A primeira entrevista realizada pelo portal jeronimos.com.br foi com o Max Gehringer, comentarista da Rádio CBN, colunista da revista Você S/A, escritor e um dos palestrantes mais requisitados do país. Confira a seguir o bate-papo virtual e descontraído com o autor dos livros Comédia Corporativa e Não Aborde Seu Chefe no Banheiro.


Jeronimos – Afinal, Max, você prefere ser chamado de Consultor, Palestrante, Escritor ou Colunista? Com o quê você mais se identifica?

Max Gehringer Das quatro coisas que você menciona, caro Jerônimo, uma eu não sou, nem nunca fui: Consultor. Nada contra, eu apenas acho que não teria a necessária paciência para isso. Se pudesse, eu preferia ser chamado de cronista. Meus artigos e meus comentários pretendem ser pequenas crônicas do dia-a-dia corporativo. Recheadas com todos aqueles personagens estranhos com os quais convivemos nos escritórios e fábricas.

Jeronimos – Você sente saudades dos tempos da carteira assinada? Voltaria a ser executivo de uma grande corporação ou essa possibilidade está descartada?

Max Gehringer – Eu sinto um pouco de falta da adrenalina. Gente reclamando, gente festejando, gente correndo, gente achando que a sua idéia é melhor que a idéia do colega, gente chegando ou indo embora. Isso pode parecer meio paranóico, mas eu gostava daquela pressão. Tirando isso, o que eu faço hoje me dá muito mais satisfação pessoal. E muito mais tempo livre. A grande diferença é que, nas empresas, eu podia depender dos outros. Em meu trabalho atual, só dependo de mim mesmo. Tenho que acordar todos os dias com uma nova idéia.

Jeronimos – O que o levou a trabalhar por conta própria e desistir de todas aquelas benesses que enfeitiçam os profissionais de alto nível no mundo corporativo?

Max Gehringer – Basicamente, uma simples estatística. A vida útil de um executivo vai até os 60 ou 65 anos, no máximo. A de um escritor dura muito mais. Então eu pensei: se eu pretendo ter uma existência decente após a vida corporativa, preciso parar enquanto ainda vou deixar saudade. E não esperar pelo inevitável dia em que alguém iria me dar um relógio por 30 anos de casa, cujo significado é: “Chegou sua hora, meu amigo”. Aos 49 anos, me auto-aposentei. Na época, todo mundo que me conhecia disse que eu tinha perdido o juízo. Mas o tempo vem me provando que essa foi a decisão mais sensata que já tomei.

Jeronimos – Você já foi criticado ou abordado por algum profissional em posição de liderança que se sentiu ofendido em suas palestras, apesar de sabermos que a se trata de uma grande comédia corporativa?

Max Gehringer – Uma única vez, um médico me escreveu para dizer que não tinha gostado de minha palestra. Foi um caso tão isolado, que me lembro dele até hoje. No mais, nunca recebi um só comentário negativo. Quem trabalha sabe que as empresas têm dois lados, o sério e o ridículo. O papel de quem trabalha numa empresa é enfatizar o lado sério. O meu é desnudar o lado ridículo. Na verdade, eu já fazia isso quando trabalhava. Em duas das empresas pelas quais passei, montei jornais internos “piratas”, que mostravam essa face cômica por trás da máscara de seriedade. Numa delas, a Elma Chips, eu já era diretor. Mas, mesmo assim, escrevia o jornalzinho underground. E, o que era melhor, com o apoio do Presidente. Essa talvez seja a demonstração mais prática de uma regra que diz: “para poder rir das mazelas alheias, precisamos antes aprender a rir de nossas próprias mazelas”.

Jeronimos – Qual a diferença básica entre o profissional de hoje e o profissional do século passado? Mudou alguma coisa?

Max Gehringer – Mudou, mas não faz muito tempo. Até o começo da década de 1980, as pessoas ainda entravam numa empresa pensando em se aposentar nela. Ou seja, a administração da carreira era “delegada” à empresa. Mudar de emprego era visto como algo reprovável. E a palavra de ordem era “obediência”. Hoje, as pessoas têm uma relação de utilidade com a empresa. O funcionário sabe que só vai ficar enquanto for útil à empresa. Mas também aprendeu que deve sair quando a empresa não for mais útil à carreira dele. Outra coisa: até 25 ou 30 anos atrás, ter uma faculdade era um diferencial. Hoje, deixou de ser. É preciso estudar mais, e sem parar, porque a concorrência está pesada. Um profissional que passa três anos sem fazer um curso está se tornando obsoleto.

Jeronimos - Por quê razão ainda existem profissionais que insistem na política da opressão para atingir resultados, apesar de toda a literatura existente no mundo corporativo, conselhos de gurus, cursos de liderança etc.?

