DESPEDIDA

Jerônimo Mendes
Administrador, Escritor, e Palestrante
Autor do livro Oh, Mundo Cãoporativo! Lições e Reflexões


- Sabe da última? O Pena foi despedido.
- Não brinca, o Pena? Que pena!
- Também, pediu e abusou. Ele era muito nojento, gostava de humilhar os outros pelo corredor, agora viu o que é bom pra tosse.
- Dizem que já tem gente para o lugar dele, tem sempre alguém na boca de espera, sabe como é, afilhado é o que não falta por aqui.
- É verdade, quem será o infeliz?
- Não sei, mas não vai ser nenhum de nós, dizem que não estamos preparados.
- Quem disse?
- Os ’home’ lá em cima.
- Cambada de safados! O Pena era meio chucro, mas pelo menos já não metia medo.
- Sabe que eu até fiquei com pena dele, mas bem que mereceu, não valia um figo podre.
- Coitado, tinha três filhos na escola particular e estava todo enrolado com a amante, devia os tubos no cartão e teve o limite cortado. O carro é financiado.
- Judiação, e agora? Bom, o carro ele vende, o duro é arranjar outro emprego.
- Pois é, já passou da idade, acima dos quarenta é difícil, todo mundo te olha torto, não há língua nem MBA que dê jeito.
- Nem fale, tenho um monte de amigos na pior, com inglês e tudo, mas já passaram dos 40. O mar não tá pra peixe, é a crise.
- Coitado do Pena!
- Bom, quem tem pena se despena.
- É mesmo, cada um faz o seu caminho, quem planta colhe. Chegou o dia dele.
- Deus me livre, não desejo isso pra ninguém, se bem que o Pena procurou e quem procura acha, diz o ditado.
- Dessa vez pegaram pesado, acharam o bicho, e olha que ele vivia na marca do pênalti, não foi por falta de aviso, lembra?
- Claro que lembro. Lembra o dia em que o chefe pegou o Pena passando a conversa na moça do cafezinho.
- Ô se lembro! Deu um rebuliço danado, foi o maior barraco na copa, não sei como ele escapou daquela. Correu o prédio inteiro.
- Tem gente que nasce com o traseiro virado pra a lua, acho que ele até foi longe demais, abusou da sorte.
- Isso é verdade, se fosse comigo tinha levado um pé na bunda há muito tempo. Onde se viu cair em cima da copeira, se bem que ela não é de se jogar fora. Uma tremenda gostosa.
- Ô!!!
- Colega de trabalho pra mim é homem, eu pulo fora. Onde é que eu vou arranjar outra teta como essa?
- Nem brinca, coitado do Pena.
- Tomara que o substituto não seja outro ’mala’, tá cheio de mala nas empresas, é duro carregar os outros. E olha que esse tipo de praga nunca se acaba.
- Ô!!!
- Que será que houve dessa vez?
- Não sei, mas daria tudo pra saber, vai ver que afrontou o chefe.
- Que nada, ele era ruim de serviço, juntaram o útil ao agradável, um dia a clava desce...
- Demorou, só nos resta rezar por ele e pedir que seja feliz em outro lugar.
- Todo mundo merece uma nova chance, mas que seja bem longe daqui.
- Coitado, é uma pena, apesar de tudo tinha lá suas recaídas.
- Oi, pessoal, vim me despedir.
- Despedir, como assim, Pena? Vai pra onde, arranjou outro emprego?
- Não, fiz um acordo, vou abrir um negócio, trabalhar por conta própria. Há muito tempo que eu sonho com isso, já vinha guardando dinheiro.
- Puxa, que pena! Vai deixar a gente, então...
- É, cara, vê se não esquece dos amigos.
- Conte com a gente para o que der e vier.
- Valeu, pessoal, qualquer dia a gente se encontra por aí.
- Boa Sorte!
- Já vai tarde... Sussurra um dos colegas quando o elevador se fecha.

O mundo está cheio de ”amigos” que batem nas nossas costas e no dia seguinte comemoram a nossa desgraça, portanto, não tripudie nem torça pela tristeza alheia, seja honesto consigo mesmo e justo com os companheiros de trabalho, caso contrário, em menos de uma semana após a saída ninguém lembrará que você existe.

Mas, se lembrar, certamente vai tecer um simples comentário: o que será que aquele infeliz está fazendo da vida?

 

(02/05/2006)