A CLAVA DO DESTINO

Jerônimo Mendes
Administrador, Escritor, Palestrante e Professor Universitário
Autor do livro Oh, Mundo Cãoporativo! Lições e Reflexões


Todo mundo conhece alguém cujo dom é espezinhar a vida alheia, além de autodenominar-se o melhor, o rei da cocada preta, a inteligência suprema disfarçada de ser humano, por uma graça da providência divina, segundo ele mesmo e o seu ego insustentável.

Graças a Deus não há como escapar desses tipos que se não existissem a vida e o ambiente de trabalho não teriam a menor graça, sem dúvida, pois aquele instante sagrado do cafezinho ou do happy hour seria deveras fútil sem o comentário peçonhento que torna a vida da platéia corporativa mais emocionante.

Sabe aquele indivíduo cuja mãe continuou passando talco no bumbum e penteando seus cabelos até os dezoito anos de idade? É esse mesmo que enche o próprio balão de borracha até que um dia alguém lhe tira o pino e então ele sai pelos ares, perdido, sem rumo nem direção, até murchar.

Existem empresas, digo, pessoas, pois empresas são feitas de pessoas, que adoram esse tipo de profissional. Há sempre alguém que se identifica com ele e geralmente lhe dá carta branca para fazer e desfazer de quem quer que ouse cruzar o seu caminho ainda que tal comportamento custe sinergia e a alegria do ambiente corporativo e contanto que não haja interferência nos resultados.

Apesar de tudo devemos acreditar no tempo, somente ele é capaz de milagres. O tempo, senhor de todos os mestres, por um lado impiedoso, por outro condescendente, há de se encarregar desses doidivanas que se acham os donos da verdade e imaginam ter o mundo a seus pés.

A ironia de tudo isso é que tais indivíduos são feitos de carne e osso assim como todos os mortais, porém sua ignorância, no sentido literal da palavra, é capaz de transformá-los em verdadeiros almofadinhas, filhinhos-de-papai e mauricinhos, cujo destino vai de encontro ao desprezo e à indiferença de seus discípulos e companheiros.

Alguns anos podem passar até que o sujeito seja descoberto. A piedade divina vive lhe dando uma nova chance e o tempo nunca será tão eficaz como gostaríamos, a ponto de não deixá-lo criar asa.

Na verdade somos coniventes com a maldade alheia que não tem limites, mas impera em razão da nossa permissividade disfarçada de medo e individualidade, fruto da convivência numa sociedade indigna e desprovida de bom senso. Uma lástima, por assim dizer.

O que faz o indivíduo tacanho, vil, indiferente aos males que o cercam? O que o faz pensar ser o dono da bola, infame, cheio de uma razão que não é sua, mas de todos aqueles que fazem parte do seu meio? O que o faz elevar-se acima de todas as coisas, sem pleito nem condescendência?

É bem provável que seja o excesso de talco no bumbum ou, em parte, culpa dos obstetras que substituíram o tradicional tapinha por suaves beijos no traseiro na hora do parto. Que motivo seria capaz de habilitar o ser humano para algo que não condiz com o comportamento padrão da sociedade?

Ouvimos dizer que cada um tem o chefe que merece, o governo ou o destino que merece, porém sou partidário apenas da última sentença. É impossível acreditar na conivência da bondade divina com a insensatez humana, cujo castigo pode não ser o mármore do inferno, mas pelo menos uma rápida chamuscada no purgatório. Maquiavel explica isso muito bem em seu livro O Príncipe.

A empáfia humana é temporária, graças a Deus, e mesmo que não fosse, acredito na justiça divina, caso contrário, a vida seria uma sacanagem sem limites e tudo seria fruto da ausência de civilidade que reinou no tempo das cavernas.

Nossa indiferença a esse tipo de indivíduo é o melhor remédio. Seu reino é efêmero e sua espada não vai além da epiderme. Sua consistência é diretamente proporcional ao quociente intelectual e no fundo deve ser ignorado. Há de se rezar por ele, pois seu fim é tragicômico.

Quem já leu a Lei do Triunfo vai lembrar-se da máxima de Napoleon Hill, cuja adaptação tomei a liberdade de fazer sob a ótica contemporânea: ”Estão vendo aquele sujeito que conquistou uma posição de respeito, mas o desrespeito é seu maior defeito? Pois bem, o destino está esperando por ele na primeira esquina, com sua clava que não é feita de algodão...”.

Existem pessoas que se desmancham de prazer quando tudo parece dar errado. Confie na clava do destino, um dia ela desce na cabeça do sujeito.

(29/05/2006)