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CONFLITOS
E ÉTICA CORPORATIVA
Patrícia Bispo
Entrevista concedida para o portal RH.COM.BR em
25.01.2005
Estimular
e manter um bom ambiente organizacional está
entre as atribuições que mais preocupam
os profissionais de RH. Na prática, isso
acontece porque não é uma tarefa
fácil conviver com a pressão que
a alta produtividade proporciona às pessoas,
solucionar os conflitos entre as equipes e, ainda,
satisfazer os interesses da organização
e dos colaboradores. E dentro desse quebra-cabeça
ainda surge uma questão: como fortalecer
e não ferir a ética organizacional.
Esse foi um dos motivos que levou o professor
e administrador de empresas, Jerônimo Mendes,
a lançar o livro Oh, Mundo Corporativo,
Editora Qualitymark. Em 40 crônicas e artigos,
ele relata recordações e testemunhos
que vivenciou ao longo de 25 anos de carreira,
a maioria desses dedicados às grandes empresas.
Confira como foi a entrevista concedida ao RH.COM.BR.
Jerônimo Mendes fala também sobre
os conflitos e a ética corporativa. Confira!
RH.COM.BR
- Em seu livro Oh, Mundo Cãoporativo! o
Sr. aborda as relações humanas e
a ética no ambiente de trabalho. De onde
o Sr. coletou informações para escrever
o seu livro?
Jerônimo
Mendes
- Essencialmente do cotidiano das empresas onde
trabalhei e do meu círculo de relacionamentos
pessoal e profissional. Todo profissional tem
pelo menos uma boa história e uma decepção
no trabalho. A diferença é que eu
registro minhas observações e faço
delas uma fonte de reflexão e aprendizado.
Também me apoiei numa ampla bibliografia
citada no final do livro. Os 10 Mandamentos da
Ética, de Gabriel Chalita; A Vida é
Combate, Sucesso é Dor, de Rogério
Caldas; O Feitiço das Organizações,
de Maria Aparecida Schirato, mestra da USP e O
Dinheiro ou Sua Vida, do norte-americano John
S. Clark, formaram a base de pensamento do meu
livro. Outros bons autores oram citados em menor
grau, não menos importante.
RH.COM.BR
- O que o motivou a falar sobre esses temas já
tão comuns para o mundo corporativo?
Jerônimo
Mendes -
São comuns nos bastidores das empresas,
no happy hour, em casa. Poucos se arriscam a discutir
as relações desumanas no ambiente
onde se ganha o pão de cada dia. Fomos
doutrinados desde a Revolução Industrial
para a submissão, por questão de
sobrevivência. O profissional sofre calado
até o último minuto, pensa na esposa,
nos filhos, na mãe doente. É difícil
administrar a pressão que vem do chefe,
da família, da sociedade. Não fomos
treinados para isso. É uma questão
de cultura.
RH.COM.BR
- Qual o principal objetivo do seu trabalho?
Jerônimo
Mendes -
Instruir os jovens que chegam ao mercado de trabalho,
estimular a reflexão, desabafar um pouco.
O primeiro emprego é feito de sonhos. A
gente pensa que vai durar a vida toda e logo vem
a decepção. É importante
mostrar aos profissionais novos e experientes
que existem inúmeras oportunidades fora
do ambiente corporativo quando este não
demonstra o mínimo de respeito pelo seu
trabalho.
RH.COM.BR
- Qual o diferencial que sua obra traz para o
leitor?
Jerônimo
Mendes -
A experiência. Não é um livro
escrito por um teórico ou estudioso que
nunca viveu a essência do ambiente corporativo.
Procurei utilizar uma linguagem fácil,
descontraída. Todos os textos têm
uma ponta de reflexão e outra de diversão.
É possível extrair o lado bom do
ambiente corporativo e rir de tudo isso. Ao ler
um capítulo não há como não
identificar alguém parecido na empresa.
Como foi dito na contracapa, é para rir,
chorar e refletir.
RH.COM.BR
- O Sr. comentou que o livro reúne crônicas
e artigos que surgiram a partir de sua experiência
obtida em 25 anos de carreira. No que se refere
à ética organizacional, qual o caso
que mais lhe chamou a atenção?
Jerônimo
Mendes - Isso
daria outro livro, mas por questão de ética,
é melhor restringir-se aos fatos e esquecer
os nomes. Conheci executivos capazes de “matar
a mãe para ir numa festa de órfãos”.
Um deles não passava um mês sem mandar
alguém embora simplesmente para mostrar
poder, sem o mínimo critério. Um
dia a clava do destino desceu sobre a cabeça
dele e a clava não é feita de algodão,
como dizia Napoleon Hill. A empresa levou quase
30 anos para descobrir o sujeito, e, finalmente,
chegou o dia dele. Ninguém engana todos
por muito tempo. A vida ensina.
