ILUSÕES DE ESTUDO

Jerônimo Mendes
Administrador, Escritor e Palestrante
Autor do livro Oh, Mundo Cãoporativo! Lições e Reflexões


Juro por minha santa mãezinha que sempre lutei para ser alguém na vida, bem sucedido, é óbvio. Estudei desde os cinco anos de idade, comecei a trabalhar com catorze e nunca mais parei. Saí da escola, voltei a estudar e acreditei que o estudo me conduziria a lugares que só existiam em sonho, mas a realidade é muito diferente. O mundo é uma batalha sem tréguas.

Por vocação própria costumo não olhar para trás. Nada existe lá que possa modificar a minha maneira de ser e pensar, mas há muita coisa enraizada em nossa vã filosofia que é fácil entender a razão pela qual as pessoas de pouco ou nenhum estudo voam longe, pois são portadoras de duas virtudes que nem sempre cabem nos catedráticos e literatos: ousadia e liberdade.

O estudo em geral limita as pessoas por tratar de muitas verdades que dizem respeito somente quando existe afinidade de idéias e pensamentos entre autor e leitor. Quantos de nós fomos enfiados dentro de uma sala de aula de quatro a oito horas por dia contra a própria vontade, privados da liberdade, por vezes irrecuperável, para tentar compreender uma linguagem que soou clara somente para gênios como Einstein, Newton, Galileu e Darwin entre outros.

Apesar de tudo, não devemos culpar os pais por isso. Pai e mãe sempre desejam o bem para os filhos embora o destino se apresente de forma diferente na maioria das vezes, salvo raríssimas exceções onde a inteligência emocional consegue aliar o útil ao agradável e a prosperidade aflora por razões inexplicáveis.

Quantos jovens fazem cursos e mais cursos para agradar os pais ou então amenizar a pressão que o mundo exerce injustamente sobre aqueles que ousam fugir das escolas, sob pena de não encontrarem um mísero emprego que lhes proporcione o mínimo de dignidade e reconhecimento.

Não sejamos tão rudes. Há gente que se conforma em levar uma vida razoavelmente trocando seis por meia-dúzia, acreditando na benevolência do governo, obrigado a bancar proventos de aposentadoria em troca da nossa boa dedicação por algumas décadas de trabalho duro.

Eu mesmo cometi algumas injustiças em quase vinte e cinco anos de trabalho no mundo corporativo eliminando e rotulando pessoas pela falta de estudo como se isso fosse o único fator determinante no rendimento de alguém.

Quanta insensatez de minha parte, mas somos escravos do meio, vivemos em razão dele e somos pressionados pelo sistema que suga nossas energias e busca no fundo da alma o chamado gênio contrário em detrimento a tudo o que aprendemos desde a infância como bom senso e índole.

A cidade onde moro está recheada de faculdades e universidades, uma do lado da outra a disputar a razoável parcela do salário dos trabalhadores que cumprem regularmente sua sobrecarga horária de trabalho e ainda se encorajam para outra jornada de sangue, suor e lágrimas durante quatro horas em sala de aula.

É a dita banalização do estudo em nome da necessidade de conhecimento e da informação. O mundo evoluiu, mas a sala de aula continua a mesma. Fecharam até as Escolas Técnicas que ensinavam mais do qualquer Universidade, por falta de verbas.

Por essa razão acredito que a mea culpa do governo concede uma infinidade de licenças para qualquer espertalhão com pouco de dinheiro e disposto a abrir uma escola sem muito critério. Depois as coisas vão dando certo e o público estudantil vai aumentando. Todo mundo quer montar uma faculdade a qualquer custo, não importa o curso. O que vale é o diploma. Vivemos na geração diploma.

Sinceramente, não sei porque ainda perde-se tempo e dinheiro com o famigerado vestibular. Certamente é pelo dinheiro, pois a taxa de inscrição enriquece muitos donos de faculdades e universidades. Pensar que ainda tem gente que se sujeita a mais de um exame em diferentes cidades.

Einstein dizia que a imaginação é mais importante que o conhecimento e todos sabem que o importante mesmo não é o conhecimento puro e simples, mas o que você faz com ele. Lembre-se de quantos livros você já leu e reflita sobre as mudanças concretas na sua vida por conta dessa dedicação.

Por fim, faça um favor a si mesmo: estude. Porém estude uma forma de mudar a concepção do aprendizado em vez de acreditar que ele vai rechear sua vida de alegrias e pare de acreditar que o dinheiro não traz felicidade. Tenha mais do que o necessário e duvido que não mude de idéia.

 

(24/04/2006)