Jerônimo
Mendes é professor universitário,
palestrante e autor do livro “Oh, Mundo Cãoporativo.
Lições e Reflexões”,
que aborda as relações humanas e a
ética no trabalho corporativo. Formado em
Administração de Empresas pela FAE,
com especialização em Logística
Empresarial e em Planos de Negócios e Consultoria
Organizacional, Jerônimo já integrou
o time de profissionais de grandes empresas, como
Kablin, Bamerindus, Brahma, Texaco, Volvo e CSN.
Atualmente, é aluno do mestrado na FAE e
sócio-gerente da Consult Consultoria de Gestão
e Treinamento, que assessora pequenas, médias
e grandes empresas em todo o país. Na entrevista,
Jerônimo fala sobre os modelos de gestão
empresarial, a concorrência no interior das
organizações, além do “mundo
cãoporativo”.
Como
devem ser as relações no ambiente
de trabalho?
As empresas, de maneira geral, são voltadas
para resultados. E os resultados não dependem
exclusivamente do know-how. Teoricamente, você
é facilmente substituível, pois sempre
há alguém esperando para fazer o dobro,
pela metade do preço. A concorrência
é acirrada. Nós somos fruto da evolução
industrial, da pós-evolução
industrial, na qual éramos cobrados por resultados,
por acúmulo de conhecimento. A sociedade
fez com que empregássemos uma mecanização
às pessoas, que ficássemos mais cartesianos,
automáticos e que mostrássemos mais
o lado técnico, em detrimento do lado humano.
No entanto não existe o lado técnico
sem o lado humano e vice-versa. Hoje, infelizmente,
premia-se mais o lado técnico do que o humano.
Essa é uma visão difícil de
se mudar nas empresas, embora ainda existam casos
isolados em que as empresas se preocupam com o capital
humano.
Que fatores contribuem para conflitos internos?
A concorrência natural, a competição
que o ser humano exerce no interior das organizações,
é um dos fatores que mais contribuem para
isso. Todos nós temos ambições,
perspectivas, desejos internos de crescimento pessoal
e profissional. Além disso, o ser humano
é indissociável, isso significa não
ser possível separar o profissional do pessoal.
Não conseguimos sair de casa com um filho
ou um pai doente e sermos completamente profissionais,
da mesma forma sair da empresa e esquecer totalmente
os problemas que acontecem lá. Por isso,
no trabalho afloram-se discussões ou conflitos
que são trazidos de casa, não conseguimos
nos separar. O instinto natural, do tempo das cavernas,
de competitividade e briga, aflora automaticamente.
É impossível separar uma coisa da
outra.
O nome do seu livro, “Oh, Mundo Cãoporativo!”,
é um tanto descontraído e cômico.
Na sua opinião, no mundo coorporativo existe
espaço para o humor?
Bastante! Tanto é verdade que existem pessoas
que ganham dinheiro só “em cima disso”.
O autor do prefácio do meu livro, por exemplo,
fala diariamente na CBN sobre o mundo coorporativo,
numa visão bem humorada, com certo sarcasmo.
Nas minhas palestras, eu procuro falar do mundo
coorporativo com certo humor. Esse “mundo
cãoporativo” pode chocar um pouco,
mas eu desenvolvo uma relação bem
amistosa. Meu livro traz uma bagagem de 25 anos
de história, sete empregos diferentes, sete
visões distintas de como tratar o ser humano,
de como se comportar em determinadas organizações
e dos diferentes níveis de pressão
sofridas no trabalho.
Como seria esse mundo “cãoporativo”?
O mundo cãoporativo, com o qual eu brinco,
é um mundo onde, infelizmente, as pessoas
acabam tendo que usar máscaras. No trabalho,
você não é exatamente aquilo
que é em casa, você é diferente
porque precisa manter uma determinada postura. Você
tem que competir, que mostrar trabalho, que sobressair
de alguma forma, pois o mundo premia aqueles que
se sobressaem. Às vezes, essa competição
atropela os verdadeiros princípios das pessoas.
Aquilo que lhe ensinaram, sobre ser honesto, ser
uma boa pessoa, ser íntegro, elas não
conseguem usar na empresa. Uma vez, um executivo
disse uma frase interessante: “A ética
é o freio da ambição”,
ou seja, você não consegue ser ético,
sendo extremamente ambicioso.