RH.COM.BR
- E sobre as relações pessoais no
ambiente de trabalho, o que o Sr. constatou como
sendo o fator que mais colabora para o conflito
entre os clientes internos?
Jerônimo
Mendes - A competição mal
estimulada. Costumo dizer que os concorrentes
estão dentro da própria empresa.
Fora dela dá-se um jeito. É necessário
estimular o auto-conhecimento e resgatar o ‘humano’
do ser humano. Enquanto as empresas tratarem as
pessoas como números sempre haverá
conflitos, pois o número está sendo
reduzido a todo instante e então entra
em cena o “salve-se quem puder”. É
pura emoção.
RH.COM.BR
- Hoje, fala-se muito que para obter um bom desempenho
a empresa precisa contar com equipes coesas. Qual
o melhor caminho para se estimular a integração
organizacional?
Jerônimo
Mendes -
Há um mito que precisa ser derrubado: o
mito dos objetivos comuns. Não existem
objetivos comuns se os colaboradores têm
objetivos diferentes. Fala-se muito mal das reuniões
e, realmente, quando mal-conduzidas, viram piadas
de bastidores. Se conduzidas de maneira correta,
no estilo workshop, por exemplo, tendem a tirar
os profissionais da zona de conforto, estimulam
a iniciativa e a troca de informações
e, principalmente, induzem à melhor integração
no ambiente de trabalho. Isso requer gestão
participativa e o envolvimento de todos os níveis
hierárquicos.
RH.COM.BR
- Por que as empresas apresentam tantos conflitos
internos? Onde as organizações estão
errando?
Jerônimo
Mendes -
O despreparo dos líderes em geral e a falta
de transparência nas relações
são os principais fatores. Quando o profissional
entra na empresa ele é praticamente obrigado
a aprender e entender tudo por osmose. Poucas
empresas contam com um Plano de Integração
para adequar o profissional corretamente no ambiente
de trabalho. Desde o início é necessário
que o colaborador entenda qual o seu papel na
empresa, onde ele está e onde ele pode
chegar.
RH.COM.BR
- O Sr. é favorável à adversidade
corporativa? Por quê?
Jerônimo
Mendes -
Sim. Lembro sempre do Max Geringher quando cita
o “Jorginho” e o “Serjão”
nas palestras. O “Jorginho”, recém-formado,
MBA, cheio de sonhos, encontra o “Serjão”,
30 anos de empresa, louco para manter o poder
e ao mesmo tempo inseguro. O conflito é
inevitável. Para manter a empresa oxigenada
não é necessário desperdiçar
a experiência, ao contrário, é
preciso mesclar a energia dos mais novos e a experiência
dos mais velhos. A adversidade obriga o profissional
a rever conceitos e entender as diferenças
de idéias e pensamentos, porém precisamos
evoluir bastante neste sentido.
RH.COM.BR
- Qual o peso da área de RH para uma empresa
que deseja melhorar a relação com
os colaboradores e fortalecer a ética corporativa?
Jerônimo
Mendes -
O papel do RH é fundamental, mas poucas
empresas têm consciência disso e restringem
suas atividades ao antigo Departamento Pessoal
que só se preocupa com a documentação.
Em geral só lembram do RH na hora de demitir
os empregados. É necessário fortalecer
o papel do RH na construção do relacionamento
entre líderes e colaboradores, pais e filhos,
marido e mulher. Fico frustrado quando presto
consultoria nas empresas e não consigo
recuperar o papel social do órgão
através de uma boa política de Recursos
Humanos. O papel do RH é social, antes
de tudo.
RH.COM.BR
– O Sr. comenta que seu trabalho está
voltado para profissionais que estão chegando,
como também para os que já têm
experiência no mercado. De que forma a sua
obra pode auxiliar o dia-a-dia de um profissional
que atua na área de RH? Seu livro pode
ser tornar uma ferramenta para a Gestão
de Pessoas?
Jerônimo
Mendes -
O livro é um exercício de reflexão.
A competição no mundo corporativo
é válida até o momento em
que ultrapassa os limites da ética, portanto,
o livro estimula ao jogo aberto dos profissionais
no sentido de promover a reflexão e o discurso
direto com os colaboradores. Muitas vezes se atribui
ao RH o fardo de aliviar o caos interno da empresa
ao se tentar transmitir a idéia de que
o ambiente corporativo é uma maravilha
e, mais dia menos dia, o empregado constata a
dura realidade e se deprime. Motivar o colaborador
não significa enfeitiçá-lo
pelos benefícios, mas encorajá-lo
a administrar conflitos e sentir-se útil
desde o primeiro dia, afinal, resolver problemas
será sua grande missão dentro da
empresa. O livro mostra que o RH deve ser tão
transparente quanto atraente.
Fonte:
http://www.rh.com.br/ler.php?cod=400$org=2
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