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MEU PAI, O OPALA
E EU
Mario
Persona
Escritor, Consultor, Professor e Palestrante
07.08.2008
Um Chevrolet Opala zerinho, rosé-metálico,
duas portas, rodas tala-larga, que causava sensação
por onde passava. Foi o carro que meu pai comprou logo
que tirei minha carteira de motorista. Não era
para mim, era para ele. O carro dos seus sonhos.
Quando
o Opala chegou, meu pai me entregou as chaves sem qualquer
restrição ou hesitação.
Eu conhecia bem os limites e sabia também o quanto
ele gostava daquele carro. Odiaria desapontá-lo
traindo sua confiança. Eu o dirigia do jeito
que ele havia me ensinado, mantendo o ovo no capô
do carro.
Eu
sabia de cor a história dos motoristas de Rolls
Royce que eram treinados para não derrubar um
ovo de sobre o capô do automóvel. A história
que meu pai volta e meia recontava era uma metáfora,
pois no capô do fusquinha no qual aprendi a dirigir
teria sido impossível manter até um ovo
frito.
Foi
com histórias, parábolas e analogias que
cresci e aprendi, e com a relação de confiança
e respeito que meu pai foi construindo entre nós.
Eu raramente levava bronca. Nem quando precisei de um
pedacinho de madeira e serrei o primeiro centímetro
do metro de dobrar que ele usava em sua oficina no quintal.
Eu nunca soube quantas tábuas ele serrou com
a medida errada.
Quando
precisei de um prego do tamanho certo para meu carrinho
de rolimãs, o pino central do paliteiro de prata
de minha mãe serviu direitinho. Percebi que meu
pai ficou desapontado, mas não entendi como um
paliteiro podia ser mais importante do que um carrinho
de rolimãs. Meu pai me compreendia.
Eu
respeitava meu pai, e acho que isso tinha muito a ver
com a confiança que ele depositava em mim até
nas situações mais esdrúxulas.
Como no caso do cigarro. Eu devia estar no curso primário
quando disse a ele que queria fumar. Qualquer criança
que pedisse isso levaria uns tabefes. Não de
meu pai.
Mandou
que eu fosse ao Bar do Jacó comprar um maço
de cigarros e, depois de me ensinar a acender e tragar,
foi trabalhar. Engasguei, tossi e quase vomitei, sem
falar da brasa que fez um furinho no sofá de
meu quarto, mas que eu deixei para revelar em outra
ocasião. Quando ele voltou do trabalho devolvi
o maço faltando apenas um cigarro.
Aquele
maço ficou anos em cima do guarda-roupa para
eu pedir a ele quando quisesse. Na escola não
era para aceitar cigarros de amigos, só dele.
Afinal de contas, eu era seu filho!
Lembro-me daquele maço empoeirado em cima do
guarda-roupa toda a minha infância e adolescência,
como um lembrete da confiança que ele depositava
em mim. Nunca fumei.*
As
chaves do Opala eram uma espécie de voto de confiança
para inaugurar minha fase adulta. O carro ainda cheirava
a novo quando um dia ouvi um barulho de liquidificador.
Pelo retrovisor lateral vi a tala-larga da roda traseira
ficar cada vez mais larga, até a roda sair inteira.
Alguma peça se quebrou dentro do diferencial
moendo as engrenagens e soltando o eixo com roda e tudo.
Passado
o susto do incidente e da conta do mecânico, meu
pai contou o caso numa daquelas rodas de parentes em
festa de aniversário. Ali, na frente de todos,
alguém inventou que me viu pela cidade dando
arrancadas e cavalos-de-pau com o Opala de meu pai.
Neguei, mas de que valia a palavra de um adolescente
em uma roda de adultos?
Na
volta para casa meu estômago doía só
de pensar que meu pai pudesse ter acreditado naquela
história. Esperava ouvir uma palavra de desapontamento,
mas não foi o que aconteceu. Quebrando o silêncio
que pairava no interior do Opala, meu pai me tranqüilizou:
-
Em quem você acha que eu acredito? Nele ou em
você? Oras, você é meu filho!
Tentei
esconder os olhos úmidos. Aquele momento foi
único, algo que nunca mais esqueci e que ficou
só entre nós. Meu pai, o Opala e eu.
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