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O PRIMEIRO EMPREGO
Jerônimo
Mendes
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O
primeiro emprego a gente nunca esquece. É uma
mistura de paciência, ansiedade, angústia
e ao mesmo tempo alegria, a começar pela entrevista,
cujo diálogo fica impregnado em nossa mente por
muito tempo e nem a remoção do córtex
cerebral é capaz de apagá-lo.
Uma pequena parcela da população economicamente
ativa se vale de uma boa indicação ou
networking, porém a maioria dos mortais pena
muito para se colocar no mercado de trabalho cada vez
mais competitivo e cheio de mazelas onde a necessidade
do QI original foi banida há muito tempo e a
parcela do QI relacional determina a ocupação
dos cargos nas mais diferentes empresas.
Os profissionais entendem essa mecânica depois
de levar muita pancada na orelha através da convivência
nada pacífica, mas praticamente obrigatória
no mundo corporativo, por extrema necessidade de sobrevivência
e um pouco de ambição capaz assimilar
a indiferença do alto escalão e a tirania
da supervisão que ainda persiste nas organizações
do mundo civilizado.
Qualquer profissional de sangue quente colocaria em
prática todos os planos de destruição
imaginados pelo subconsciente em menos de cinco segundos
diante do entrevistador ou do nível hierárquico
imediatamente superior, caso fizesse valer o instinto
natural que determinou a supremacia do homem perante
as demais criaturas sobreviventes na face da Terra.
No primeiro emprego a gente agüenta firme, faz
das tripas o coração para agradar, colaborar,
ganhar respeito e auto-afirmação dos colegas
ainda que isso signifique jogar por água abaixo
uma parcela da índole esculpida em nossa mente
desde os tempos de criança, quando nossos pais
afirmavam orgulhosos que, apesar de tudo, a gente nunca
deveria perder a dignidade.
Conquistar um emprego é como conquistar um troféu
e a cada ano torna-se mais difícil mantê-lo.
Novos competidores aparecem com táticas refinadas
de domínio tecnológico e teorias motivacionais
que provocam efeito devastador nas mentes ainda não
poluídas de milhares de jovens que se arriscam
no mundo corporativo com vontade de mudar o eixo da
Terra por um preço relativamente baixo.
Por essas e outras razões admiro a força
de vontade dos estagiários e trainees que canalizam
toda energia na busca pelo reconhecimento e consolidação
do perfil profissional, concorrendo de igual para igual
com indivíduos acomodados e cheios de vícios,
porém mantendo-se firmes diante das vicissitudes.
Eu já fui um deles e rezo diariamente para manter
acessa essa chama, a do primeiro emprego, não
do vício, mas o tempo nos coloca em xeque, ano
a ano.
Eu comecei a trabalhar aos quinze anos de idade e “fichei”
na Klabin em primeiro de agosto de 1978. Foi inesquecível,
tamanha era minha felicidade. Quando cheguei em casa
com o primeiro salário no bolso, pago em dinheiro
vivo, dentro de um envelope, os olhos da minha mãe
brilharam e o meu sorriso era composto de trinta e dois
dentes, talvez um pouco menos, havia perdido algum.
É a mais pura verdade. Classe média tem
dessas coisas, emoção pra valer e todo
dinheiro é bem recebido. Estávamos na
base da pirâmide de Maslow e meus pais seguiam
lutando pela sobrevivência e um pouco de dignidade
nesse mundo.
Quando deixei o primeiro emprego para estudar na capital
paranaense minha mãe quase teve outro filho.
Meu pai cerrou o cenho, afinal, ficou trinta anos na
mesma empresa em que eu trabalhava e temia pelo futuro
do filho e pela queda na renda familiar. Sabia que não
poderia me manter na capital com o salário mirrado
de mecânico, apesar da dignidade.
Hoje tenho plena convicção de que foi
uma decisão correta, pois é cada vez mais
raro encontrar profissionais dispostos a ficar trinta
anos na mesma empresa, nem há espaço para
esse tipo, exceto no setor público onde se valem
das benesses do erário. Porém, há
exemplos apaixonados de dedicação à
pátria. Verdadeiras exceções.
Assim como o primeiro emprego, o primeiro chefe também
é determinante na carreira de um profissional.
Ambos podem contribuir para o sucesso ou o fracasso,
principalmente quando se custa a entender as empresas,
feitas de pessoas de carne e osso, cujo sangue nas veias
é nutrido por uma infinidade de emoções
que influenciam diretamente as atitudes e o comportamento
de cada um.
Eu tive a felicidade de ter um bom chefe no primeiro
emprego, líder por excelência, digno de
admiração e respeito, cujo exemplo me
faz acreditar que as dificuldades da vida são
diretamente proporcionais à nossa dedicação
no trabalho.
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Jerônimo Mendes é Administrador, escritor
e palestrante, Mestrando em Organizações
e Desenvolvimento Local pela UNIFAE.
(08/05/2006)
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