Max Gehringer – A literatura corporativa tenta mostrar o mundo perfeito. Ou, pelo menos, tenta indicar qual deverá ser o comportamento de um executivo num futuro próximo, quando chefes tiranos e opressores não serão mais tolerados. A dificuldade para implantar imediatamente esse sistema civilizado em todas as empresas está no próprio desempenho delas. Muitas ainda administram as relações pessoais como se estivessem na idade das Trevas, mas obtêm bons lucros. Então, mudar para quê? O que está em andamento é a “Teoria de Moisés”, o profeta que caminhou 40 anos no deserto, até que a geração pecadora se extinguisse totalmente. Nas empresas, eu diria já chegamos à metade dessa caminhada. Mais ainda será necessário mais algum tempo, para que todos os retrógrados saiam do mercado, e dêem seus lugares para pessoas mais arejadas.

Jeronimos – Na sua opinião, ainda existe espaço para a ética no mercado extremamente competitivo e globalizado?

Max Gehringer – Eu acredito que a ética vai prevalecer sobre a falta de escrúpulos. Mas, para que isso aconteça, três coisas são necessárias: pressão da sociedade, leis duras e punições exemplares. Veja o caso dos escândalos político-financeiros de 2005. A sociedade se mobilizou de fato, fazendo passeatas para exigir que os corruptos fossem cassados e punidos? Não. Alguém foi exemplarmente castigado até agora? Não. Portanto, a mensagem que está sendo passada é que os éticos estão perdendo de goleada para os espertos. Por outro lado, em 2005, alguns proprietários e diretores de empresas foram presos por sonegação. É um pequeno passo, mas é um passo na direção certa. O Brasil precisa acabar com a cultura da esperteza, mas isso não se faz da noite para o dia.

Jeronimos – Certa vez você afirmou que a mulher é a única espécie que luta pela própria extinção. Ainda mantém sua opinião ou acredita que a mulher está repensando o assunto?

Max Gehringer – Desde o fim da década de 1960, as mulheres vêm lutando para extinguir milênios de dominação masculina. Dessa batalha, estão emergindo as novas mulheres, que cuidam do lar e administram empresas, ao mesmo tempo. Com isso, a figura do “marido provedor” ficou anacrônica. Provê quem tem mais competência. A mulher que vai sendo extinta é a que achava que tinha que ser submissa, apenas pelo fato de ser mulher.

Jeronimos – As pessoas estão se especializando cada vez mais e freqüentemente ouve-se dizer que as empresas não conseguem profissionais qualificados para seus quadros de trabalho. Na sua opinião, qual a razão desse paradoxo?

Max Gehringer – Muitas pessoas estão se especializando nas mesmas coisas, o que cria um excesso de oferta para determinadas vagas, e falta para outras. Por exemplo, as empresas têm dificuldades para contratar bons mecânicos. Mas, se for aberta uma vaga de Engenheiro Mecânico, surgirão dezenas de bons candidatos. Existe hoje uma proliferação de faculdades (minha cidade, por exemplo, tem 80 mil habitantes, e quatro faculdades, que formam 450 alunos por ano). Mas existem, relativamente, poucos cursos técnicos (minha cidade tem um SENAI, que forma 30 alunos por ano). O efeito perverso disso é que sobram candidatos para o topo, e faltam candidatos para a base.

Jeronimos – Se o Presidente do Brasil pudesse ser contratado no mercado de trabalho, o que você levaria em consideração para selecioná-lo?

Max Gehringer – São processos intrinsecamente diferentes. Nenhuma empresa que eu conheço pensou, algum dia, em fazer uma eleição direta entre seus funcionários para escolher quem vai presidi-la. Portanto, o sistema empresarial sempre funcionou de forma oposta ao sistema político. Pesando as duas situações, eu deixaria tudo como está. Continuo sendo a favor de eleições livres e democráticas para governantes, e a favor da contratação dos melhores profissionais para dirigir empresas. Porque, quanto mais fortes as empresas forem, menor será o peso da interferência política. Veja o caso exemplar dos Estados Unidos.

Jeronimos – Você recomendaria sua própria contratação?

Max Gehringer – Com o salário mais alto da empresa, e com todas as mordomias possíveis e imagináveis. Se eu não acreditar em mim, como eu posso esperar que alguém acredite?

Jeronimos – Qual a sua recomendação para o “Jorginho”, aquele profissional recém-formado, cheios de sonhos, que inicia no mercado de trabalho?

Max Gehringer – Conheça gente, Jorginho. De cada quatro vagas que aparecem, três são preenchidas pela indicação ou referência, de alguém que já trabalha na empresa. Portanto, não perca o contato com seus colegas de Ensino Fundamental. Um dia, um deles vai dirigir uma empresa, e poderá dar-lhe uma mãozinha. E não aposte que o pior aluno da classe será um fracasso profissional. Fique em contato com todos. No atual mercado de trabalho, ter um bom currículo é ótimo, mas conhecer as pessoas certas é essencial.