No seu livro, você fala muito sobre
emoção. Como ela deve ser tratada
no ambiente coorporativo?
O ser humano, como falei, é indissociável,
a emoção vai aflorar em algum momento
do dia. Todavia, queiramos ou não, somos
premiados e medidos pela razão. E a razão
são os resultados. Em determinadas áreas,
a emoção pode até funcionar,
como na publicidade, por exemplo, mas o que cabe
no mundo coorporativo é a razão. As
pessoas não querem saber se você está
com problemas ou não, o que importa é
que existe uma atividade a ser desempenhada, independentemente
do seu astral. É claro que existem pessoas
mais sensíveis, então, isso depende
muito do ambiente em que se está inserido.
O funcionário que está num
estado de espírito positivo tem mais chances
de acertar?
Você produz bem quando está bem consigo.
Você pode até não estar inserido
corretamente no ambiente da empresa, ou não
estar sendo olhado da maneira como gostaria, mas
se você estiver bem, saindo de casa achando
que o seu trabalho é aquilo que gosta de
fazer, você vai conseguir desempenhar bem
suas atividades. Entretanto, quando sai de casa,
na segunda-feira, já pensando na sexta, você
está no lugar errado. Sua vocação
é outra, mas vocação é
difícil de se acertar. Vocação
é um sonho, um ideal, é aquilo que
se quer daqui a 10 ou 20 anos. O problema é
que você tem de sobreviver e às vezes
a vocação não dá dinheiro.
Eu, particularmente, gostaria de escrever livros,
porém eu morreria de fome. Por isso, exerço
outra atividade e tento conciliar.
Um dos grandes traumas no “mundo cãoporativo”
são as demissões. Existe uma forma
correta de se demitir alguém?
O critério de justiça é muito
subjetivo. Ele está diretamente ligado ao
nível de relacionamento que o chefe tem em
relação ao subordinado, com o nível
de desempenho que ele demonstrou, entre outras coisas.
Entretanto, as pessoas precisam de um mínimo
de respeito, elas têm o direito de saber por
que foram demitidas. Acredito que a transparência
é o melhor caminho, pois ajuda no crescimento
do empregado. Isso não significa ser grosseiro
ou tratar a pessoa como um simples número.
Outra coisa que jamais deve ser feita é transferir
o problema para o RH, aquilo de falar “Passa
no RH” é deselegante e antiético.
Muitas discussões sobre as empresas
são realizadas fora do ambiente de trabalho,
como nos happy hours. O que você pensa sobre
isso?
É o lugar onde você tem condições
de falar tudo o que gostaria de falar dentro da
organização, mas não tem coragem.
Happy hour é a chamada organização
informal. A organização informal demite,
admite, promove, faz seleção, enfim,
faz o que não está propriamente escrito
no manual da empresa. Fora do trabalho, você
consegue manter um certo grupo e extravasar ou até
suportar a pressão dentro da organização.
O happy hour é para descontrair, para você
conhecer melhor o seu colega de trabalho, apesar
de também existirem as panelinhas (a panelinha
dos chefes, a panelinha dos empregados...). Por
essa razão, em treinamentos de avaliação
ou de relação interpessoal, não
se coloca chefe junto com subordinado, pois o subordinado
não é tão aberto quanto ele
seria se estivesse longe do chefe. O happy hour
é bom para entrosamento embora dificilmente
honesto quando há uma relação
de subordinação.
Como é possível achar tempo
para descontração durante o dia-a-dia?
O conhecimento que a gente está adquirido,
nos treinamentos, nas universidades, em cursos de
extensão, nos ensina que o trabalho é
necessário, uma condição de
sobrevivência do ser humano. Entretanto, temos
de repensar essa condição. Até
que ponto devemos fazer do trabalho a nossa escravidão?
Até que ponto vale a pena se desgastar, abrir
mão de coisas pessoais, de cuidar de uma
família? Hoje, os executivos estão
saindo das grandes cidades, deixando empregos de
milhões de reais porque querem fugir dessa
rotina, querem se dedicar mais ao particular, ter
mais tempo para a família, para andar no
campo, para andar a cavalo, voltar às origens.
Nas empresas grandes, é comum executivos
de 30 ou 35 anos estarem com o nível de estresse
nas alturas, pois o capital não respeita
as pessoas de maneira geral.
