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VOCÊ S/A
Jerônimo
Mendes
Administrador, Escritor e Palestrante
Autor do livro Oh, Mundo Cãoporativo! Lições
e Reflexões
Alô,
quem fala? Jerônimo da Klabin, bom dia! Jerônimo
ABS, boa tarde! Jerônimo Bamerindus, bom dia!
Jerônimo da Brahma, boa tarde! Jerônimo
Texaco, boa noite! Jerônimo da Volvo, boa tarde!
Ultimamente tenho lembrado mais do meu sobrenome. Mendes,
graças a Deus.
O
ser humano cultiva uma perfeita simbiose com a organização
que recruta toda sua inteligência a preço
simbólico. De um lado, o capital, ávido
por crescimento e do outro, o empregado, ávido
por segurança e o reconhecimento cada vez mais
raro.
Apenas
o primeiro entende a exata relação existente
entre ambos e o segundo, por sua vez, ilude-se numa
paixão desenfreada por quem, supostamente, o
trata como filho querido enquanto houver resultado aparente.
Para
muitos é importante sentir-se o Fulano da Shell,
o Sicrano da IBM ou o Beltrano da Microsoft. Adotamos
o sobrenome com tamanha facilidade e não nos
importamos com a perda da identidade original. Temos
dificuldade para assumir o nome Fulano da Silva ou Sicrano
de Deus.
O
primeiro parágrafo do texto é verídico.
Por muito tempo deixei de pronunciar meu sobrenome.
Há uma relação de amor e ódio
que permeia a relação capital e trabalho
embora um dependa do outro, não necessariamente
dos nomes, mas de pessoas dispostas a dar a vida pela
empresa.
O planeta conta hoje com mais de seis bilhões
de pessoas desejando a mesma coisa: amor, dinheiro,
sucesso, reconhecimento, sobrevivência, mais paz,
menos violência, um futuro brilhante.
O
mesmo homem que escraviza liberta. Quem submete faz
parceria, quem destrói pode generosamente operar
o milagre da justiça, da vida, do desenvolvimento
comum, da menor desigualdade entre iguais.
Não
raro os objetivos da organização confundem-se
com os objetivos dos empregados. Se a organização
prospera, os empregados também. Se a organização
definha a tendência é que eles definhem
juntos.
As
organizações em geral trazem na origem
o mito do pai e patrão ao mesmo tempo: severo,
autoritário, porém atento às necessidades
dos filhos, fechando-os e impedindo-os de tomar consciência
do que acontece ao seu redor.
Empregados
de todos os níveis desmontam no dia seguinte
após a demissão, principalmente aqueles
que deram a vida pela empresa acreditando na suposta
obrigação da empresa sustentá-los
até os últimos dias. Quanta ilusão!
Após
a demissão vem a realidade. Não pertencemos
mais ao meio. Foi-se o crachá, o cartão
de crédito, o plano de saúde, a empáfia,
o carro, as milhas de vôos constantes, a PLR e
o poder do cartão de visitas, quando acompanhado
de logotipo.
O
sobrenome volta a ser Fulano da Silva ou Sicrano de
Souza e chega o momento em que, finalmente, somos obrigados
a sentar e conversar com os filhos. Antes não
havia tempo. O que dizer a eles, acostumados à
imagem do pai herói? Como encarar os vizinhos?
O
emprego por si só é cativante, cria identidade,
sobrenome fictício, uma falsa ilusão.
Daqui pra frente tudo vai ser diferente. A organização
vive do que quer ser e o trabalhador encontra-se à
busca do que pretende igualmente ser dentro dela.
Ambos
vivem a imagem criada do modelo ideal que nunca existirá,
pois estão em permanente competição,
uns de forma honesta, outros nem sempre. Por conta dessa
relação o homem sonha, divaga e não
se realiza.
Nas
organizações, tanto senhores como trabalhadores
são anônimos. O senhor é a instituição,
o porto seguro, a garantia da sobrevivência com
base na saga do seu fundador. A organização
é forte pela magia de criar empregos e impor-se
utilizando o tempo dos outros em seu próprio
benefício. É fraca por depender da submissão
dos empregados para perpetuar-se.
Por
outro lado o empregado é a categoria, a classe,
a mão-de-obra, o suposto colaborador. Na verdade,
ele é a garantia de produção e
consumo a justificar a existência da organização.
Ele
é forte quando empresta sua inteligência,
energia e potencial à empresa e fraco quando
não consegue sobreviver sozinho, desprotegido
da pseudo-estabilidade concedida pela empresa durante
determinado período da vida.
Quem
não conhece pelo menos um mentor digno de admiração
e respeito, capaz de provocar uma revolução
a todo instante através de decisões simples
no meio em que vive? Existem vários na cidade
onde moro, nas ruas por onde ando, nas empresa onde
trabalhei, no círculo de amigos.
Peter
Drucker diz que o lucro é o subproduto das coisas
bem feitas. Fazê-las bem feito é tornar-se
vencedor e, como o próprio nome sugere, vencer
a dor. Todos querem fazer o que gostam, porém
a maioria não aprende a gostar do que faz, independente
das dificuldades. Consolidar o próprio nome é
o primeiro passo.
Penso
todos os dias que o verdadeiro nome é quem deve
prosperar. É preciso determinação,
força de vontade, fé, vencer a dor, equilíbrio.
Lembre-se do velho ditado que diz: a paciência
é amarga, mas seu fruto é doce!
Enquanto
construo minha própria organização
mentalmente tento eliminar essa visão pobre e
limitada que por vezes esfria o meu entusiasmo. É
mais fácil mudar o mundo do que mudar a si mesmo,
dizia Tolstói, célebre escritor russo.
E
até que esse dia chegue continuo trabalhando
com afinco, sem negar o máximo esforço,
mesmo nas tarefas mais humildes. Não conheço
ninguém que tenha cultivado ódio pela
empresa e prosperado. Ao contrário, quem prospera
é justamente aquele que faz da empresa uma verdadeira
escola para construir a sua.
Por
fim, para não torrar mais a sua paciência,
deixo aqui as sábias palavras de Andrew Carnegie,
magnata do aço americano no início do
século passado: “Há dois tipos de
pessoas na vida: uma é aquela que não
faz o que lhe mandam e outra é aquela que não
faz nada além do que lhe mandam”.
Seja
mais Você S.A., feliz com o que Deus lhe deu,
a inteligência, porém, dor e cansaço
devem fazer parte do seu cotidiano. Apesar das provações
a que somos submetidos, é importante lembrar
que o pior emprego é aquele que a gente não
tem.
(24/04/2006)
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