PORTAL UNIFAE INTELIGENTTIA

Entrevista concedida em 26 de julho de 2005.

MUNDO CÃOPORATIVO

Jerônimo Mendes
Jerônimo Mendes é professor universitário, palestrante e autor do livro “Oh, Mundo Cãoporativo. Lições e Reflexões”, que aborda as relações humanas e a ética no trabalho corporativo. Formado em Administração de Empresas pela FAE, com especialização em Logística Empresarial e em Planos de Negócios e Consultoria Organizacional, Jerônimo já integrou o time de profissionais de grandes empresas, como Kablin, Bamerindus, Brahma, Texaco, Volvo e CSN. Atualmente, é aluno do mestrado na FAE e sócio-gerente da Consult Consultoria de Gestão e Treinamento, que assessora pequenas, médias e grandes empresas em todo o país. Na entrevista, Jerônimo fala sobre os modelos de gestão empresarial, a concorrência no interior das organizações, além do “mundo cãoporativo”.
Como devem ser as relações no ambiente de trabalho?
As empresas, de maneira geral, são voltadas para resultados. E os resultados não dependem exclusivamente do know-how. Teoricamente, você é facilmente substituível, pois sempre há alguém esperando para fazer o dobro, pela metade do preço. A concorrência é acirrada. Nós somos fruto da evolução industrial, da pós-evolução industrial, na qual éramos cobrados por resultados, por acúmulo de conhecimento. A sociedade fez com que empregássemos uma mecanização às pessoas, que ficássemos mais cartesianos, automáticos e que mostrássemos mais o lado técnico, em detrimento do lado humano. No entanto não existe o lado técnico sem o lado humano e vice-versa. Hoje, infelizmente, premia-se mais o lado técnico do que o humano. Essa é uma visão difícil de se mudar nas empresas, embora ainda existam casos isolados em que as empresas se preocupam com o capital humano.

Que fatores contribuem para conflitos internos?
A concorrência natural, a competição que o ser humano exerce no interior das organizações, é um dos fatores que mais contribuem para isso. Todos nós temos ambições, perspectivas, desejos internos de crescimento pessoal e profissional. Além disso, o ser humano é indissociável, isso significa não ser possível separar o profissional do pessoal. Não conseguimos sair de casa com um filho ou um pai doente e sermos completamente profissionais, da mesma forma sair da empresa e esquecer totalmente os problemas que acontecem lá. Por isso, no trabalho afloram-se discussões ou conflitos que são trazidos de casa, não conseguimos nos separar. O instinto natural, do tempo das cavernas, de competitividade e briga, aflora automaticamente. É impossível separar uma coisa da outra.

O nome do seu livro, “Oh, Mundo Cãoporativo!”, é um tanto descontraído e cômico. Na sua opinião, no mundo coorporativo existe espaço para o humor?
Bastante! Tanto é verdade que existem pessoas que ganham dinheiro só “em cima disso”. O autor do prefácio do meu livro, por exemplo, fala diariamente na CBN sobre o mundo coorporativo, numa visão bem humorada, com certo sarcasmo. Nas minhas palestras, eu procuro falar do mundo coorporativo com certo humor. Esse “mundo cãoporativo” pode chocar um pouco, mas eu desenvolvo uma relação bem amistosa. Meu livro traz uma bagagem de 25 anos de história, sete empregos diferentes, sete visões distintas de como tratar o ser humano, de como se comportar em determinadas organizações e dos diferentes níveis de pressão sofridas no trabalho.

Como seria esse mundo “cãoporativo”?
O mundo cãoporativo, com o qual eu brinco, é um mundo onde, infelizmente, as pessoas acabam tendo que usar máscaras. No trabalho, você não é exatamente aquilo que é em casa, você é diferente porque precisa manter uma determinada postura. Você tem que competir, que mostrar trabalho, que sobressair de alguma forma, pois o mundo premia aqueles que se sobressaem. Às vezes, essa competição atropela os verdadeiros princípios das pessoas. Aquilo que lhe ensinaram, sobre ser honesto, ser uma boa pessoa, ser íntegro, elas não conseguem usar na empresa. Uma vez, um executivo disse uma frase interessante: “A ética é o freio da ambição”, ou seja, você não consegue ser ético, sendo extremamente ambicioso.