Nesse contexto, como é possível
pensar diferente?
Pensar diferente não precisa necessariamente
ser sofisticado. Pensar diferente é pensar
simples. De maneira geral, as empresas querem simplicidade
e agilidade. Portanto, pensar diferente é
pensar em como não sofisticar um processo
e chegar ao mesmo resultado, como não precisar
gastar milhões de reais para fazer algo que
pode ser feito com uma simples idéia. Isso
é pensar diferente.
Como é possível moldar as
capacidades dos funcionários?
Todos nós temos habilidades, competências,
conhecimentos. Você tem de saber mesclar tudo
isso, dando autonomia, liberdade para as pessoas
trabalharem e cobrando resultados. Uma pesquisa
provou que os funcionários são infelizes
porque não são reconhecidos, e esse
não ser reconhecido é justamente não
ser cobrado por resultados, é não
ser avaliado, não ser questionado. Dificilmente
alguém diz que adora trabalhar sem ser cobrado.
O que você acha da atitude da mulher
moderna de relegar formas de pensar e de agir predominantemente
femininas para assumir feições mais
masculinas (como a força) com o intuito de
ganhar espaço profissionalmente?
Uma vez li num artigo que a mulher é a única
espécie que luta pela própria extinção.
No tempo em que ela começou a sair para o
mercado de trabalho e ir para a faculdade, ela pretendia
se equiparar aos homens em termos de conhecimento,
competir de igual para igual. Porém, a mulher
continua fazendo aquilo que eu chamo de primeiro
turno, segundo turno e terceiro turno. O primeiro
turno é o trabalho, do qual não tem
como fugir, pois elas querem e precisam dele até
por uma questão de posicionamento na sociedade.
O segundo turno também não tem jeito,
os filhos estão em casa esperando, querem
jantar, querem banho, querem fazer lição.
No terceiro turno, são os maridos que estão
esperando. O fardo que a mulher tem de suportar
hoje é muito pesado. Elas são fortes
até determinado momento, no fundo elas sabem
que há muita cobrança. Atualmente,
elas não querem mais ficar na cozinha ou
serem donas de casa, elas querem ir à luta.
A mulher, como a gente via até o século
passado, está em extinção.
Qual é o modelo ideal para hierarquia
de uma empresa?
O modelo ideal é o da liderança. A
liderança não é nata, ela pode
ser trabalhada. Está acabando a relação
do chefe-subordinado. Não vai mais haver
espaço para o chefe, para aquele que prega
“façam o que eu mando, mas não
façam o que eu faço”. Os líderes
por excelência são aqueles que lideram
pelo exemplo, que trabalham com as diversidades,
que não têm medo de existirem subordinados
melhores do que eles e que conseguem trazer o subordinado
para contribuir, sem ter medo de que lhes façam
sombra.
A sociedade não estaria despreparada
para um perfil mais horizontal e autogerenciável?
Acredito que não, as empresas já estão
começando a se preparar. Nós fazemos
trabalhos de reestruturação e as estruturas
são reduzidas a cinco, no máximo seis
áreas de gerência ou departamentos.
As empresas estão ficando cada vez mais enxutas,
os níveis hierárquicos se reduzindo,
as estruturas sendo horizontalizadas. Não
precisa haver dez departamentos ou oito níveis
hierárquicos, porém estruturas bem
definidas e especializadas. Eu diria que um limite
razoável seriam cinco ou seis; e em cada
estrutura, um profissional com que as pessoas se
identificassem.
A outra face do “mundo cãoporativo”
é a do empreendedorismo. Como você
percebe o empreendedorismo no Brasil?
Para muita gente, ser empreendedor é a coisa
mais fantástica do mundo. O Brasil hoje é
um país essencialmente empreendedor. Porém,
por profunda necessidade. Se você observar
os índices de empreendedorismo no Brasil,
chegam a ser alarmantes: 73% das empresas que fecham
no primeiro ano, 85% não passam do segundo
ano e as que chegam ao terceiro ano são menos
de 5%. Isso é falta de planejamento, depois
que a pessoa já abriu o negócio, percebe
que não tem vocação para aquele
determinado segmento. Eu ministro muitas palestras
e aulas sobre empreendedorismo, o que eu aconselho
é que a pessoa tente pelo menos acertar a
vocação, o que também não
é fácil.