AUTOREFLEXÃO

Jerônimo Mendes
Administrador, Escritor, Palestrante e Professor Universitário
Autor do livro Oh, Mundo Cãoporativo! Lições e Reflexões


Há de se ter muita paz no coração e um propósito de vida bem definido para evitar o estresse diário a que somos submetidos desde o momento em que abandonamos a suavidade do nosso travesseiro e a maciez insubstituível do colchão, ainda que parte dele seja um buraco formatado há tempos pela insistência do nosso delicado traseiro, o qual daria tudo para não sair dali.

Trocar o conforto de casa pela política escravocrata do mundo capitalista é digno de alguém que pena para ganhar a vida e vê no ambiente corporativo a única fórmula para o bem-estar ou a única luz no fim do túnel. Quanta pobreza de espírito e falta de imaginação!

Transformar o local de trabalho numa extensão do lar, como subterfúgio para os males que afligem o mundo e que, por ironia, somos os próprios causadores, é a primeira desculpa de quem constitui família, mas não provoca o mínimo esforço para solidificar a base ou ainda de quem não cultiva raízes, apenas celebra uma troca por vezes injusta de dinheiro por prazer e tranqüilidade.

Se houvesse a mínima possibilidade de acumular a energia desperdiçada no trânsito, no trato com as pessoas em casa e no trabalho ou quando confiamos nossa mente privilegiada ao primeiro apresentador de televisão que invade nosso lar com todo tipo de aberração abundante nos quatro cantos da Terra, seríamos capazes de construir um mundo diferente.

É preciso ser muito equilibrado e sereno para controlar a vontade de revolucionar o mundo diariamente eliminando da face da Terra toda hipocrisia circulante na sociedade que se diz evoluída. Somos bons na retórica até o dia que obrigamo-nos a transformá-la em prática.

Anos de boa formação e discurso evaporam em poucos segundos e caem pelo ralo ao menor sinal de desconforto. Na verdade somos feitos de carne e osso, matéria pura por assim dizer, cujo instinto fala mais alto quando a razão não consegue conter o ímpeto e a nossa predisposição em repudiar o óbvio, algo que na maioria das vezes insinua fraquezas impossíveis de se admitir diante do inimigo.
O homem moderno prefere sempre o caminho mais difícil. Temos tudo para viver felizes, de maneira simples e produtiva, porém somos impelidos a invocar o espírito maligno e derradeiro, aquele que persegue e assombra quando mais precisamos de equilíbrio e serenidade.

Muitas gerações ainda sofrerão as conseqüências da nossa falta de condescendência com as coisas simples da vida. Somos intransigentes demais, não se permitindo ao menor quesito fora do padrão, como se o mundo fosse aquilo que os outros querem e não o que podemos extrair de melhor da vida, em todos os sentidos.

Custamos a admitir a nossa incapacidade de admitir um meio de vida mais fácil, ameno e triunfante. Dificultamos as coisas pelo simples prazer de impor uma idéia, por mais descabida que pareça, à grande maioria que nos cerca.

Dizer que a vida é difícil me parece fácil demais embora seja difícil torná-la fácil, de tão fácil que é, e também por não acreditarmos ou medirmos esforços para fazer dela um incrível jardim florido, algo tão simples aos olhos do jardineiro cuja maior ambição é extrair o simples sorriso de suas rosas.
A vida é exatamente aquilo que pensamos e extraímos dela. Para alguns um mar de problemas, para outros, uma dádiva divina. Nossas palavras formam nossas idéias e nossas idéias formam nossos ideais. Nossa preocupação em relação ao mundo é diretamente proporcional á importância que damos a determinado problema.

Gênios como Einstein, Edison e Shakespeare tornaram-se inesquecíveis por apresentarem soluções simples para os problemas do seu tempo embora seja inegável o esforço que concentraram para obter reconhecimento das suas idéias. Como diria Edison, noventa e nove porcento de transpiração e um porcento de inspiração.

O grande absurdo da Terra é que enquanto algumas dezenas de homens concentram esforços na solução da paz, milhares caminham na direção inversa tornando o desequilíbrio de forças algo praticamente impossível de ser corrigido pela simples boa vontade de poucos.

Enquanto o mundo não acorda, cabe-nos refletir a parcela que nos cabe, que tipo de mundo queremos para os filhos e netos e até que ponto estamos dispostos a engolir tanto desrespeito por aqueles que ousamos chamar de irmãos e amigos, filhos do preconceito e da discriminação.

Desde pequenos ouvimos dizer que o trabalho é a lei da vida, porém nunca disseram que o trabalho deveria estar acompanhado de maldade, desprezo, ódio, inveja e ganância.

O trabalho é fonte de crescimento, evolução e relacionamento, portanto, devemos refletir diariamente o porquê da nossa insistência em transformá-lo num ambiente hostil e degradante, a exemplo das arenas romanas.

Jamais espere que tudo isso mude. Promova você mesmo a mudança para orgulhar-se dela enquanto estiver vivo, sinal de que esforço valeu a pena e a vida não precisa necessariamente ser tão ruim quanto imaginamos, seja em casa ou no trabalho.

(10/04/2006)