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A ORGANIZAÇÃO
INFORMAL
Jerônimo
Mendes
Administrador, Escritor, Palestrante e Professor Universitário
Autor do livro Oh, Mundo Cãoporativo! Lições
e Reflexões
Infeliz aquele que ignora a organização
informal dentro das empresas. Ela esteve presente nas
formas mais primitivas de organização,
nos Impérios Romano e Egípcio, nos exércitos
de Alexandre, Ciro e Napoleão, nas embarcações
dos grandes conquistadores dos mares.
A partir do século 19, a Revolução
Industrial consolidou o modelo de organização
informal que hoje conhecemos, também informalmente,
quando homens e mulheres de todas as classes eram arrancados
de suas casas e confinados no chão de fábrica
em troca de salário fixo e promessas de empregos
duradouros.
As empresas sempre tiveram consciência da sua
existência, porém nunca lhe atribuíram
a devida importância como instrumento de análise
e solução de problemas no ambiente de
trabalho.
A organização informal compete de igual
para igual com a organização formal e,
em muitos casos, ganha na velocidade, além de
exercer maior poder e influência na tomada de
decisões ainda que de maneira inconsciente.
A percepção do alto comando é falha
nesse sentido e quase não alcança a amplitude
necessária ao entendimento dos meandros da informalidade
que permeia a alma das empresas. Não raro ela
é simplesmente ignorada.
Todas as informações que circulam na empresa
são de conhecimento da organização
informal. Quando falamos de empresas associamos invariavelmente
a figura do ser humano, passível de erros e emoções
que interferem diretamente no fluxo de ações
e decisões tomadas a todo instante.
Um líder sensato jamais ignora a rádio-peão,
organização informal sem fins lucrativos,
mas de alto impacto político e econômico,
a mais conhecida e praticada no mundo corporativo. Seus
membros não constituem uma hierarquia propriamente
dita. Ao contrário, são todos iguais perante
a lei e o código de ética.
E vão mais longe ainda, são capazes de
se relacionar com todos os níveis da organização
sem qualquer formalidade, independente do cargo que
ocupam.
As falhas de comunicação, o ambiente hostil
e a necessidade básica do ser humano de se mostrar
útil são os principais ingredientes para
o fortalecimento da organização informal.
As ações e informações que
se desenrolam nos corredores da empresa, de maneira
distorcida e um certo fundo de verdade, é resultado
da administração formal e centralizada
em boa parte dos casos.
Líderes que imaginam ser o centro das atenções
alimentam a falsa ilusão de que pessoas são
robôs prontos para comunicar-se somente após
o acionamento da tecla SAP ou a digitação
de palavra-chave. Quanta insensatez!
A diferença entre a secretária do Presidente
e aquela gentil senhora que prepara o cafezinho é
praticamente nula quando a primeira aguarda na cozinha
e tenta administrar a impaciência do chefe pela
demora da garrafa térmica.
Nesse intervalo de tempo um simples comentário
mal interpretado dispara uma corrente de analogias em
todas as direções, o qual ganha força
na medida em que muda de ambiente e de nível
hierárquico. Quanto menor o nível, maior
a velocidade da informação e menor a probabilidade
de não exprimir a verdade.
A organização informal demite com extrema
facilidade antes da vítima esboçar o menor
sinal de reação. Ninguém escapa
da sua genial capacidade de elevação ou
difamação do espírito em troca
de uma simples gentileza.
Infelizmente não há como se livrar dela
nem podemos ignorá-la. Fazer parte da rede é
algo que independe da nossa vontade. Ela vigia nossos
passos e lê nossos pensamentos a quilômetros
de distância, onde quer que estejamos, em casa,
na rua ou no restaurante, sempre amável e disposta
a ajudar de alguma forma.
A organização informal tem a solução
para todos os problemas da empresa e sabe exatamente
onde eles residem, mas tende a ser imune em todos os
sentidos e jamais terá dificuldades para obter
informações. Se não existem, ela
mesmo cria uma e trata de fazê-la circular rapidamente
no meio em que atua.
Apesar de tudo, esse tipo de organização
não é privilégio do mundo dos negócios.
Está presente em todos os segmentos da sociedade
moderna, nas escolas, no governo e até mesmo
nos ambientes familiares quando os próprios filhos
não concedem o privilégio de participarmos
da conversa.
O importante é saber administrar a organização
informal e fazer parte dela sem ser engolido por ela.
Portanto, quando alguém se aproximar com cara
de amigo disposto a ajudá-lo, esforce-se para
imaginar as conseqüências de uma simples
pergunta ou comentário despretensioso.
E nunca esqueça as palavras sábias do
maravilhoso poeta gaúcho no início do
texto: não diga nada para o teu amigo...
(03/04/2006)
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