No seu livro, você fala muito sobre emoção. Como ela deve ser tratada no ambiente coorporativo?
O ser humano, como falei, é indissociável, a emoção vai aflorar em algum momento do dia. Todavia, queiramos ou não, somos premiados e medidos pela razão. E a razão são os resultados. Em determinadas áreas, a emoção pode até funcionar, como na publicidade, por exemplo, mas o que cabe no mundo coorporativo é a razão. As pessoas não querem saber se você está com problemas ou não, o que importa é que existe uma atividade a ser desempenhada, independentemente do seu astral. É claro que existem pessoas mais sensíveis, então, isso depende muito do ambiente em que se está inserido.

O funcionário que está num estado de espírito positivo tem mais chances de acertar?
Você produz bem quando está bem consigo. Você pode até não estar inserido corretamente no ambiente da empresa, ou não estar sendo olhado da maneira como gostaria, mas se você estiver bem, saindo de casa achando que o seu trabalho é aquilo que gosta de fazer, você vai conseguir desempenhar bem suas atividades. Entretanto, quando sai de casa, na segunda-feira, já pensando na sexta, você está no lugar errado. Sua vocação é outra, mas vocação é difícil de se acertar. Vocação é um sonho, um ideal, é aquilo que se quer daqui a 10 ou 20 anos. O problema é que você tem de sobreviver e às vezes a vocação não dá dinheiro. Eu, particularmente, gostaria de escrever livros, porém eu morreria de fome. Por isso, exerço outra atividade e tento conciliar.

Um dos grandes traumas no “mundo cãoporativo” são as demissões. Existe uma forma correta de se demitir alguém?
O critério de justiça é muito subjetivo. Ele está diretamente ligado ao nível de relacionamento que o chefe tem em relação ao subordinado, com o nível de desempenho que ele demonstrou, entre outras coisas. Entretanto, as pessoas precisam de um mínimo de respeito, elas têm o direito de saber por que foram demitidas. Acredito que a transparência é o melhor caminho, pois ajuda no crescimento do empregado. Isso não significa ser grosseiro ou tratar a pessoa como um simples número. Outra coisa que jamais deve ser feita é transferir o problema para o RH, aquilo de falar “Passa no RH” é deselegante e antiético.

Muitas discussões sobre as empresas são realizadas fora do ambiente de trabalho, como nos happy hours. O que você pensa sobre isso?
É o lugar onde você tem condições de falar tudo o que gostaria de falar dentro da organização, mas não tem coragem. Happy hour é a chamada organização informal. A organização informal demite, admite, promove, faz seleção, enfim, faz o que não está propriamente escrito no manual da empresa. Fora do trabalho, você consegue manter um certo grupo e extravasar ou até suportar a pressão dentro da organização. O happy hour é para descontrair, para você conhecer melhor o seu colega de trabalho, apesar de também existirem as panelinhas (a panelinha dos chefes, a panelinha dos empregados...). Por essa razão, em treinamentos de avaliação ou de relação interpessoal, não se coloca chefe junto com subordinado, pois o subordinado não é tão aberto quanto ele seria se estivesse longe do chefe. O happy hour é bom para entrosamento embora dificilmente honesto quando há uma relação de subordinação.

Como é possível achar tempo para descontração durante o dia-a-dia?
O conhecimento que a gente está adquirido, nos treinamentos, nas universidades, em cursos de extensão, nos ensina que o trabalho é necessário, uma condição de sobrevivência do ser humano. Entretanto, temos de repensar essa condição. Até que ponto devemos fazer do trabalho a nossa escravidão? Até que ponto vale a pena se desgastar, abrir mão de coisas pessoais, de cuidar de uma família? Hoje, os executivos estão saindo das grandes cidades, deixando empregos de milhões de reais porque querem fugir dessa rotina, querem se dedicar mais ao particular, ter mais tempo para a família, para andar no campo, para andar a cavalo, voltar às origens. Nas empresas grandes, é comum executivos de 30 ou 35 anos estarem com o nível de estresse nas alturas, pois o capital não respeita as pessoas de maneira geral.

