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DISCRIMINAÇÃO
Mario
Persona
Escritor, Consultor, Professor e Palestrante
21.07.2008
O que será que eu disse para desencadear aquela
reação? Terá sido meu comentário
sobre a falta de qualificação para o emprego
de boa parte dos brasileiros? Não sei. O que
sei é que a jovem não titubeou.
De pé, numa platéia de 1200 pessoas, ela
interrompeu minha fala e metralhou um discurso inflamado
atribuindo a culpa de tudo a 500 anos de escravidão.
Achei que exagerou. Eu nunca vi um judeu por a culpa
de seu fracasso nos 2000 anos de desterro, perseguição
e extermínio.
O amputado sul-africano Oscar Pistorius transformou
a discriminação literalmente na mola propulsora
de uma chance de participar das Olimpíadas de
Pequim. O juiz Joaquim Barbosa Gomes não perdeu
tempo olhando para a própria pele na sua escalada
ao Supremo Tribunal Federal.
Apenas 60 anos após a abolição
do sistema de classes ou castas na Índia, Hari
Pippal já está milionário. Nascido
na classe mais baixa dos "párias",
"imundos" ou "intocáveis",
hoje ele emprega 24 médicos da classe mais alta
em seu hospital próximo ao Taj Mahal. Hari venceu,
apesar de 1500 anos de discriminação.
A discriminação sempre existiu, existe
e existirá por um bom tempo, e nem precisa ser
étnica, religiosa ou social. A partir do momento
em que compramos algo, subimos de posto ou adotamos
uma opinião qualquer, passamos a olhar os outros
de cima para baixo. Pergunte ao torcedor do Grêmio
o que ele pensa do Internacional e vice-versa.
Mas o pior tipo de discriminação é,
sem dúvida, a da garota que discursou em minha
palestra. Falo da discriminação auto-imposta,
que serve de desculpa para tudo. Pior do que ser discriminado
é sucumbir à discriminação,
sentir-se o maior dos injustiçados e mostrar
a carteirinha de discriminado sempre que quiser conseguir
algo.
Outro dia recebi um e-mail que começava assim:
"Sou deficiente físico e gostaria de receber
a doação de um livro..." Pediu da
forma errada. Uma vez um candidato a inquilino tentou
negociar um valor menor no aluguel de um imóvel,
alegando que sua filhinha, que escutava nossa conversa,
era diabética. Com uma motivação
assim a menina vai usar a muleta de sua condição
pelo resto da vida. A auto-piedade é uma droga;
ela vicia e corrói as oportunidades.
Em alguns casos a tentativa de se amenizar os danos
causados pela discriminação pode resultar
em leis ou esforços de ação afirmativa,
que é a preferência de emprego dada aos
membros de uma minoria. Como toda ação
gera uma reação, o troco vem na forma
da discriminação reversa, quando a maioria
exige condições iguais. Quando os fumantes
britânicos passaram a fumar fora da empresa, os
não fumantes reivindicaram os mesmos dez minutos
de recreio.
Há formas culturais e curiosas de discriminação
auto-imposta. Busque no Youtube por "fair &
lovely ad" ou "pond's white beauty" e
veja os comerciais de produtos para clarear a pele.
Enquanto as mulheres ocidentais se cremam no sol para
escurecer, as indianas usam creme para clarear. Os comerciais
são mini-novelas: a mocinha pobre e de pele escura
alcança o sucesso após descobrir que o
creme compensa. Politicamente incorreto para os padrões
ocidentais, esse tipo de apelo parece ser normal por
lá.
Mas a discriminação pode e deve ser encarada
com bom humor quando é fruto da ignorância,
ingenuidade ou pura burrice. Está mais para gafe
do que para discriminação deliberada.
Foi o caso de uma apresentadora de TV que, ao convidar
para o palco duas lindas vencedoras de concursos de
Miss da comunidade japonesa no Brasil, soltou esta pérola:
- Nossa! Que gracinhas! Lindíssimas! Vocês
têm certeza de que são japonesas?!
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