FULANO DE ONDE?

Jerônimo Mendes
Administrador, Escritor e Palestrante
Autor do livro Oh, Mundo Cãoporativo! Lições e Reflexões

Interessante esse negócio de apresentação pelo telefone. Quando se tem emprego alimenta-se uma vaidade boba incorporando o nome da empresa ao primeiro nome ou substituindo o sobrenome original do indivíduo.

Trash, bom dia! Bom dia, por gentileza, o Palhares está? Sim, quem deseja falar com ele? É o Mendes! Mendes de onde? De Curitiba! Sim, mas de qual empresa? Mendes, da JM Corporation, ora! Ah, sim, aguarde um instante, por favor.

É difícil solidificar um nome. Esse episódio aconteceu comigo. A impressão é a de que o sobrenome original não vale nada e somos obrigados a ser alguém de algum lugar ou pertencer a qualquer organização contra nossa vontade.

Se você não for de alguma empresa, mesmo fictícia, é muito provável que não seja atendido e ainda descartem-no com aquela tradicional desculpa do mundo corporativo moderno: - está em reunião, quer deixar recado?

Fatos como esse nos levam a refletir sobre aspectos diferentes. O primeiro reside na idéia da seletividade natural imposta pela sociedade onde nem todos os indivíduos são iguais perante si, somente aqueles dotados de sobrenome comercial ou premiados por aparecerem na televisão durante quinze segundos exibindo formas redondas e saradas.

O segundo aspecto transporta-nos para o fundo da alma e desafia nosso intelecto a interpretar a razão pela qual criamos dependência de sobrenomes que não nos pertencem nem agregam valor algum ao desenvolvimento pessoal. A gente fica se perguntando a todo instante qual a lógica dessa necessidade?

Ao fim do diálogo com a recepcionista, senti necessidade de pertencer a alguma empresa e inventei a JM Corporation utilizando as iniciais do meu nome, graças ao estado de espírito que me iluminou na ocasião. Poderia ter usado a JM S.A. ou algo que o valha. Pensando melhor, é de ferir o orgulho e a natureza do ser humano.

Nada há de mais humilhante para alguém do que se escorar no sobrenome de qualquer organização, pois todo indivíduo é único, especial, digno de reconhecimento pelos atos ou pela história, nunca pelos bens acumulados ou a posição que ocupa no mundo dos negócios.

A vida é cheia de contradições, porém dignidade e respeito são conquistados através de ações e não de omissões. O crachá deveria ser banido das organizações, pois alimenta o ego de maneira equivocada e torna o sujeito alienado na tentativa de fazer o possível e o impossível para manter o sobrenome fictício, sob falsa sensação de segurança.

Certa vez um famoso executivo foi demitido da rede de TV e ligou para uma produtora no dia seguinte e mesmo tendo mencionado o nome, ouviu o sonoro jargão: De qual empresa? Segundo ele, nessa hora a falta do sobrenome pesou, pois se houvesse o complemento jamais seria inquirido dessa forma e o tratamento seria outro.

Em razão dessas e outras aberrações da sociedade moderna, é necessário ter equilíbrio e pés no chão para não se deixar abater. Quando se ouve falar a respeito dos outros parece divertido, mas quando se vive na pele o acontecimento, a mente divide-se entre o humor e a dor embora seja fator insignificante para quem conhece o próprio valor.

Infelizmente existem pessoas que ainda se preocupam com isso e consideram importante agregar um sobrenome de peso para esconder a própria insegurança e, por vezes, a incompetência.

Por outro lado as organizações ignoram esses pequenos detalhes e alimentam a falsa ilusão de que o mundo corporativo não tem tempo a perder com indivíduos desprovidos de sobrenome jurídico, portanto, impossibilitados de agregar valor aos negócios de imediato.

Graças ao bom Deus os falsos valores nunca me fascinaram. O importante é seguir firme no propósito de tornar o mundo mais justo e humano fazendo as coisas da melhor forma possível, pois a vida não se resume a trabalho e dinheiro.

A segurança que os profissionais tanto buscam não pode ser encontrada nos crachás ou nos cartões de visita. Da mesma forma, a perpetuidade das empresas não está garantida somente pela qualificação dos seus profissionais e sim pelo respeito aos valores individuais, difícil de se identificar numa simples conversa ao telefone.

Contudo, o despreparo dos profissionais que atendem as ligações e o descaso do superior imediato pelas coisas mais simples são grandes incentivos para quem ainda se importa em atender bem as pessoas, independente do sobrenome.

Sinceramente, não devemos atribuir culpa ao humilde profissional atirado no ofício sem a mínima orientação. O treinamento tão valorizado na década passada foi banido das organizações e substituído pelo discurso em vigor no mundo corporativo de hoje: profissional com experiência, inglês e espanhol fluente, para atuar sob pressão, boa apresentação, disposto a trabalhar catorze horas por dia incluindo sábados e domingos. De preferência, submisso.

O desânimo seria o pior conselheiro do momento. É preferível acreditar na força de um nome do que na força de um sobrenome emprestado. Somos únicos na face da Terra, não há ninguém como nós, portanto, qualquer semelhança é mera coincidência.

A melhor saída ainda reside na persistência e na força do seu verdadeiro nome: Você S.A. O resto é balela!

 

(15/05/2006)