Nesse contexto, como é possível pensar diferente?
Pensar diferente não precisa necessariamente ser sofisticado. Pensar diferente é pensar simples. De maneira geral, as empresas querem simplicidade e agilidade. Portanto, pensar diferente é pensar em como não sofisticar um processo e chegar ao mesmo resultado, como não precisar gastar milhões de reais para fazer algo que pode ser feito com uma simples idéia. Isso é pensar diferente.

Como é possível moldar as capacidades dos funcionários?
Todos nós temos habilidades, competências, conhecimentos. Você tem de saber mesclar tudo isso, dando autonomia, liberdade para as pessoas trabalharem e cobrando resultados. Uma pesquisa provou que os funcionários são infelizes porque não são reconhecidos, e esse não ser reconhecido é justamente não ser cobrado por resultados, é não ser avaliado, não ser questionado. Dificilmente alguém diz que adora trabalhar sem ser cobrado.

O que você acha da atitude da mulher moderna de relegar formas de pensar e de agir predominantemente femininas para assumir feições mais masculinas (como a força) com o intuito de ganhar espaço profissionalmente?
Uma vez li num artigo que a mulher é a única espécie que luta pela própria extinção. No tempo em que ela começou a sair para o mercado de trabalho e ir para a faculdade, ela pretendia se equiparar aos homens em termos de conhecimento, competir de igual para igual. Porém, a mulher continua fazendo aquilo que eu chamo de primeiro turno, segundo turno e terceiro turno. O primeiro turno é o trabalho, do qual não tem como fugir, pois elas querem e precisam dele até por uma questão de posicionamento na sociedade. O segundo turno também não tem jeito, os filhos estão em casa esperando, querem jantar, querem banho, querem fazer lição. No terceiro turno, são os maridos que estão esperando. O fardo que a mulher tem de suportar hoje é muito pesado. Elas são fortes até determinado momento, no fundo elas sabem que há muita cobrança. Atualmente, elas não querem mais ficar na cozinha ou serem donas de casa, elas querem ir à luta. A mulher, como a gente via até o século passado, está em extinção.

Qual é o modelo ideal para hierarquia de uma empresa?
O modelo ideal é o da liderança. A liderança não é nata, ela pode ser trabalhada. Está acabando a relação do chefe-subordinado. Não vai mais haver espaço para o chefe, para aquele que prega “façam o que eu mando, mas não façam o que eu faço”. Os líderes por excelência são aqueles que lideram pelo exemplo, que trabalham com as diversidades, que não têm medo de existirem subordinados melhores do que eles e que conseguem trazer o subordinado para contribuir, sem ter medo de que lhes façam sombra.

A sociedade não estaria despreparada para um perfil mais horizontal e autogerenciável?
Acredito que não, as empresas já estão começando a se preparar. Nós fazemos trabalhos de reestruturação e as estruturas são reduzidas a cinco, no máximo seis áreas de gerência ou departamentos. As empresas estão ficando cada vez mais enxutas, os níveis hierárquicos se reduzindo, as estruturas sendo horizontalizadas. Não precisa haver dez departamentos ou oito níveis hierárquicos, porém estruturas bem definidas e especializadas. Eu diria que um limite razoável seriam cinco ou seis; e em cada estrutura, um profissional com que as pessoas se identificassem.

A outra face do “mundo cãoporativo” é a do empreendedorismo. Como você percebe o empreendedorismo no Brasil?
Para muita gente, ser empreendedor é a coisa mais fantástica do mundo. O Brasil hoje é um país essencialmente empreendedor. Porém, por profunda necessidade. Se você observar os índices de empreendedorismo no Brasil, chegam a ser alarmantes: 73% das empresas que fecham no primeiro ano, 85% não passam do segundo ano e as que chegam ao terceiro ano são menos de 5%. Isso é falta de planejamento, depois que a pessoa já abriu o negócio, percebe que não tem vocação para aquele determinado segmento. Eu ministro muitas palestras e aulas sobre empreendedorismo, o que eu aconselho é que a pessoa tente pelo menos acertar a vocação, o que também não é fácil.

Fonte:
http://www.fae.edu/intelligentia/entrevista/index.asp?lngIdArtigo=16205&pagina=1