
sabor do vento.
Nosso
maior consolo é a alternância da coalizão
dominante de tempos em tempos, caso contrário,
o ser humano seria insuportável. Pense na qual
você se encaixa nesse exato momento, mas não
deixe de ser verdadeiro consigo mesmo.
Somos
reféns do destino, cujo prêmio está
diretamente relacionado aos nossos atos e realizações.
(09/06/2006)
|