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AI, QUE FOME
Mario Persona
Escritor, Consultor, Professor e Palestrante
26.08.2008
Ufa!
Ainda bem que terminaram os Jogos Olímpicos.
É frustrante ver tanta gente em boa forma na
hora do jantar. Quase posso ouvir meu prato dizer, como
em filme policial: "Tudo o que você comer
poderá ser usado contra você".
Até que consegui perder uns quilinhos nos últimos
três meses. Apertei o cinto de 93 para 87 quilos
reduzindo a atividade do maxilar e aumentando a das
pernas. É fácil perder peso. Nos últimos
anos perdi peso várias vezes.
Emagreço quando dou palestras, por manter a boca
ocupada. Como não dou palestra 24 horas, decidi
criar minha própria dieta: saladas, frutas e
fomes. Isso mesmo, no plural, porque a fome é
muita. Eu já tinha me esquecido da sensação
de fome. Qual foi a última vez que você
teve uma fome daquelas de quando era criança?
No tempo em que maiô ainda era de lã, daquele
que parecia coador ao sair da água, eu treinava
natação. No fim do treino eu devorava
um pão com mortadela na cantina do clube. Quando
dava sorte vinham dois palitos, um em cada metade, que
eu lambia e mastigava para não desperdiçar
nem um gostinho sequer, tamanha era a fome. Outro dia
vi uma foto da época e lembrei-me dos palitos.
Eu era assim, fininho.
Não tinha esse negócio de salgadinho e
batata frita. Naquele tempo quem quisesse comer batata
frita precisava pedir à mãe na véspera.
Ela ia comprar a batata, descascar, esquentar o óleo,
fritar, secar e... mandar você esperar, porque
faltavam duas horas para o almoço.
Hoje não. Basta rasgar a embalagem e a batata
está ali, dourada, crocante, deliciosa! E cheia
de gordura, aromatizante, sal e glutamato monossódico,
para o seu corpo se transformar numa verdadeira represa
de retenção de líquidos. Se continuar
assim, as balanças de nova geração
virão graduadas em arrobas.
Até as revistas estão se adaptando aos
tempos rotundos. Outro dia vi uma revista dessas de
gente chique que joga golfe. Meu olho de arquiteto percebeu
que as fotos das socialities e emergentes tinham sido
esticadas na vertical.
As empresas começam a abrir os olhos para o problema
da obesidade e você já encontra cardápios
light nos refeitórios. O problema é que
eles ficam ao lado daquela fonte de suco de maracujá
que é puro açúcar.
A campanha pela saúde no trabalho só tende
a crescer, porque a banha precisa diminuir. Gordura
demais faz cair a produtividade e a barriga para fora
da calça. Daqui a pouco vai ser preciso incluir
no currículo peso e medidas de busto e quadris.
Pode apostar que será decisório na contratação,
como já é a questão do fumo.
Qualidade na vida e no trabalho é um tema para
o qual tenho sido convidado para falar com uma freqüência
cada vez maior. Daí minha urgência em perder
dez quilos e ganhar dez anos. Dou-me por feliz por não
fumar, não ter fígado flex e nem ser viciado
em doces. Portanto é só diminuir a quantidade
do que entra pela boca e aumentar o que sai pelos poros.
Para isso faço caminhada ouvindo meu i-Pobre,
uma versão barata do i-Pod.
A campanha contra o fumo nas grandes empresas vai ganhando
características aterradoras. Visitei uma que
começou criando uma sala para fumantes, depois
um espaço fora de cada prédio e, finalmente,
distribuiu quiosques pelas centenas de metros quadrados
do terreno onde ficam suas instalações.
O passo seguinte foi fazer uma parceria com a chuva
e eliminar as coberturas dos pontos.
Agora a empresa está eliminando pontos intermediários
para o fumante ser obrigado a caminhar dezenas de metros
até o ponto mais próximo. Se correr, dá
tempo de acender, tragar uma vez e voltar.
De olho nesse novo padrão de consumo, em breve
os fabricantes devem lançar cigarros menores,
ou mesmo picotados, para você fumar só
um pedacinho. E a indústria da reciclagem vai
querer o seu quinhão, lançando maços
de bitucas ou baganas remanufaturadas.
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