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DITADURA DA PLANILHA?
OU VIDA DURA SEM PLANILHA?
Raúl
Candeloro
Se
você estava na Terra nos anos de 2005 e 2006,
deve ter visto ou pelo menos ouvido falar do filme Matrix,
onde os computadores criam um mundo virtual paralelo
para controlar os seres humanos. Um pequeno grupo se
revolta, foge para o mundo real e passa a lutar contra
a máquina.
Uma das cenas mais marcantes é quando Neo, o
herói, acorda pela primeira vez no ‘mundo
real’, vai para a cabine de comando da nave e
encontra uma pessoa monitorando o mundo virtual lendo
o código do computador. Para Neo, recém-chegado,
aquelas linhas de código não representam
nada. Muito menos um mundo virtual inteiro, com pessoas
interagindo e coisas acontecendo. Mas para quem sabe
ler o código, está tudo ali, na sua frente.
(Tanto é assim que o símbolo do filme
são justamente as linhas de código).
Toda vez que começo a falar em workshops sobre
processos, rotinas e sistemas, sempre encontro vendedores
e gerentes que se revoltam contra o que eles chamam
de ‘ditadura da planilha’: que a vida não
se enquadra em caixinhas do Excel, que tem coisas que
não dá para planejar, etc. A triste verdade
é que são ignorantes que não sabem
ler. Alguém que não sabe ler uma planilha
simples, no mundo de hoje, é um analfabeto funcional.
Pode até saber ler e escrever, pode ser competente
no que faz, mas tem uma lacuna na sua formação.
Lutar contra uma planilha é como lutar contra
o alfabeto. A confusão mental fica clara quando
uma planilha é transformada em gráfico
de pizza, com um texto explicativo, do tipo: nossas
vendas caíram 7%, mas do produtos A e B (ou serviços
X e Y), aumentaram 28%. Aí todo mundo diz: “Aaaahhhhh!
Agora entendi! Porque não falou antes?!?”.
Foi falado, está lá na planilha, mas numa
linguagem que elas não entendem. Tem que ‘traduzir’,
mesmo que seja o mais básico e simples. E beabá
(ou 1, 2, 3) para adultos na empresa é triste.
Daqui já ouço os clamores de revolta de
uma parcela indignada de leitores. Pode gritar o que
quiser – geralmente os que gritam são justamente
os que tem dificuldades de lidar com planilhas e, ao
invés de se dedicarem a conviver em paz, de uma
vez por todas, com as tais das planilhas, preferem usar
todo seu poder intelectual para justificar seu analfabetismo
funcional e atacar os números (como se eles tivessem
culpa, ou se importassem, ou fossem embora). Fingir
que um problema não existe não resolve
o problema.
A verdade é que muita gente tem uma visão
romântica do processo da venda, ou do empreendedorismo.
Acham que a planilha mata isso. Mas é justamente
o contrário. Um bom músico não
fica reclamando que só existem 7 notas musicais.
Que as 7 notas aprisionam seu talento e que se tivesse
10 notas... aí sim é que seu talento ia
realmente despontar. Isso não existe. Se algum
dia você encontrar um músico assim, reclamando
que precisa de mais notas para mostrar seu talento,
pode ter certeza que é um músico medíocre.
Ou você acha que Mozart, Beethoven, os Beatles,
Tom Jobim achavam pouco 7 notas? Achavam nada. Estavam
muito mais preocupados em compor do que em justificar.
Alguém inventou um sistema, um processo e uma
planilha para escrever música. São 7 notas
e uma partitura . Ali dentro, você pode inventar
o que quiser. Quem é bom vê poesia nessa
organização. Quem é ruim briga
com a partitura.
Se chego numa empresa e pergunto “Qual é
a margem do seu produto/serviço mais lucrativo”,
e não sabem responder. Se pergunto “Qual
é a média de desconto dado pelos seus
vendedores” e não sabem responder. Se pergunto
numa loja “Qual é a prateleira, ou o corredor,
que mais vende”, e não sabem responder...
então temos obviamente um problema. E não
é um problema romântico.
Não tem treinamento, plano de incentivo, campanha
promocional ou poesia romântica que resolva a
falta de conhecimento básico sobre o negócio.
E conhecimento, no mundo dos negócios, é
planilha. É uma das máximas da qualidade
total: o que não se mede, não se melhora.
Se quiser continuar fazendo de maneira artesanal, tudo
bem. Boa sorte. Mas que seja uma decisão pensada.
Não uma indecisão sentida. Principalmente,
que não seja por analfabetismo funcional.
Abraço, boas vendas,
Raul
Candeloro
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